segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dos parabéns


O ponto de partida sempre foi a minha família. E, em boa verdade, nunca me libertei (nem libertarei) desse referencial.

Mesmo os meus grandes amigos – cujo mérito, quando lhes dou os parabéns, ainda é a minha memória – organizo-os por referência aos de minha casa. O Fulano faz anos no dia do meu pai. O Cicrano no do meu irmão mais novo. O Beltrano dois dias antes da minha irmã mais velha. E por aí fora.

Hoje repete-se. O  faz anos no dia da minha irmã Maria (que sorte, Zé, não podia ser melhor a referência!).

Mas nisto dos anos e dos lembretes, há qualquer coisa que não está bem.
Entre a nossa memória, a agenda (mais digital que física) e o ubíquo Facebook, não vencemos nenhuma manhã sem os avisos de «quem faz anos hoje». Há os que ignoram (e como são coerentes ou reagem esporadicamente, ninguém os toma por ostensivos). Há os que seleccionam (estes arriscam as suas relações com os mais melindrosos). E há os que disparam para tudo o que mexe (estes estão sempre bem). Eu, confesso, vou passando pelos três estados (tenho dias em que ignoro, tenho dias em que selecciono e tenho dias em que disparo para tudo o que mexe).

Mas o problema – que é mais intrusão que problema – não é bem esse. A memória e a agenda pessoal merecem-me todo o respeito. Já o FB, com os seus lembretes e lembretezinhos, abusa pá. Às vezes abusa.
«Hoje a Maria faz anos, felicita-a!», dizia-me.
Mas que raio tem o FB de se meter na minha vida?
«Hoje a Maria faz anos, felicita-a!» …
Então eu não sei??? Achas que eu não sei isso desde que me conheço? Por quem me tomas, pá?

Fico sempre a remoer quando o FB se intromete entre mim e os meus.
E só por isso, quase nunca (tenho os meus momentos de incoerência) correspondo ao desafio. E não felicito à vista de todos. Até porque podiam ficar a pensar que o mérito nem era a minha memória. Nem só de lembrete vive o homem.

#Saladeestar