terça-feira, 13 de junho de 2017

Macron - algumas considerações

Para a enorme falange de agoirentos sobre o fenómeno Macron – eu próprio terei os meus agoiros (que serão mais dúvidas) – as coisas não têm corrido bem. Ou, pelo menos, não se têm confirmado. E valerá a pena tentar perceber porquê (independentemente da maior ou menor identificação com o sentido do discurso e do projecto).

A primeira nota a assinalar é, obviamente, a do enorme e reiterado sucesso eleitoral. Depois das duas voltas nas presidenciais, as eleições deste fim-de-semana foram já o 3.º acto eleitoral do qual Macron saiu inquestionavelmente como grande vencedor.

A segunda nota (e agora já não seguirei uma sequência hierarquizada) é a da juventude. Já o disse na primeira ocasião, mas reitero. Os 39 anos de Macron, se estivéssemos nos anos 70, seriam uma banalidade. Em 2017, é um facto permanentemente assinalado, o que diz muito de quão adiadas poderão estar tantas vocações políticas, reféns de um preconceito absurdo e – pior – de lugares captados pelos mesmos de sempre.

Em terceiro lugar – e porque ligado à nota de «juventude» do ponto anterior – está o efeito renovação (numa tripla dimensão): por um lado, e como se prevê, é inspirador que um parlamento receba, de uma vez, mais de 50% deputados debutantes (independentemente da idade desses «novos» protagonistas); por outro, é louvável que centenas de cidadãos se tenham predisposto a, pela primeira vez, se candidatarem e, uma vez eleitos, servirem a causa pública através de um cargo político; e por outro lado ainda – mesmo para quem, como eu, não conhece minimamente o universo de deputados da Assembleia Nacional Francesa – aquele refrescamento do parlamento não se esgota na entrada de novos deputados. Vai simetricamente colher também à saída de uns quantos que tenderiam a eternizar-se naquelas cadeiras.

Uma quarta nota – talvez a mais relevante – diz respeito ao discurso e modus operandi deste Movimento En Marche de Macron. A sua afirmação, por muito complexa e difusa que seja a inspiração doutrinária que a orienta, não tem sido alcançada na base de um programa e de um discurso populista, centrado em promessas de facilidade, engajadas nos interesses corporativos clássicos (que os haverá no movimento, não tenhamos ilusões). Esta circunstância, que no fundo se traduz na sensação de que há ali um ímpeto genuíno que resiste ao facilitismo, é porventura a maior lição desta ainda curta história. Macron toca a musica que acha que as pessoas precisam de ouvir, e não a música do tipo panfletário que as pessoas querem ouvir (como baixar a idade da reforma, subir as pensões, aumentar ou mesmo manter o número de funcionários públicos, reforçar a soberania face a Bruxelas, etc). Parece uma frase feita, mas é disto que estamos a precisar. E depois as pessoas julgam como entenderem. A lição está no julgamento popular que, num quadro como este, até agora lhe tem sido destinado. Vale a pena ser genuíno (rings the bell, senhora May?).

Uma nota final – entre muitas que ficam por dizer – para a debacle do Partido Socialista. Mesmo para um eleitor (como eu seria em França) que não lhes entrega o voto, não vejo com bons olhos o definhamento de um Partido tão enformador e conformador do regime democrático pluralista. Se é certo que me apraz registar a derrota das suas ideias, convém não ignorar que essa derrota não representa (ou parece não representar) a atracção desses eleitores para o «lado dos bons» (permitam-me o parcialismo). O movimento a que temos assistido merece a maior reflexão e monitorização (como se gosta de dizer em politiquês). O poder de atracção desses votos parece estar nos partidos radicais (indistintamente, de esquerda e de direita). E isso é motivo de enorme preocupação.

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