sexta-feira, 28 de julho de 2017

Um dó li tá

O Pedro Correia, do consolidado blogue Delito de Opinião, teve o imponderado impulso de me convidar a escrever um texto para o famoso blogue. Mal ele sabia que não ia sair nada de jeito, como podem constatar:

UM dó li tá

Sento-me no sofá, de comando na mão, ainda sem canal de destino.
Por defeito (no sentido supletivo do termo), a televisão abre o sinal com os desenhos animados.
Um dó li tá, ouvia-se de fundo.

Hesito entre os canais de notícias e de debate político – que tendencialmente se dirigem a mim – e os de desenhos animados – que tendencialmente se dirigem aos meus filhos (certo de que a segunda opção preenche os desejos destes, e com enormes dúvidas de que a primeira preencha os meus).
Um dó li tá (ficou a ressoar na minha cabeça).

Política ou desenhos animados? De repente dou por mim a pensar que não será assim tão grande a distância entre uma e outra opção. Sintomática e preocupantemente, há uma sintonia entre as diferentes sintonias. Se de um lado me oferecem a patrulha pata com a missão de defender o bem, do outro impõem-nos diferentes patrulhas com a missão de defender os seus (e, francamente, não sei se o bem).

Patrulha-Pata1[1].jpg

Preocupa-me a bolha cada vez mais nítida e distante em que habitam os políticos que nos dirigem e «representam». A cada episódio, a cada debate, a cada declaração, o fenómeno acentua-se. O modo infantil como somos tratados talvez seja o mais embaraçante. Mas a forma mais ou menos contorcida como a verdade nos é apresentada, a sensação indisfarçável de que quem nos fala de voz grossa está condicionado e é pouco livre, não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério.

Tanto nos contam (como quem conta) que tudo se deveu a um raio, como nos dizem que «se fez tudo o que era possível». Tanto nos oferecem demissões em barda de chefias menores, como nos prometem que não foi nada de especial e que o material roubado estava fora de validade. Tanto nos garantem que não houve cortes e que se batem recordes de défices mínimos, como nos enganam com termos pomposos que representam a mesma sorte (cativações, dizem). Tanto nos asseguram dignificar as vítimas com as respostas completas, como nos escondem testes prioritários de popularidade. Tanto, tanto, tanto.
Um dó li tá (não deixa de me ressoar).

Tratam-nos como se fôssemos criancinhas, sem capacidade para discernir, permeáveis apenas ao argumento de autoridade. Cada declaração, cada promessa ou explicação, transpiram falta de verdade, de pudor até, e de inteligência. Porque é pouco inteligente presumir-nos incapazes de perceber. E ainda é menos inteligente desprezar a degradação do ambiente entre «eles» e «nós». Sobra sempre a sensação de que não são livres. Para a transparência, para a verdade, para a seriedade dos «crescidos».
Um dó li tá (raios, que não me sai da cabeça).

Sinceramente, para ser tratado como criança prefiro o original.
Fico-me pelos desenhos animados e entrego-me, para gáudio dos meus filhos.

Um dó li tá, quem está livre, livre está (ouço agora a frase completa).

Parece uma declaração política. Pois. Não é assim tão grande a distância entre a política e os desenhos animados.

#Saladeestar
#Escritório

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