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domingo, 10 de abril de 2016

Irmãos

A hierarquização do amor tem tanto de absurdo como de impossível. Há diferentes amores, há diferentes relações de amor e há naturalmente diferentes expressões de amor.
Mesmo em família, não vale a pena comparar o amor dos pais pelos filhos (porventura o mais incondicional de todos), com o dos filhos pelos pais (na hora justa, talvez o mais reconhecido e agradecido), ou com o amor conjugal (que emana da nossa escolha e se exprime na comunhão mais completa).
Os irmãos conhecem-se de sempre. No seu melhor e no seu pior. Sabem uns dos outros o que nunca os pais saberão e o que os maridos ou mulheres não têm nada que saber. Não fazem cerimónia entre si e partilham os orgulhos e os embaraços familiares.
Quando penso no amor de irmãos não penso nessa lógica impossível de saber se é o maior da nossa vida. Sei que é enorme. Que provavelmente é o mais transparente, mais genuíno e mais autêntico.
E, já agora, para mim é sobretudo indispensável.
#Jardim

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O que levarias na mochila?

Não é bem suposto vivermos atormentados, mas de cada vez que penso no drama dos refugiados (e penso especialmente nas milhares de crianças órfãs que vagueiam por esses campos de lama, frio e indiferença) fico transtornado e quase bloqueado. Não posso largar tudo – afinal não posso, eu próprio, gerar mais órfãos – mas é criminosa a indiferença ao mais alto nível que este drama colossal suscita.

Há um ano a divulgação das imagens de um enorme naufrágio, com as pessoas a desaparecerem no mar, despertaram a nossa sensibilidade para o drama dos refugiados. Mas foi com a fotografia horrível daquela criança entregue pela espuma da maré que a nossa sensibilidade ficou genuinamente exacerbada. Era demasiado real e chocante para não gerar um impulso de disponibilidade, ainda que difusa.

Confesso que por algum tempo alimentei a esperança de que aquelas vidas não se teriam perdido em vão. Internamente, projectei essa esperança no processo eleitoral em curso e nos programas que cada partido então preparava. Achava que fariam eco do «bruá» colectivo que momentaneamente a causa dos refugiados experimentava. Foi curta e vã a minha esperança. A pobreza dos programas – de todos os programas – estava totalmente alinhada com o calculismo e o jogo político que os Estados exibem, sem pudor e sem humanismo, nos acordos e verbas que com pompa anunciam.
 
Enquanto tiver consciência farei um esforço para não me ser indiferente. E procurarei que à minha volta o sofrimento e a desgraça alheia nunca sejam indiferentes. Sei que só faço o mínimo – diariamente, ao deitar e ao acordar, junto-me aos meus filhos para pedir pelos que mais sofrem (especialmente as crianças como eles).

Mas apetecia-me fazer-me à estrada. E à pergunta «o que levarias na mochila» responderia tão simplesmente com «nada». Levaria os braços abertos para abraçar aquelas crianças abandonadas e apresentava-lhes a cara envergonhada para um enorme pedido de desculpas.

#Jardim

sábado, 26 de março de 2016

Páscoa na Beira

É sagrado. Podendo, é à Beira que me entrego na Semana Santa. Por muito que as comodidades do dia-a-dia tenham contaminado (para o bem e para o mal) as terras do interior, ainda é cá que sinto mais autenticamente o real significado destes dias. Na Páscoa (como no Natal) facilmente dou por mim perdido e desfocado do essencial. Distraio-me com as coisas comuns e deixo passar levianamente os dias como se banais dias de férias fossem.
É por isso que preciso de cá vir. Para sentir os cheiros e os sons da tradição de que provenho. Para ouvir o sino da igreja paroquial a convocar-nos à hora certa para o que interessa. Para a festa da Eucaristia, na quinta-feira. Para a adoração da Cruz, na sexta-feira santa, e para a missa de aleluia no domingo maior da nossa fé.

É desconcertante, mas este ano não teremos compasso. Ao que parece já não se justifica. Faltarão vocações e fiéis. Que pena ... tenho a sensação de que o encontro com a cruz nunca se justificou tanto.

Santa Páscoa para todos!

#Jardim

terça-feira, 22 de março de 2016

De hoje

1. Há uma candura – quase cobardia – no modo como condenamos estes atentados;
2. O extremismo islâmico que, invariavelmente, tem motivado estes crimes horrendos, não encontra paralelo (a uma escala aproximada) em qualquer outra religião;
3. Mais que o problema religioso com o Islão, temos o problema em afirmar a existência do problema religioso com o Islão;
4. O nosso «way of life» (a liberdade de que nos orgulhamos de praticar) não vai nem pode ir ao ponto de condenar ou de proibir o Islão;
5. Mas é justamente por causa da nossa liberdade que, entre nós, o Islão tem de ser controlado, contido, seguido;
6. Não gozarmos todos das mesmas presunções faz parte da vida. É assim com as pessoas. É assim com os grupos. Tem de ser assim com as religiões.

#Jardim

segunda-feira, 14 de março de 2016

Nicolau Breyner

Sempre desdenhei dos actores portugueses. Sempre padeci daquele provincianismo de que os estrangeiros eram muito melhores na arte de representar e por isso fui resistindo ao aportuguesamento progressivo que essa arte (felizmente) foi conhecendo.
Se fui injusto no meu provincianismo com tantos e tantos bons actores (reconheço-o e penitencio-me), sempre excepcionei o enorme Nicolau Breyner.
Não conheço actor português – ou melhor, artista – mais versátil, completo e notável.
Podia ser galã ou vilão. No teatro ou no cinema. Na revista ou na telenovela. Podia ser em registo de humor ou de drama. A cantar ou a declamar. Ao vivo ou em estúdio. Podia ser a sorrir ou a chorar. Em monólogo ou a contracenar. A preto e branco ou a cores.
Nicolau Breyner era simplesmente notável. Sempre notável. O que é notável!
Paz à sua alma.

#Jardim

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Moção das cinco pedrinhas

Cinco ou seis pedrinhas. Tinha sempre de procurar cinco ou seis pequenas pedras. Por regra, à quinta ou sexta vez que acertava na janela da sala de estar do 1. Esquerdo era presenteado por aquele sorriso meigo e agradecido que já justificava a minha visita. A campainha era como se não funcionasse. Era já uma convenção (não sei se por segurança se por já nem captar o som da campainha que soava na outra ponta da casa).

Naquela salinha, com os pés pousados numa escalfeta e a ler as inocentes anedotas do Clarim, vivi dos melhores lanches (com o melhor leite e as melhores torradas) da minha vida. E sobretudo - muito sobretudo - com a melhor companhia. Arrependo-me de não ter repetido o programa o dobro das vezes (lição que levo para a vida e a que os meus filhos não escaparão).

Quando me procuro situar, quando me quero orientar, quando persigo o registo certo, é naqueles encontros que me inspiro.
Só hoje vejo tão perfeitamente como estava lá tudo. A entrega amorosa, a bondade, as certezas, as raízes, o surpreendente e disfarçado arrojo, as necessárias incoerências, a aceitação quase não assumida (mas praticada) dos desvios alheios, e o maravilhoso sentido de humor (qual líquido que tudo une).

Afinal, nestes tempos de programas, manifestos e moções, estava aqui a verdadeira moção. Das cinco ou seis pedrinhas brotava toda aquela sabedoria. Tão simples.

#Escritorio
#Jardim

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Voar à janela

Já não me lembro da excitação das primeiras «passagens» (como continuam a dizer os brasileiros). Ainda hoje preservo a preferência pelo lugar da janela nos aviões.
Por regra, chego ao fim do percurso sem ter sequer passado os olhos pela janela. Passo mais pelas «brasas», confesso. Mas a hipótese - fortuita que seja - de me deter sobre a paisagem que sobrevoo inclina-me para os lugares da janela. Mesmo que a escolha implique ficar refém dos dois passageiros do lado.
Há duas paisagens que me surpreendem sempre.


A imensidão de nuvens sem fim, abraçadas e leves, que me inspiram ao conforto do sobrenatural e me colocam no meu devido lugar. Pequenino. Impuro. Insignificante.

E o Porto. Sempre o Porto. Visto do céu o Porto nunca é banal. Nunca cansa. Quando a luz e os ventos consentem vê-lo do alto, o Porto impressiona sempre.



#Salaodevisitas
#Jardim

sábado, 16 de janeiro de 2016

Aureliano da Fonseca

Alegra-te ó Céu!
Querias tudo, querias um capaz de tudo, que fez de tudo? Aí o tens!
Querias um criador inspirado? De músicas, de cantorias e tangos e até de hinos? Claro que querias! Aí o tens!
Querias um estudante - um eterno estudante - um Professor, um mestre, um médico, «o» especialista? Aí o tens!
Querias um navegador e viajante, aventureiro e humanista? Recebe-o que aí o tens!
E poeta e escritor, e fotógrafo e colecionador? Está aí, recebe-o! Sofisticado e galã como ele é.
Sim, é o filho fiel de pai e mãe. O marido fidelíssimo de dezenas e dezenas de anos. Como dezenas e dezenas são os que lhe devem o bem maior que é a vida. E outros tantos (ou mais!) que mereceram e sentiram como se dele fossem. E milhares serão os que de seu trato gozaram e não esqueceram.
E tu sabes, ó Céu, que foi para Deus e por Deus que viveu tanto. Até ao fim que nunca teve fim.
Se eu mandasse? Se eu mandasse soariam os sinos!
No Porto, na Universidade, nos pianos, nos tangos, nas tunas, nos hospitais e consultórios, na poesia e na prosa, na fotografia, nas viagens pelo mundo. E no Brasil e na Suíça, nas Pousadas e na Urgeiriça. Seriam os seus filhos, com os filhos dos filhos, e mais filhos. Todos - e mais os mochos - a puxar as cordas dos sinos deste mundo.
Alegra-te ó Céu! Para os reencontros, os abraços e as saudades de 100 anos! Alegra-te ó Céu!
#Jardim

domingo, 10 de janeiro de 2016

Proposta para Janeiro

Não faz qualquer sentido este mundo empedernido. Em que a paz e a concórdia são uma miragem ou palavras vãs em tantos e tantos púlpitos solenes.

Não vou propor nada. Já está proposto pelo Papa Francisco para este mês de Janeiro.


#Jardim