quarta-feira, 7 de junho de 2017

Por qué te callas?

Este artigo do Luís Aguiar-Conraria («E por Lisboa não vai nada, nada, nada?», in Observador) ainda me consegue revoltar. O que é bom sinal. É sinal de que ainda não surtiu em mim o efeito anestésico da habituação. O centralismo doentio (tão bem representado no artigo) deste nosso pequenito Portugal devia revoltar. A mim revolta. Mas devia também envergonhar. Envergonhar mesmo.

Eu não sei quantos cidadãos o norte do país (isolo o norte, mas poderia nomear todo o país para lá da região de Lisboa e Vale do Tejo) já forneceu aos Governos de Portugal. Não sei quantos deputados já passaram pela Assembleia da República eleitos pelos círculos do Porto, Braga, Aveiro, Viana, Vila Real, etc. Não sei também quantos quadros superiores do Estado e de Empresas Públicas vieram do «Portugal paisagem». O que sei é que não há quase memória de uma declaração política, com um mínimo de solenidade e consequência, de algum desses «nossos representantes» sobre este escândalo nacional. Não há um deputado – seja de que bancada for – que associemos minimamente a esta causa da urgente inversão do centralismo. Alguém toma as dores da concentração do Estado todo na capital? O INE, os Supremos Tribunais, o Tribunal de Contas e o Constitucional, a CMVM, as Autoridades de Concorrência, as Entidades Reguladoras, e tudo e mais alguma coisa! Alguém já exigiu (já é caso para exigências) algum destes serviços do Estado central em Coimbra, no Porto, em Viseu ou Aveiro?
E querem que falemos de investimentos públicos? Querem que faça a lista dos 20 maiores investimentos dos últimos 10 anos? Querem saber quantos deles foram realizados no Portugal paisagem?

É uma vergonha. Mas eu, se fosse (ou se tivesse sido) membro do governo, se fosse (ou se tivesse sido) deputado, se fosse (ou se tivesse sido) alto quadro no Estado, eu, sob pena de não ser eu, não me calaria.

É caso para perguntar a cada um desses membros do governo e deputados (e são tantos!): por qué te callas?

#Escritório