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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

União das freguesias

- E tu, em que freguesia votas? Na União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, na União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde ou na União das freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos?
- Quer dizer, eu nasci na União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, morava na União das freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, mas agora moro na União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.
- Mas então onde votas?
- No Porto.
- Mas onde? Na União das Freguesias de Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, na União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde ou na União das freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos?
- Ah, desculpa. Voto na União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde.

Não sou só eu a achar esta coisa da «União das Freguesias de …» uma canseira, pois não?

#Saladeestar

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Aeroportos

Não viajo ao ponto de me ser indiferente ou de sentir aversão. Mas passo quase sempre por dois estados de espírito. Antagónicos e sucessivos. Se antes da partida até sinto um estranho desejo de lá estar, em poucos minutos salto para o desejo oposto de me libertar.
Compreendo mal aquela primeira atracção, devo dizer. A banalidade dos cheiros, dos sons e dos avisos. A ansiedade mal resolvida enquanto não se confirma o embarque (acho sempre que perdi o bilhete e que o telemóvel vai ficar sem bateria). A obediência bovina (até porque pouco racional) dos colegas de sorte na fila para o embarque. Nada sugere prazer (bem pelo contrário).

E depois fico sempre com a impressão que por esse mundo fora há um conluio de incompetentes entre os arquitectos e os gestores deste tipo de infra-estruturas. As zonas de embarque hão-de ser sempre exíguas, com bancos a menos e desesperados pelo turno da limpeza. E (qual pormenor de requinte) o pé direito desses espaços de acumulação de pessoas e de impaciência há-de garantir a experiência completa (de abafo e desconforto).
Com honrosas excepções (uma delas, felizmente, é o Porto) é quase sempre assim.

#Saladeestar

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"A ternura dos 40"

Há uma série de frases feitas (algumas não são bem frases feitas, são mais expressões de experiência) sobre a sucessão de efemérides por que vamos passando à medida que os anos "simbólicos" se acumulam.
Fazemos 10 anos, depois 12, 16, 18 e 21 (21 é mais uma herança, uma espécie de resquício do tempo em que a maioridade não se alcançava aos 18). Passamos, depois, pelos 25 e pelos 30, até chegarmos aos 40 (por estes dias, festejo vários 40's, antes de eu próprio - se aguentar mais um ano - lá chegar).
Os anos propriamente ditos pouco me dizem. Qual é bem a diferença entre fazer 29 ou 30 anos? Ou 39 ou 40? Ou, lá atrás, 18 ou 19? Muito mais marcante que a idade em concreto é cada uma das fases que vivemos (como a fase das "primeiras saídas à noite", ou a fase da faculdade, a fase dos primeiros anos de trabalho, a fase dos filhos a nascer, e por aí fora, pondo de lado o facto óbvio de cada um ter o seu percurso, a sua própria sorte e o seu ritmo).
No caso dos 40, há de facto, uma diferença. Não tem bem a ver com a fase em que cada um está. Tem mesmo a ver com a efeméride de fazer 40 anos. Os 40 - essa "ternura" musicada pelo velho Paco Bandeira - traz-nos, como nunca antes, a memória do tempo dos nossos pais.
É que todos nós (ou quase todos) não nos lembramos dos nossos pais fazerem 18 anos. Nem 25, nem sequer 30. Mas lembramo-nos bem de viverem e festejarem a viragem dos 40. E dessa constatação até ao remorso (algum), até à ansiedade, até à saudade, vai um passo curtíssimo.
Damos por nós a pensar como era injusta a ideia de que com 40 anos os nossos pais já eram um bocadinho "velhos". Como era possível ser essa a imagem que tínhamos? Hoje, vemo-nos ao espelho e não evitamos a negação e o ... remorso.
Percebemos também (quase à bruta) que o tempo corre sem esperar. Se temos filhos, quase que invejamos o seu estado "bruto" e as fases boas (Deus queira) que enfrentarão. Percebemos, com alguma ansiedade, que não falta muito. A eles, sim. Mas mais a nós. E ainda mais aos nossos pais, seus avós.
E não conseguimos resistir à saudade. A propriamente dita, pelo que já passou. E a antecipada, pelo pouco que falta. Talvez não a nós (ainda vivemos presunçosos, confiando que teremos outro tanto para viver). Mas aos nossos pais.
Temos saudades dos nossos pais com os nossos 40. Percebemos as dúvidas e as confianças de então. Perdoamos e revemos os juízos precipitados que fizemos sobre algumas das suas escolhas. E percebemos que a eles temos mesmo que "regressar". Deve ser isso, ou devia ser, a tal "ternura dos 40" (e é capaz de funcionar aos 20, aos 30 e aos 50).

#Saladeestar

terça-feira, 5 de setembro de 2017

...

- Preciso de um tempo.
- Como assim? Precisas de um tempo?
- É bom estarmos juntos, mas eu preciso de espaço, de ter tempo para mim.
- Como assim? O que se passa? O que é que eu fiz?
- Não és tu. Sou eu.
- Mas queres que eu vá?
- Sim. Basicamente. Que finalmente acabem essas férias e que vás para as aulas. Que eu preciso de um tempo. De normalidade.

#Saladeestar

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Como fazer?

Hoje é dia 25 de Agosto. Eu lembro-me bem do 25 de Agosto em que o Chiado se transformou num inferno de chamas descontroladas. Foi – com justa consternação – uma catástrofe que gerou a comoção nacional. Rezam as crónicas que «um residente e um bombeiro morreram, 70 pessoas ficaram feridas, mais de 300 desalojadas e outras duas mil perderam os locais de trabalho». Uma verdadeira catástrofe de má memória.
A cidade de Lisboa em particular, mas o país como um todo e, portanto, o Estado central, organizaram-se para reabilitar a zona ardida, recuperando os edifícios, as ruas e as infra-estruturas.
Menos de dois meses volvidos sobre a tragédia, o Estado criou o Fundo Extraordinário de Ajuda à Reconstrução do Chiado (FEARC) – ao qual sucedeu mais tarde o Fundo Remanescente de Reconstrução do Chiado (FRRC) – associando-lhe legislação própria, uma generosa dotação inicial do Orçamento do Estado e mobilizando os melhores arquitectos e engenheiros do país. Fez-se o que se devia fazer. Ter-se-á, porventura, demorado mais tempo do que o desejado (está-nos no sangue) mas não se deixou de dedicar a atenção e os meios extraordinários que um evento extraordinário exigia. Num Estado decente é assim que se deve fazer.

Estamos em 2017. Passaram quase 30 anos sobre aquele fatídico 25 de Agosto. Tivemos Pedrógão, Mação, Oleiros, a Serra da Estrela do lado da Covilhã, e tantos mais, especialmente no norte e no centro do país.
Já não sou capaz de saber quantas centenas de casas arderam – muitas delas de primeira habitação. Já não sei bem quantos hectares de floresta e de mato foram consumidos pelo fogo. Choro pelos muitos locais de trabalho que o fogo destruiu (medidos em fábricas e armazéns consumidos). Choro pelas centenas de feridos. E choro sobretudo pelas 65 pessoas que perderam a vida.
Quantos 25’s de Agosto já tivemos em 2017? Quantas catástrofes do Chiado vivemos e estamos a viver por estes dias?

Eu sei.
Pedrógão não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou no Porto).
Mação não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou no Porto).
Oleiros não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou no Porto).
A Serra da Estrela não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou no Porto).
O resto do país não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou no Porto).

Mas o mínimo que se exige é o mesmo empenho do Estado central. No mínimo, o mesmo. Um Fundo Extraordinário de Ajuda à Reconstrução. Legislação Especial. Dotações expressivas do Orçamento do Estado. Um plano com os Sizas Vieiras da segunda década do século XXI.
Para que daqui a 20 ou 30 anos olhemos para Pedrógão, Mação, Oleiros, etc, com o orgulho com que hoje olhamos para o Chiado.

Num Estado decente é assim que se deve fazer.

#Saladeestar
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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O regresso de férias (V)


Quaisquer dois dias de trabalho (quaisquer duas ou três horas ...) servem para destruir completamente o «modo de férias». A rotina (boa ou má) regressa com uma facilidade estonteante.
Porque diabo não é assim com o «modo de férias», que chega a demorar uma semana a conquistar completamente?


#Saladeestar

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O regresso de férias (III)

E aproveitaste para dormir? A pergunta tem vários defeitos. O primeiro é o de assumir que dormir é sinónimo de descanso (claro que é, não vou negar o óbvio). Mas recuso-me a essa visão desinteressante do descanso. Eu não passo sem «descansar» à base de serões noite dentro, a conversar, a discutir, a ler, a rir, a beber um bom vinho ou uma cerveja bem gelada. E não vale a pena ter ilusões que não há como não roubar ao sono para conseguir … descansar.

E depois, esquecem-se de um pormenor relevantíssimo e inultrapassável. Podemos dormir bem nas férias. Aliás, convém que durmamos bem nas férias. Mas dormir mesmo bem, só mesmo depois das férias. Confessem lá. Há ou não há uma espécie de reconciliação no regresso à cama de todos os dias? É ou não é onde se dorme melhor?

#Saladeestar

O regresso de férias (II)

Há de certeza um conluio. Entre a EDP, as Águas do Porto, a NOS ou a MEO e, sobretudo, muito sobretudo, a Autoridade Tributária. Todas se organizam para nos enviarem extensa correspondência no clássico mês de Agosto. O conluio vai ao ponto – de certeza! – de se organizarem para saberem com rigor da data da nossa partida. Suspeito que as cartas são depositadas na caixa de correio no justo momento em que, depois de batermos a porta do carro e arrancarmos, desaparecemos no horizonte da nossa rua por uns dias.

E não fazem a coisa por menos – há que concentrar em Agosto aquelas cartas com prazos de pagamento muito curtos, garantindo-se assim o «doloso» incumprimento. E, claro, hão-de ser justamente aquelas contas que já só poderão ser pagas nas diversas instalações dos diferentes serviços.

Até já acho graça ao cerimonial. Fim do mês de Agosto. Encontros marcados nos serviços de água, luz, televisão, finanças. Ticket na mão. Bancos de espera todos ocupados. Ar condicionado pela avaria do ar condicionado. Cartas encarquilhadas na mão (secaram depois de terem estagiado molhadas na caixa de correio). Semblante meio envergonhado, ou não fossem encontros de devedores …

#Saladesestar

Regresso de férias (I)

Vivo os dias de férias (mais os primeiros, quando ainda não desliguei completamente, e o último, quando volto a ligar) com aquela pedra clássica no sapato. Aposto que deixei a luz da dispensa ligada. Aposto que a torneira da casa de banho dos miúdos ficou mal fechada e passou semanas a pingar e a gastar água. Aposto que deixei qualquer coisa na cozinha – ou o lixo por deitar no contentor, ou meia dúzia de batatas, ou um pacote de leite aberto – que infestou a casa com um cheiro desagradável. Aposto que os miúdos deixaram um qualquer aparelho electrónico ligado. Entre assaltos de pânico (não é bem pânico, é uma ligeira aceleração do coração) e suspiros de «que se lixe, depois vê-se» (não há outro remédio, temos de desligar, que não dá para passar as férias em sobressalto), a pedra no sapato volta e meia faz-se sentir. E não é propriamente agradável.
Chegou o dia. Levo a mão ao bolso. Selecciono a chave de sempre (caramba, como até sabe bem regressar aos banais objectos de todos os dias). Estou naquele momento em que a chave penetra e a faço rodar na fechadura (é o auge da tensão e da dúvida - como estará tudo? O que me será revelado por trás da porta?). Acendo a luz.
Sabe bem tirar a pedra do sapato.

#Saladeestar

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Insensibilidade e derrota

Assusta-me esta sensação de (já) ter de me impor uma reacção de horror e indignação perante o próprio horror.

Começa a ser assim. Com os incêndios (em Portugal). Com os atentados terroristas (ontem em Barcelona). Com o terrorismo de Estado (por estes dias na Venezuela).

O risco iminente de insensibilidade - que teimo em contrariar - são um triste sinal dos tempos menos bons que vivemos.

É verdade que a natureza humana é também capaz do melhor - e não devemos perder essa esperança e esse sentido de futuro - mas o alastramento do mal e do ódio não podem ficar por "minutos de silêncio" ou declarações de "solidariedade" (palavra quase vã neste nosso tempo). Ou bem que somos consequentes ao ponto de perceber que estamos mesmo perante um confronto de valores com conteúdo - e então lutamos pelos nossos - ou chegará mesmo o dia da insensibilidade. E da derrota.

#Saladeestar
#Escritório

sábado, 12 de agosto de 2017

Diz que são férias (V)

"Caro Senhor Montenegro, muito obrigado pela sua estadia. Agradecemos que o check-out ocorra até às 10h."
Não há maior anti-clímax das férias que este aviso (ou esta ameaça, para ser mais rigoroso). Passamos dias e dias a conquistar hábitos e horários justos (asseguro que deitar tarde e tarde erguer é saudável), e quando a coisa está bem oleada lá vem a ameaça que estraga tudo. Eu já não gosto da operação "desmontar a tenda" (custa-me mais que fazer malas de partida para férias e muito mais que carregar o carro). E gosto ainda menos de viver esse momento violentando o sono e a harmonia biológica criada ao longo de dias de descanso. E a verdade é que esse dia é sempre precedido de uma noitada de descrição quase proibida (ainda hei-de tentar perceber por que raio os astros se conjugam invariavelmente para que a véspera seja exigente...).

#Saladeestar

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Diz que são férias (III)

Os últimos dias são por regra dias de consumite aguda lá por casa. Meninos, comam os gelados! Meninos, comam os iogurtes! Meninos, bebam sumos! Meninos, comam, bebam, comam, bebam!!!
Depois de vários dias de normal parcimónia (é importante regrar os apetites dos petizes, e gerir o frigorífico com um mínimo de ordem), chegamos aos últimos dias com o propósito inverso. Pouco interessa a coerência (e quase até a educação dos miúdos). Já só interessa não deixar nada no frigorífico para não ter de carregar sobraa de mercearia no regresso. A vida é sempre muito complexa.

#Saladeestar

Diz que são férias (II)

Sempre achei curiosa a tensão a que os casais se expõem nos momentos clássicos de partida e de regresso de férias. E, como que numa espécie de osmose de coerência, a essa tensão junta-se a birra do mais pequeno, a asneira do mais velho e a mimalhice exacerbada da do meio. Tudo em absoluta harmonia, num concurso de stress e confusão. Não sei explicar mas até já acho graça ao fenómeno (o que é meio caminho andado para o contrariar).

#Saladeestar

Diz que são férias (I)

Há a operação malas. Há, depois, a inevitável operação "carregar o carro". E, claro, há os sacos e saquinhos que minam a operação (a mala do carro até fechava sem que se visse um único saco por cima da tampa!). A distância para a condição de carro de feirante é curta e há-de haver sempre um saco (ou dois ou três ou sei lá quantos mais) que nos impõe a rendição. Nunca na vida vamos de férias com classe e com ordem ... mas é mesmo assim.

#Saladeestar

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mega felizes e sempre fixes

Não foi nada de especial. Quer dizer, não foi mau, mas não foi nada de especial. Éramos todos amigos, esteve-se bem, mas não foi memorável. Foi simplesmente normal. E ter sido normal não tem mal nenhum.
Mas estejam descansados. A meio lá tirámos a fotografia. Abrimos o nosso melhor sorriso (como se alguém tivesse contado uma anedota). E já não sei quem é que ficou de editá-la (para disfarçar o pouco bronze de alguns).
E estejam descansados também que mal seja publicada a foto vamos lá todos, disciplinadamente, pôr like (há quem esteja a pensar em pôr um coração). E já distribuímos os comentários por todos. A mim, por exemplo, coube-me um «Top, Top, Top!!!», à Ana (a que vai pôr o coração), ficou destinado «Mega jantar! A repetir!», o Miguel (como é típico dele) vai comentar com «Grandes vinhos! Grandes Risotas!», e o Manel ficou de escolher uma private qualquer (tem que ser qualquer coisa que sugira uma piada que só os que lá estiveram compreendem, mesmo que não seja verdade).

Tudo menos passar a ideia que foi um jantar normal, que nós cá queremos fazer parte do grupo dos mega felizes e sempre fixes!

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

«Nos em D'Bandada»


- E o «Nos em D’Bandada»?
- Incrível como em poucos anos se transformou num festival que inunda a cidade de música, de pessoas, de animação, sem resvalar para uma certa brejeirice que é muito difícil de evitar em eventos de massas.
- Bem verdade. Famílias completas, grupos de amigos, imensos estrangeiros. Vê-se de tudo. Simplesmente na rua para ouvir música, jantar, passear.
- Para mim, já é um evento anual absolutamente incontornável no mês de Setembro.
- Esquece que este ano não há …
- Porquê?
- Por prudência.
- Como assim?
- Porque coincidiria com o período de campanha eleitoral para as Autárquicas 2017.
- Como?
- Isso.
- Caramba pá. E eu a pensar que essa coisa da democracia madura e tal e coiso.
- Pois. Mas não.
- É cada uma?!


#Saladeestar

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Um dó li tá

O Pedro Correia, do consolidado blogue Delito de Opinião, teve o imponderado impulso de me convidar a escrever um texto para o famoso blogue. Mal ele sabia que não ia sair nada de jeito, como podem constatar:

UM dó li tá

Sento-me no sofá, de comando na mão, ainda sem canal de destino.
Por defeito (no sentido supletivo do termo), a televisão abre o sinal com os desenhos animados.
Um dó li tá, ouvia-se de fundo.

Hesito entre os canais de notícias e de debate político – que tendencialmente se dirigem a mim – e os de desenhos animados – que tendencialmente se dirigem aos meus filhos (certo de que a segunda opção preenche os desejos destes, e com enormes dúvidas de que a primeira preencha os meus).
Um dó li tá (ficou a ressoar na minha cabeça).

Política ou desenhos animados? De repente dou por mim a pensar que não será assim tão grande a distância entre uma e outra opção. Sintomática e preocupantemente, há uma sintonia entre as diferentes sintonias. Se de um lado me oferecem a patrulha pata com a missão de defender o bem, do outro impõem-nos diferentes patrulhas com a missão de defender os seus (e, francamente, não sei se o bem).

Patrulha-Pata1[1].jpg

Preocupa-me a bolha cada vez mais nítida e distante em que habitam os políticos que nos dirigem e «representam». A cada episódio, a cada debate, a cada declaração, o fenómeno acentua-se. O modo infantil como somos tratados talvez seja o mais embaraçante. Mas a forma mais ou menos contorcida como a verdade nos é apresentada, a sensação indisfarçável de que quem nos fala de voz grossa está condicionado e é pouco livre, não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério.

Tanto nos contam (como quem conta) que tudo se deveu a um raio, como nos dizem que «se fez tudo o que era possível». Tanto nos oferecem demissões em barda de chefias menores, como nos prometem que não foi nada de especial e que o material roubado estava fora de validade. Tanto nos garantem que não houve cortes e que se batem recordes de défices mínimos, como nos enganam com termos pomposos que representam a mesma sorte (cativações, dizem). Tanto nos asseguram dignificar as vítimas com as respostas completas, como nos escondem testes prioritários de popularidade. Tanto, tanto, tanto.
Um dó li tá (não deixa de me ressoar).

Tratam-nos como se fôssemos criancinhas, sem capacidade para discernir, permeáveis apenas ao argumento de autoridade. Cada declaração, cada promessa ou explicação, transpiram falta de verdade, de pudor até, e de inteligência. Porque é pouco inteligente presumir-nos incapazes de perceber. E ainda é menos inteligente desprezar a degradação do ambiente entre «eles» e «nós». Sobra sempre a sensação de que não são livres. Para a transparência, para a verdade, para a seriedade dos «crescidos».
Um dó li tá (raios, que não me sai da cabeça).

Sinceramente, para ser tratado como criança prefiro o original.
Fico-me pelos desenhos animados e entrego-me, para gáudio dos meus filhos.

Um dó li tá, quem está livre, livre está (ouço agora a frase completa).

Parece uma declaração política. Pois. Não é assim tão grande a distância entre a política e os desenhos animados.

#Saladeestar
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Era uma vez um menino

Quando no passeio de mão dada com a avó, nunca aquela criança – mesmo nunca – escapava à tentação da travessura. Tanto podia ser a de se libertar e fugir, como a de saltar para a rua perigosa onde circulavam, ameaçadores, os carros e as motas. E lá vinha a pedagogia clássica à volta do «era uma vez um menino».
«Era uma vez um menino», começava sempre a avó, «que ia de mão dada no passeio, fugiu e foi raptado … nunca mais viu os pais, os irmãos e os amigos …», ou então «era uma vez um menino que ia de mão dada no passeio, decidiu saltar de repente, e … foi atropelado …». «E morreu?», perguntava o aflito petiz à avó. «Morreu», respondia sorumbática a avó, convencida do sucesso do método.
As histórias do menino conheceram várias versões. Quando o apetite rareava na hora própria a versão era a do «era uma vez um menino que não queria comer, não se portava bem à mesa e então nunca mais lhe deram de comer. Passados uns dias começou a ficar fraquinho, a não conseguir falar, ou rir, ou brincar ou jogar futebol. Como não conseguia fazer nada, já ninguém queria estar com ele. E deixou de ter amigos».
Nas sonoras birras, por exemplo, a história do menino servia para advertir para a perda de voz para sempre (o «para sempre» era o indispensável ingrediente dramático).
O enredo de cada história variava em função do ponto de partida. Mas o sujeito (um menino) era sempre o mesmo e o drama do seu destino era sempre impressionante.
Quando me couber aquele papel de avó (será mais avô), repetirei algumas daquelas histórias (pouco me interessarão os méritos pedagógicos, será mesmo por homenagem). E terei mais uma para contar.
Era uma vez um menino absolutamente normal. Nasceu no Porto, cresceu, tirou o seu curso, casou e teve filhos. E quando fez 39 anos recebeu centenas de parabéns. Centenas mesmo! Ficou de tal forma embasbacado que nem sabia como agradecer (porque sabia não merecer).
E então refugiou-se num «obrigado a todos» (a sério, não disse «a todas e a todos» porque se empertigava com esses tiques do politicamente correcto).
Não. Eu sei que não é uma história com drama, não parte sequer de alguma travessura e tem duvidosa utilidade pedagógica. Mas o sujeito (um menino) é o mesmo e o desfecho é também impressionante.
Muito obrigado a «todos», deste menino que vos estima!

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os sobremandatos

A propósito de uma sessão extraordinária da Assembleia Municipal do Porto que teve lugar esta semana, e que foi notícia não apenas pela circunstância de a votação ter sido renhida, mas também por ter sido «decidida» pelo voto desalinhado do deputado municipal do PS, Francisco Assis, ocorreu-me um suspiro de irritação (suspiro de irritação até será um eufemismo ligeiro). Não teve a ver com o sentido de voto do deputado municipal, nem teve a ver com ter sido desalinhado face à orientação da sua bancada. E muito menos teve a ver com o deputado em concreto (habituei-me a respeitar e a admirar a genuína liberdade com que Francisco Assis pauta a sua vida política).

O meu ponto é outro.

Há vários fenómenos nas candidaturas que os partidos nos apresentam que eu compreendo muito mal. Mesmo muito mal. Provocam-me o tal «suspiro de irritação».

O primeiro deles é o dos candidatos pára-quedistas. Especialmente nos grandes círculos eleitorais, como é o caso do Porto. As direcções nacionais não têm pejo em impor (e os líderes locais ou regionais não oferecem, ou não conseguem oferecer, resistência) candidatos sem a mais pequena ligação à região ou à terra em que se candidatam. É um fenómeno corrente em eleições legislativas, que é mais chocante quando envolve o próprio cabeça de lista. Nunca me hei-de conformar com esta «tradição».

Um segundo fenómeno é o do candidato formal. Uma espécie de pseudo candidato âncora. Aquela figura que dá a cara mas que todos sabem que não ocupará o lugar a cuja eleição se apresenta. Tanto pode ser um ministro como um deputado nacional ou europeu que, não satisfeito com a condição, vai como número 1 na lista para a Assembleia Municipal. Por vezes é simplesmente um militante histórico que pela idade, pela paciência ou por manifesta incompatibilidade, não ocupa ou não pode ocupar o lugar para que será eleito.

E depois há um terceiro fenómeno -  que é o que motiva este meu exercício de denúncia - que em certa medida até pode ser uma derivada do segundo. É o fenómeno do sobrecandidato que depois se transforma em sobremandato (acho que o nome se adequa). No fundo, é aquele candidato que já exerce outros mandatos, por regra na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu, e que é também deputado na Assembleia Municipal (quando não mesmo Presidente) ou - no que considero ainda mais incompreensível - vereador municipal. Não partidarizo nem fulanizo este exercício de denúncia (ainda que tenha sido motivado por um caso concreto) porque encontro exemplos por todo o lado. Mas este fenómeno dos sobremandatos é absurdo. Que sentido faz alguém que já tem um mandato relevante na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu (que portanto tem de estar em Lisboa ou em Bruxelas) acumulá-lo com o de vereador ou de deputado municipal? Desde logo, algum destes mandatos (se não mesmo os dois) será exercido aquém do exigível. Por outro lado, sai reforçada a ideia de que são sempre os mesmos e que nos partidos as coutadas de uns são as portas fechadas para outros que poderiam e deveriam participar. E, finalmente, sobra a sensação de que há aqui um problema de iure condendo. É que este fenómeno não deveria, pura e simplesmente, ser possível nos termos da lei!

No caso da sessão extraordinária da Assembleia Municipal do Porto desta semana, o aparte era o de que o deputado municipal Francisco Assis não era visto há já muito tempo naquelas sessões e que, desta vez, marcou presença porque aproveitou as férias do Parlamento Europeu. Não é preciso dizer mais nada pois não? Pois, suspiro de irritação até será um eufemismo ligeiro.

#Escritório
#Saladeestar

Impressões destes dias

1 - Para trás. Para a frente. Várias vezes. No das 8h. No das 9h. No das 10h. Corri tudo.
Ajudem-me, que não encontrei.
Onde é que passou a seráfica e estafada declaração do Carlos César a dizer que a não aprovação do Relatório da Comissão de Inquérito à Caixa é culpa do anterior governo e da sua política de austeridade neoliberal?

2 – Eu sei que tudo o que tem a ver com corridas está na moda. Mas esta já vem de há anos e, por muito que se repita, compreendo mal. Até porque deixa um misto de sensação, entre jogo e despacho. A maratona de votações no último dia antes de férias na Assembleia da República é pouco edificante, devia ser evitada e não ajuda à urgente dignificação da política.


3 – 30 anos. Fez 30 anos que Cavaco esmagou (literalmente) o PS de Vítor Constâncio. Em que o PRD de Eanes se lançou rumo ao inevitável desaparecimento. E em que o CDS percebeu o erro de ter enjeitado um acordo de coligação em 1985 e experimentou o dissabor do voto útil e de vingança. Sim, aquela entrega do povo de direita a Cavaco foi uma espécie de réplica das presidenciais de 1986 (no meio da multidão que saudava Cavaco pela vitória, lembro-me de ver várias bandeiras do PSD e do CDS, costuradas umas às outras, directamente vindas da campanha «P’rá frente Portugal»).

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