segunda-feira, 9 de abril de 2018

O sobressalto da chavinha

Volta e meia, no meio de arrumações (ou desarrumações) sobressaltam-me velhas cartas. Cartas mesmo cartas. Com selos carimbados em envelopes de tabacaria e moradas escritas à mão e tudo. Chego a reconhecer o remetente pela letra! E à segunda ou terceira linha reaviva-se a memória (uma viagem, uma novidade, umas velhas saudades que me eram sinceramente destinadas). Tenho saudades dessas memórias, claro, mas mais saudades tenho do sobressalto que já não vivo.
 
Aqueles momentos, meio desajeitados (tantas vezes de mãos sobreocupadas), em que procurava a chavinha que me haveria de abrir a caixa de correio, eram de sobressalto, de dúvida, de expectativa (a fragilidade daquela chavinha – que chegava a ceder quando manuseada com violência – era uma espécie de símbolo lógico). Na caixa de correio jaziam à nossa espera missivas de amigos, da família, da namorada. Podiam estar acompanhadas de correspondência convencional (sempre houve contas para pagar!), mas não era essa que motivava a nossa visita.
 
Hoje não. Continua a chavinha, é verdade. Com a mesma fragilidade, é também verdade. E as contas para pagar, ainda mais verdade. Mas mais nada. Zero sobressalto. Zero fragilidade (da que interessa). Zero «saudades».
As contas para pagar dominam hoje a nossa caixa de correio. E para quem não teve o zelo ou a paciência para aqueles avisos amarelos «Publicidade aqui não» pode contar também com mil e um folhetos de publicidade (digo folhetos, que não cedo aos «flyers») e propostas de compra (senhor proprietário, se estiver interessado em vender o seu imóvel ... blá, blá, blá). Já nem os convites escapam ao abandono das caixas de correio (qualquer «evento» no Facebook serve). Não há um abraço escrito, um beijo endereçado, uma lágrima pingada no papel. Não há sequer mão humana naqueles escritos.
 
Ao menos ainda vou tendo o sobressalto de velhas cartas. Qualquer dia sobrar-me-ão os sobressaltos de velhas passwords. Ou não. Acho que não.
Tenho saudades do sobressalto da chavinha.
 
#Saladeestar