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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Bragança calls

Eu, por exemplo (já o disse várias vezes) acharia muitíssimo bem que o Instituto Nacional de Estatística ou o Instituto do Mar e da Atmosfera (só para dar dois exemplos) se «deslocalizassem» não para o Porto mas para Bragança ou para Faro, ou para a Guarda ou Castelo Branco, ou Braga ou Beja (para início de conversa escolheria Bragança).
Ah, claro, os trabalhadores não quereriam porque têm as suas vidas em Lisboa (onde é que haviam de ter as suas vidas?). Já sei. Porque é lá que têm a casa que estão a pagar ao banco, a escola dos miúdos, a sogra e a melhor amiga.

Desculpem lá. Haverá algum movimento de «deslocalização» (detesto a palavra «deslocalização») para fora de Lisboa que mereça a aprovação dos respectivos trabalhadores?
Haverá algum movimento de «deslocalização» que cumpra os estudos de eficiência económica que reivindicam (como se estivéssemos a falar de um problema de eficiência e de estabilidade)?
Haverá algum movimento de «deslocalização» que não contrarie de frente o critério da racionalidade de custos?

Se continuamos a colocar o problema nesse plano – no dos trabalhadores, no da estabilidade, no da racionalidade imediata dos custos (tudo critérios que sensatamente devem ser medidos) – anuncio-vos já as conclusões: qualquer serviço relevante do Estado é em Lisboa e só em Lisboa que deve estar e permanecer para todo o sempre.
O problema, meus amigos, é que há mais Portugal para lá de Lisboa (circunstância que, já sei, não gera qualquer leve rasgar de vestes).
Esse Portugal para lá de Lisboa merece a atenção, o investimento e a presença equilibradamente disseminada do Estado. Porque ao lado do critério da racionalidade económica e de custos, está o do equilíbrio do território. E – não tenho dúvidas – esse equilíbrio, para quem não tem vistas curtas, é condição para a dita racionalidade económica a médio prazo.

É também isto que iconicamente se joga nesta história da mudança do Infarmed para o Porto. E seria muito interessante e simbólico mudar por exemplo um INE (ou parecido) para Bragança (depois do «EMA in Porto» eu alinhava numa campanha «Bragança calls»).

PS. E não me venham com a ideia (aparentemente sedutora) de que não faz sentido deslocalizar serviços estabilizados em Lisboa. Que o que faz sentido é fixar de início novos serviços e entidades fora de Lisboa (e só esses).
Pois eu não concordo. Primeiro porque o nosso problema não é um problema de défice de Estado (já temos que chegue). O problema é mesmo o do excesso de concentração em Lisboa. E depois porque o Estado que interessa e que representa as áreas relevantes de actuação naturalmente já existe. E, portanto, ou bem que a descentralização se faz através desses serviços que «interessam» ou não vale a pena perdermos tempo.

#Escritório

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Sois uns meninos

Para lá dos soundbytes e de uma certa libertação infantil de uns quantos que desataram a carpir sobre o Porto e as suas pretensões (o que para aí estava reprimido! Chega a ser confrangedor…) vai ser muito interessante seguir o processo político e social de mudança da sede do Infarmed de Lisboa para o Porto. Aliás, já está a ser.
Não me interessa a motivação. Pode ser um rebuçado, pode ser um simples gesto político discutível, pode ser por impulso na sequência da candidatura à EMA. Pode ser o que quiserem que para a análise de fundo pouco me interessa. Porque o que me interessa agora é o facto. E o facto é que uma determinada organização do Estado fecha portas em Lisboas e transfere-se para o Porto. Olhemos desapaixonadamente para ele.
De repente, na voz dos muitos que têm voz, parece impossível uma decisão dessas.
O que vai ser das 400 pessoas e suas famílias (parece que serão 400) que estão em Lisboa e que terão que ir para o Porto?
E como é que é dos custos dessa transferência?
E o edifício onde funciona actualmente o Infarmed, qual o seu destino?
Dúvidas e mais dúvidas, argumentos e mais argumentos, ansiedades e mais ansiedades (certamente legítimas, não questiono).
Meus amigos, têm muito a aprender. Muito mesmo. E se quiserem venham aqui ao Porto que nós temos ampla experiência. São muitos quilómetros. Mais de 20 anos. Milhares de famílias e amigos. Experiências pessoais. Quase que se poderia dizer que é a história da nossa vida.
Fazem ideia de quantas vezes uma organização fechou no Porto e se transferiu para Lisboa?
Fazem ideia de quantas vezes edifícios da nossa cidade ficaram desertos e sem destino porque a organização que o ocupava fechou no Porto e se concentrou em Lisboa?
Fazem ideia de quantas famílias nossas se mudaram de armas e bagagens para Lisboa porque o emprego do pai ou da mãe fechou no Porto e se transferiu para Lisboa?
E fazem ideia de quantas vezes temos que ir a Lisboa porque o serviço que precisamos só pode ser resolvido numa organização instalada em Lisboa?
Como se ouve muito por cá nos nossos bairros, «sois uns meninos».

#Escritório

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

EMA in Porto (só mais uma achega)

Eu não alimentarei a discussão que inevitavelmente se ensaiará sobre o empenho do Governo, sobre a opção pelo Porto ou por Lisboa, sobre a sorte que teria tido a candidatura portuguesa se a estratégia tivesse sido outra.
Uma vez ultrapassada a polémica interna não há notícia de que o empenho de todos não tenha sido inexcedível. E isso é muito mais importante que repristinar polémicas vãs.
Mas gostava de deixar ainda uma nota. O Porto (e arrisco dizer, Portugal) precisava desta candidatura. Fez bem ao Porto passar por este exigente processo. Fez bem ao Porto ter de se apresentar na Europa perante tão competentes adversários. Fez bem ao Porto ter de cumprir um périplo diplomático a que não está habituado. Fez bem ao Porto ter de ser bandeira de Portugal numa importante disputa política europeia.
Na Europa e em Portugal o Porto precisava desta candidatura. E não tenho dúvidas que ganhou.


#Escritório

EMA in Porto

Não foi. Mas podia ter sido.
Neste «podia ter sido» (talvez seja mais rigoroso dizer «podia mesmo ter sido»), está parte da relevância desta jornada à volta da EMA.
Várias vezes duvidei.
Num primeiro momento – como todos – duvidei internamente (chega a ser caricato que as primeiras, e porventura mais injustas, dúvidas brotem dos nossos, de nós próprios).
Num segundo momento duvidei que ainda fosse possível apresentar-nos a ponto de olharem mesmo para nós. O nível de exigência do processo era quase incompatível com os timings com que nos vimos confrontados.
Duvidei, também, do cumprimento de alguns dos pressupostos. Não se trata propriamente de duvidar do Porto. Trata-se, antes, de sensatamente reconhecer que o nível de abrangência e de exigência não era manifestamente fácil de cumprir.

Depois, passei a confiar. Confiei nas pessoas que nos representaram e que cumpriram magistralmente. E confiei que só poderia correr bem. Como correu, devo dizer.
Porque o processo nos honrou (e deixará marcas). Porque, de facto, os resultados revelaram que o Porto é um destino muito competitivo e completo. E porque se desta vez não conquistámos a EMA (e eu não escondo que vibraria com semelhante conquista) estaremos na calha para projectos e sedes futuras (o passo foi dado, e no radar já se lê «Porto»).

Um abraço especial ao Ricardo Valente (a quem abraço por todos).


#Escritório

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Carta aberta pelo Interior (para quem a quiser ler)

Passou um mês.
Têm sido muitas as iniciativas de solidariedade a favor do interior e das pessoas afectadas pela tragédia dos incêndios. Mais ou menos institucionalizadas, mais ou menos formais, mais ou menos eficazes. Não podemos deixar de valorizar esse esforço e essa entrega de tantos.

O meu tema, contudo, é outro. É o mesmo, mas é outro.
Refiro-me ao interior. A esse interior exposto e abandonado. Que está à mercê da sorte porque já quase não há quem dele cuide. É um problema do Estado? Claro que é. Mas é sobretudo um problema de todos. Porque o Estado «surfa» sempre a onda que, no curtíssimo prazo, lhe convém financeira e eleitoralmente. E, por nossa causa, o interior não lhe convém.

Eu, sinceramente, ainda pensei que o trágico 15 de Outubro (para mais, depois de Pedrógão) gerasse em Portugal um sobressalto consequente e radical em favor do interior abandonado. Um mês passado – apenas um mês depois – constato que era vã a minha esperança.
O que aqui digo sempre direi (mesmo que possa prejudicar os meus próprios e comezinhos interesses de menino instalado, de menino da cidade e do litoral). E não o digo por alinhamento ou conveniência. Porque há matérias (claro que há) que não são de esquerda ou de direita. Esta, aliás, padece do mal oposto – o de não ser de ninguém.
Dispensarei meias palavras.
A luta pela resistência do interior (acho que devemos colocar a questão em termos quase de sobrevivência), continua a não merecer mais do que desprezo (meio disfarçado, mas desprezo).

Ou bem que há uma mudança de hierarquias brutal, com consequências radicais no plano da afectação dos recursos financeiros do Estado, ou não vale a pena perder tempo.
O Estado e as populações – aquele com estas, estas por causa daquele e vice versa – foram desertificando uma parte cada vez mais extensa do nosso território. Pois se as populações não podem ser coarctadas (e naturalmente desrespeitadas) na sua liberdade de partir, ao Estado não assiste – não pode assistir – essa bonomia e tolerância.

Por estes dias, o debate público é dominado pela necessidade de reconstrução de casas que foram consumidas pelo fogo, pelo esforço de recuperação de pequenas indústrias e empresas (e até de parques empresariais completos) que representavam muitos dos postos de trabalho vigentes no interior. Eu não concordo. Porque eu não posso concordar com um modelo de intervenção que se baseie na ideia de reposição da situação anterior aos incêndios de 15 de Outubro. É preciso muito mais do que uma mera reposição.
Sem esforço, sem estudo rigoroso (como gostam tanto de apregoar), sem eufemismos, qualquer um de nós consegue apontar o caminho. Vários caminhos. É preciso recursos? Claro. Muitos! Mas o caminho é tão claro que custa aquele discurso da reposiçãozinha.
Eu dou exemplos (remato à baliza, para usar uma expressão que todos entendem).
É urgente o regresso do Estado. Tribunais, escolas, centros de saúde, serviços de finanças, postos dos correios, centros de emprego, postos da GNR. O Estado, que desistiu do interior, tem de regressar para ajudar no regresso das populações.
Pois onde não há Tribunais não moram advogados e solicitadores, oficiais de justiça, procuradores e juízes. E respectivas famílias.
Pois onde não há escolas não moram professores e funcionários. E respectivas famílias. Pois onde não há centros de saúde e hospitais não há médicos, enfermeiros, auxiliares de saúde. E respectivas famílias.
Pois onde não há serviços de finanças, postos de correio, centros de emprego e postos da GNR não há funcionários do Estado. E respectivas famílias.
Pois onde não há nada disto não há restaurantes, lojas, empresas, pessoas. E respectivas famílias. Que justificam, por sua vez, aqueles Tribunais, aquelas escolas, aqueles centros de saúde e hospitais, aqueles serviços de finanças, postos de correio, centros de emprego e postos da GNR.

O regresso do Estado é urgente. É obrigatório. E pode e deve passar por serviços centrais do próprio Estado. Serviços como o Instituto Nacional de Estatística, como o Tribunal de Contas, como o Instituto do Mar e da Atmosfera e – já agora – como a anunciada empresa pública das florestas (no fundo, serviços do Estado «a sério», que podem e devem funcionar no interior do país).
É também urgente olhar para o território como um bem a cuidar. Não vale a pena teorizar muito. Basta olharmos para os quarteis dos bombeiros e para os postos da GNR do interior do país. Estamos a falar de quarteis e de postos da GNR que «cobrem» enormes áreas territoriais. Enormes e sensíveis. Deviam ser os quarteis e os postos mais equipados, com mais activos e com maior e mais competente capacidade operacional. Pois estão no extremo oposto. Os meios são poucos, estão obsoletos e não têm capacidade de resposta (naquele fatídico 15 de Outubro, lembro-me do relato de dois autotanques inoperacionais no quartel de bombeiros de Tábua, por exemplo, e vi dois jipes de combate avariados à porta do quartel de Vila Nova de Tazem). E se olharmos à GNR os militares são pouquíssimos e sem a mais pequena capacidade operacional (basta ocorrerem dois incidentes em simultâneo em duas freguesias vizinhas que é certo que uma delas não terá resposta). Insisto. Não vale a pena teorizar muito. É mesmo assim.
No domínio das infra-estruturas, também há todo um mundo pela frente. É indispensável dotar o interior de redes de comunicações de qualidade (internet e móveis) e de transportes de qualidade entre concelhos. Há que desenvolver um programa de reflorestação em grande (enorme) escala, com o predomínio de árvores comprovadamente não combustíveis, e em que serão incluídas espécies animais adequadas à flora a plantar. E este plano deverá passar também pela criação (não é no papel nem na lei) de parques nacionais devidamente infra estruturados, com guias profissionais , com fiscais preparados, com profissionais de manutenção e de limpeza (parques que caricatamente não fiquem inacessíveis ao primeiro espirro de neve!). E, naturalmente, um plano de recuperação da originalidade das nossas aldeias – muitas das quais com potencial para integrar a rede de «aldeias históricas».
Em suma, era mesmo preciso um plano global, de fundo, ambicioso. Não para recuperar o que o 15 de Outubro nos levou. Mas para inverter o abandono. Para relançar o equilíbrio do país, sem nos vergarmos ao estafado efeito spill-over que tudo justifica na capital e no litoral. Um plano para, em boa verdade, projectar o futuro.
Não há dinheiro, estarão a pensar em tom adversativo.
Há. Claro que há. Então não há?
Quando olhamos às manchetes, aos anúncios e aos orçamentos, vemos que há. Muito até. Vemos devoluções de mais de 1000 Milhões de Euros. Vemos redes de metros em Lisboa e no Porto a expandir. Vemos terminais portuários. E vimos estádios e «Expos». Vimos pontes e auto-estradas. Há dinheiro. Falta é vontade a sério. Se quiserem um slogan, falta interiorizar o interior. Aquele interior que não dá votos. Aquele interior que não cumpre os critérios estritos e curtos de racionalidade económica (ou economicista). Mas aquele interior que nos justifica e que temos de honrar.

#Escritório

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O acantonamento da vida não é saudável

Nunca o escondi. Sempre o afirmei. Cada vez mais o sinto.
A defesa da vida (que em linguagem directa, passou e passa por não aderir ao aborto livre e, por estes dias, se traduz também na resistência à eutanásia) é uma causa tão séria como nobre.
Aliás, não tenho dúvidas que é uma causa justa – porque é de «justiça» que cuidamos quando um ser indefeso é protegido para poder viver, como é de «justiça» que falamos quando, num momento terminal, esperamos do Estado (pelo menos, também) respostas diferentes da «solução final».
Repare-se que os actos consequentes de quem milita ou reivindica a proeminência da vida são, em boa verdade, actos consensuais e naturalmente louváveis. A assistência a mulheres com dúvidas ou dificuldades, bem como a prestação de cuidados paliativos a quem sofre, não são – não podem ser! – matéria de facção, objecto de resistência ou de divisão. Estou certo que qualquer pessoa de boa-fé, mesmo que não se reveja num quadro de valores em que o da vida figura como prioritário, reconhece a justeza de uma sociedade que se organiza para prestar assistência a mulheres com dúvidas ou dificuldades, promovendo o nascimento dos seus filhos, e reconhece quão importante é dispormos de uma rede de cuidados paliativos ao serviço dos que mais sofrem.

Vistas as coisas assim é muito difícil compreender o acantonamento a que vão sendo votados os que se dedicam a estas causas. Nos partidos, nos media, e no espaço público em geral, quem ousa promover a causa da vida merece pouco mais que os mínimos olímpicos de cobertura e atenção. E mesmo essa cobertura, quando existe, é tendencialmente menorizante e pouco abonatória (o que contrasta com o tratamento de que gozam os que, com a mesma liberdade e legitimidade, militam em favor da liberalização).

Este fim–de-semana, por exemplo, organizaram-se caminhadas pela Vida. Aqui no Porto, no percurso pacífica e ordeiramente percorrido entre o Largo da Sé e a Praça dos Leões, não sei bem quantos seríamos. Talvez 400, 500, 600. Em números «sindicais», talvez milhares. Não sei. Sei que fomos ignorados. Que «nada aconteceu», para quem, pelos media, quis saber o que aconteceu. Qualquer acampamento político com 50 jovens. Qualquer manifestação com 5 ou 6 professores. Ou 20 ou 30 funcionários públicos. Ou 10 ou 20 enfermeiros. Um qualquer «desses legítimos números» consegue ampla reportagem, chega a lograr uma primeira página de jornal ou mesmo um directo na televisão. Nós, não.

É certo que estiveram lá mais que 50 jovens (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). É certo que estiveram lá mais que 5 ou 6 professores (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). É certo, também, que estiveram lá mais que 20 ou 30 funcionários públicos (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). E estiveram lá mais que 10 ou 20 enfermeiros (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). Ou então, talvez seja isso que nos falta. Invocar outras qualidades. Porque por muito absurdo que pareça, por estranho que seja face à representatividade que ainda lhe assiste, a militância da vida, pelos vistos, vive acantonada e não existe.

Temo sinceramente por uma sociedade, como esta, em que a defesa da vida é militantemente acantonada. Porque o acantonamento da vida não é saudável.

#Jardim
#Escritório

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Inés Arrimadas

Mesmo para alguém, como eu, que não tem «lado» porque não se sente habilitado a compreender inteiramente nem a aspiração independentista catalã nem a convicção autonomista com a integração no Estado espanhol, há um lado a que não resisto. O dos protagonistas.


Olhamos, ouvimos e estudamos a figura do Pudgemont (há meia dúzia de meses nem o difícil nome sabíamos pronunciar). E olhamos, ouvimos e estudamos a figura de Inés Arrimadas. Ignorem por momentos (eu sei que é difícil) a questão estética – e quem me conhece sabe como não desprezo a estética na política. Fixem-se simplesmente na postura, nas intervenções, no conteúdo. Se em Pudgemont sentimos o oportunismo, a vacuidade estratégica, a coragem titubeante, em Inés Arrimadas, sentimos a convicção, a militância democrática, a coragem genuína. E – regressemos à estética – a fluência discursiva, a indumentária sóbria e elegante, o tom doce e firme, fazem de Inés Arrimadas uma líder invejável. Sorte a dos Catalães.

#Escritório

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Vou ser muito directo


300 Milhões de Euros. Sim, 300 Milhões de Euros.
Na sequência da catástrofe dos incêndios deste ano, é esta a verba (300 Milhões de Euros) que o Governo anuncia com pompa e circunstância. Parte desse montante são, aliás, linhas de crédito.
300 Milhões de Euros para recuperar o território, a floresta, casas, instalações industriais, estradas, infra-estruturas… Só quem não conhece a imensidão de território que está em causa é que pode ficar calado.
Eu não sei que país é este. E poupo-vos a exercícios de comparação. Mas 300 Milhões de Euros foi, por exemplo, o que o Estado gastou na estação de metro do Terreiro do Paço.
Uma estação de metro para o interior ... sinto vergonha.


#Escritório

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sócrates e as indignações


Há dois motivos de indignação. O primeiro é a demora da investigação e do sistema de justiça. O segundo é a suspeita, traduzida em acusação, sobre um ex-Primeiro-Ministro (e relacionado com essa sua condição), dos crimes de corrupção, fraude e branqueamento.
Podem ficar indignados pelo primeiro motivo (e eu estarei convosco). Mas eu, por acaso, fico mais indignado com o segundo. Muito mais.
#Saladeestar
#Escritório

Declaração unilateral de suspensão de uma declaração unilateral

Há os clássicos «agarra-me se não eu mato-o» ou o «fumei mas não inalei».
Há ainda a famosa «entrada de leão e saída de sendeiro»
E também serve bem aquela rábula do Ricardo Araújo Pereira a caricaturar o Marcelo Rebelo de Sousa sobre o aborto (com sim, não, sim, não).
Agora temos esta bizarria da declaração unilateral de suspensão de uma declaração unilateral.
#Escritório

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O mesmo baralho de cartas de há 30 anos


Olhamos para o PS e vemos António Costa onde «ontem» víamos António José Seguro.

No PSD vemos Pedro Passos Coelho, onde «ontem» víamos Manuela Ferreira Leite e «amanhã» – ao que parece – veremos Rui Rio ou Pedro Santana Lopes (que já víramos ontem).
António Costa, António José Seguro, Pedro Passos Coelho, Manuela Ferreira Leite, Rui Rio, Pedro Santana Lopes.
Há mais de 30 anos à volta dos mesmos protagonistas. Está na altura de comprar um baralho de cartas novo …

#Escritório

Rogério Martins

Recebeu-nos em sua casa. A nós, uns miúdos. Ainda que mais curiosos que deslumbrados. Com alguma presunção de pertinência e conhecimento. E com o interesse e a educação de quem quer aproveitar e sabe estar. Mas uns miúdos com vinte e poucos anos.
Não era o primeiro jantar. Já não sei se não terá sido o último (pelo menos daqueles em que participei).

O nome de Rogério Martins, do Engenheiro Rogério Martins, transportava-me para a política de indústria, antes do mais, e para os primeiros tempos de Sá Carneiro como Primeiro-Ministro (tempos gloriosos, aos nossos olhos). A ideia de conversarmos com um dos homens por trás do mito era suficientemente sedutora. Mas não era só isso. E não foi só isso. Quem conhece (já quase ninguém conhece) a vida e a história de Rogério Martins sabe bem que teve uma vida cheia, densa e que deixou rasto.
Guardo daquele jantar várias ideias. Uma das quais – talvez a mais relevante – a de que as luzes da ribalta são uma ilusão absolutamente transitória. E porque é assim – esta é a segunda ideia – vale a pena saber ser humilde mesmo no exercício das mais elevadas responsabilidades ou de cargos com especial influência e consequência. E depois – terceira ideia que guardo – não há azedume, ressentimento ou desilusão que abale o regresso ao «anonimato» – porque, no fundo, quando não houve presunção não deixará de haver serenidade e bonomia no período justo do recolhimento. A conversa não foi bem sobre isto (foi mais sobre política e episódios vividos). Mas, afinal, foi também sobre isso.
Naquela abertura para conversar connosco, para mais recebendo-nos em sua casa, estava um modo de vida. Não sei se algum de nós (Gonçalo MatiasGonçalo Veiga De MacedoPedro VelezFrancisco Pereira Coutinho, David Oliveira Festas, Manuel Gil Fernandes) lhe agradeceu devidamente. Eu não. E já não vou a tempo.



#Saladeestar

#Escritório
#Jardim

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Independemente da Catalunha


Sinto-me completamente inabilitado para comentar, com um mínimo de profundidade, o que se está a passar na Catalunha.
Mas não resisto a fazer um pequeno comentário lateral (que é independente – «independente» sem conotação – da disputa ou da crise Catalã).
A minha simpatia ou distanciamento face a uma determinada luta pela autodeterminação de uma região não depende de os líderes ou movimentos pela autodeterminação serem de esquerda ou de direita ou, se quiserem, de a perspectiva do Estado cuja independência se disputa, vir a ser um Estado, social e politicamente, à esquerda ou à direita.


#Escritório

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Rui Rio

Sob o ponto de vista político estou demasiado distante de Rui Rio.
Do que lhe conheço e ouvi sobre a organização do Estado, sobre o sistema judicial, sobre o pluralismo e o funcionamento das instituições democráticas, sobre a cultura (não apenas a cultura democrática, mas também a propriamente dita), sobre os costumes e os valores, sobre a mundividência, a visão e a postura na política, estou, repito, demasiado distante de Rui Rio.
Seria (será?) uma péssima escolha para a liderança do PSD.

#Escritório

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

As autárquicas de 2017 e o CDS

Sob o ponto de vista autárquico o CDS não é tradicionalmente um dos partidos da alternância (como são o PS e o PSD). O que quer dizer que o CDS só alcança a vitória em dois tipos de concelhos - naqueles em que o PS é pouco representativo (em que portanto os dois partidos da direita disputam entre si a liderança), ou naqueles em que é o PSD que se «acanha». É nos primeiros - naqueles em que o PS não é tão representativo - que o CDS vem fazendo o seu caminho rumo à recuperação do peso autárquico de que precisa (e que merece, acrescento eu). É assim em Ponte de Lima. É assim em Santana, na Madeira, como é assim em Vale de Cambra, em Albergaria a Velha e em Oliveira do Bairro (a nova conquista). Velas, nos Açores, é mesmo a excepção, onde a disputa, por razões muito locais, é com o PS.
Esta circunstância - e outras a que me referirei já - são a primeira advertência para as dificuldades que o CDS sempre terá neste tipo de eleições. É que um partido como o PS dificilmente deixa de assegurar níveis de representação entre os 20-25%, o que reduz o espaço de partilha à direita e sugere que esse espaço se preencherá em progressão (passando pelo PSD antes de chegar ao CDS). Porque o eleitorado ainda oferece alguma resistência à flutuação «per saltum» (o que à direita do PS beneficia o PSD em detrimento do CDS, sem lugar a ponderações de mérito). Há ainda que reconhecer o peso da tradição, do hábito, do voto por defeito. Também aí, entre o CDS e o PSD, é este que mais sai favorecido. Talvez o peso da tradição mereça uma expressão própria - corresponde ao voto de «manifestação standard» (inventei agora a expressão). O que é que isto quer dizer? Basicamente que quando o PS está no poder e um eleitor pretende mudar, o seu instinto vira-se para o PSD. Ou quando esse eleitor quer premiar ou reforçar a oposição, identifica-a com o PSD, antes do CDS. A primeira imagem de incumbente, de alternativa, de oposição, ainda beneficia o PSD, antes do CDS. E esta «tradição» acrítica é muito difícil de alterar.
Ora, é a esta luz que os resultados de ontem são extraordinários para o CDS. O primeiro exemplo, o mais representativo e também mais difícil, é Lisboa. O feito da Assunção Cristas - sublinho «o feito» - é extraordinário a todos os títulos. Ela conseguiu, sem margem para dúvidas, conquistar o lugar da alternativa ao PS. É a segunda força política no concelho. Com mais de 20% dos votos e com 4 vereadores eleitos.
Mas há mais resultados muito relevantes para o CDS. Bem sei que haverá especificidades locais (cisões, «faltas de comparência» do PSD», alguma fulanização de protagonistas «superiores» ao próprio partido, candidaturas independentes). Mas há um padrão na extensão do peso autárquico do CDS.
Se olharmos à Covilhã vemos o CDS com uns expressivos 15% (pena a fidelidade da Covilhã ao PS, porque o arrojo, a coragem e a qualidade do Adolfo fariam bem à sua terra). Se olharmos a Nelas, vemos o CDS com 25% e como segunda força política no concelho. Os mesmos 25% que vemos no CDS em Lamego. E vale a pena revisitar Ponte de Lima, onde a esmagadora maioria absoluta se alcança apesar de uma cisão no próprio CDS (que, a julgar pelos eleitores locais, foi bem dirimida a nível nacional pelo partido). E com esta referência regresso a Lisboa e a Assunção Cristas. É tão dela esta jornada eleitoral do Partido! Foi ela que deu o mote, quando sem receio, com enorme risco mas com evidente vontade (conta tanto a vontade!) anunciou a sua própria candidatura a Lisboa. Esse impulso de coragem política foi essencial, como se demonstrou. E foi justamente premiado.

Uma nota final para o meu Porto. O CDS não se apresentou «directamente» a eleições. Teve, no entanto, uma participação relevante e elegante (sublinho elegante) na candidatura vencedora. Merece totalmente a representação que terá na Câmara Municipal, na Assembleia Municipal e nas Juntas de Freguesia.
PS. Como é próprio nas eleições locais, em alguns concelhos as coisas não correram nada bem, com a perda de mandatos (designadamente onde «dói mais» que é na vereação) e com candidaturas e campanhas muito aquém do esperado e exigível. Mas mantenho, ainda assim, a leitura global muito favorável.

#Escritório

E no Porto?

1. Ganhou Rui Moreira. Foi justo e importante. Tenho a certeza que o mandato será melhor que o discurso de vitória.
2. Há qualquer coisa que eu não percebi na vitória de Manuel Pizarro. Escapou-me. Mas lá que o discurso foi empolgado, isso foi.
3. Álvaro Almeida teve a serenidade e a postura que não lhe conheci quando se apresentou. Na reação aos resultados contrastou com o fraquíssimo resultado.
4. Há muita gente de parabéns. Muita gente de que gosto muito. E há agora projectos e ideias a cumprir. A bem do Porto!


#Escritório
#Salaodevisitas

O PSD ...

Lisboa, Porto, Gaia, Matosinhos, Oeiras, Gondomar. Isolo estes municípios, mas podia continuar a discorrer. Estamos a falar de grandes cidades, nas duas áreas metropolitanas. Onde, portanto, há mais eleitores.
Os resultados do PSD em cada um destes concelhos é absolutamente humilhante. Não estamos a falar de um caso isolado, de uma especificidade local (que as haverá), ou de uma má escolha. Não. É mesmo um padrão. Um partido que desiste - porque desistiu - de disputar muitos dos mais relevantes (em número de eleitores e em mandatos) municípios, revela falta de visão, falta de sentido (ou de razão de ser) e, no fundo, desorientação.
Não é bom sinal. E a distância para a infidelidade (que ainda não se manifesta completamente), a falta de hábito (há ainda algum voto por defeito e por preconceito), e para a mudança para outras paragens, é muito curta. E talvez seja justo.


#Escritório

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Em reflexão

Estamos confinados ao concelho em que residimos por ser esse o critério de «conexão eleitoral». Sucede que muitas vezes – especialmente nas áreas metropolitanas – essa circunstância remete-nos para o terreno da indiferença.

Não é o meu caso – que nasci, vivo e trabalho no Porto, pelo que sou eleitor no concelho com o qual me acho «ligado». Mas conheço imensos exemplos de «vítimas» daquele critério único de conexão eleitoral.
Alguém que tenha nascido no Porto (podia também usar o exemplo de Lisboa), tenha vivido grande parte da sua vida no Porto, tenha estudado no Porto, tenha agora os seus filhos a estudar no Porto e trabalhe no Porto, seria no Porto que, muito provavelmente, gostaria de votar. Mas se essa mesma pessoa comprou um apartamento na Maia onde se «deita» à noite, é na Maia que pode «deitar» o seu voto (em vez da Maia podia usar o exemplo de Gaia ou de Matosinhos).
Não interessa invocar que o concelho que conhece bem é o Porto, que sabe quais são, onde são e como são as suas freguesias, as suas qualidades e carências, os seus protagonistas associativos e políticos. Não interessa invocar que mal conhece a Maia, as suas freguesias, os seus protagonistas associativos e políticos locais. Pois repito. Se comprou um apartamento na Maia onde se «deita» à noite, é na Maia que pode «deitar» o seu voto.

Há uns anos – no tempo em que o cartão do cidadão e o NIF não estavam tão oleados (sempre o sistema da AT a provocar estragos) – ainda era possível manter o recenseamento eleitoral, não obstante a mudança de concelho de residência. Hoje, entre IMI’s e IMT’s, registos e registinhos, nada passa ao «sistema» e estamos mesmo «obrigados» a estar recenseados eleitoralmente no concelho de residência.

Eu conheço muito boa gente que não tem vontade de votar porque não vota onde, justificadamente, tinha vontade de votar. Sei bem que não é um tema de resolução fácil, mas talvez valesse a pena pensar nisto. Até porque – e esta é uma última nota – podemos estar em presença de um fenómeno socialmente pouco saudável. As cidades onde este tema é mais relevante (Lisboa e Porto) são suficientemente grandes para que este condicionamento eleitoral não assuma uma expressão excessiva. Mas no limite há aqui uma «depuração» do universo eleitoral – a reboque, ou como consequência dos constrangimentos do mercado imobiliário – que mereceria reflexão.

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terça-feira, 26 de setembro de 2017

O voto dos qualificados

Acho graça à sobranceria com que sempre olharam àqueles eleitores do norte que elegiam as Fátimas Felgueiras, os Avelinos Ferreiras Torres e os Valentins Loureiros para as suas câmaras municipais. Eram eleitores de concelhos – julgam eles – menos desenvolvidos, menos urbanos, com uma população predominantemente de baixas qualificações e com escasso poder de compra. E era esse contexto que gerava cidadãos mais facilmente manipuláveis, que não tinham grande critério nas suas escolhas, e que, no fundo, eram menos capazes para o exercício esclarecido do direito de voto. Quase que melhor seria que lhes suspendessem o direito de votar.
Não conheço a realidade de Oeiras em 2017. Mas imagino um concelho rural, sub-desenvolvido, com uma população predominantemente de baixas qualificações e com escasso poder de compra (desculpem lá tanto preconceito junto). Só pode…


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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Merkel ontem e hoje

Eu ainda sou do tempo em que nos referíamos à Chanceler alemã como a «Senhora Merkel». Era o tempo em que projectávamos os nossos males nos outros (tendo como principal protagonista a Alemanha da «Senhora Merkel»). De tanto sublinharmos essa imputação à «Senhora Merkel» nem nos dávamos conta de como nos expúnhamos ao nosso próprio complexo de inferioridade. Claro que esse estrebuchar infantil ficava entre portas (a voz grossa e machista não tinha visto para atravessar a fronteira). E, curiosamente, era mesmo um tique de «género» (ao contrário da «Senhora Merkel», Hollande e tutti quanti não mereciam essa coisa do «Senhor» e eram poupados à nossa indignação).
Passaram alguns anos, os protagonistas internos trocaram de papéis, a imputação indignada à «Senhora Merkel» deixou de ser útil e até veio uma crise de refugiados em larga escala que nos revelou quem é consequente e quem não é (quem se fica pelas proclamações populistas e quem dá a mão não olhando às recomendações eleitoralistas).
De Merkel a história já não se livra. A maior democracia da Europa (digo maior simplesmente para significar que estamos a falar da democracia com mais eleitores), pela quarta vez consecutiva, escolheu livremente Angela Merkel.
E mesmo num cenário de «geometria» eleitoral incerta – em que ainda se medem as soluções e os acordos possíveis para assegurar a governabilidade – de Angela Merkel sabemos que estará sempre do lado da democracia. Ela que já testou quase todo o tipo de coligações. Ela que agora testará outro. E nesse outro sabemos – mais um mérito de Merkel – que não será premiada a ameaça dos partidos extremistas, sejam eles de esquerda ou de direita (porque para um democrata, no que é fundacional, não vale a pena distinguir).

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