domingo, 10 de janeiro de 2016

O primeiro jogo

1. Ganhámos, sem grande tensão, com a certeza (e sobretudo a tranquilidade!) dos 3 pontos quase desde o início.
2. Mesmo com o Boavista - este Boavista - no seu estádio de cadeiras vazias (desapareceu mesmo o velho Boavista e não tem nada a ver com orçamentos), ganhar, sentir os jogadores a quererem e a festejarem no banco, soube-me bem.
3. Foi pena a reconciliação não ter sido completa. Não custava nada terem ido ter connosco à bancada, atirar meia dúzia de camisolas e consumar a viragem. Merecíamos mais que uns aplausos tímidos do meio campo a caminho do túnel.
4. Pode ser saudosismo bacoco, mas adoro estes jogos com chuva e condições adversas nas bancadas.
5. Não foi perfeito (os números foram, é certo). Mas também não é perfeito que eu quero que seja. Só quero regressar à normalidade. Da entrega, da competência e das vitórias.

#Saladejogos

sábado, 9 de janeiro de 2016

Escravidão

Não sou poeta. Ou por outra, serei poeta na medida em que comungo da presunção lusa de que somos todos poetas. Arrisco umas rimas, saem-me uns versos mais ou menos inspirados, mas tenho de reconhecer que há muito esforço a disfarçar o pouco génio.

Se não é à poesia que me escravizo, não deixa de ser na escrita que "sou" e que subjugo a minha vontade. Sinto-me perseguido demasiadas vezes pelo impulso e dou por mim a ir-me até onde não esperava.

Curiosamente, é na poesia que encontro a mais fiel descrição desta escravidão que me assaltou o sossego.

Quem me conhece, já sabe. Torga, sempre Torga.

Ode à poesia

Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou 
Neste dia, 
E mesmo assim tu vens, tu me visitas! 
Tu ranges nestes ferros e palpitas 
Dentro de mim, Poesia! 

Vão homens a meu lado distraídos 
Da sua condição de almas penadas; 
Vão outros à janela, diluídos 
Nas paisagens passadas... 
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos 
As tuas formas brancas e aladas? 

Os campos, imprecisos, nos meus olhos, 
Vão de braços abertos às montanhas; 
O mar protesta contra não sei quê; 
E eu, movido por ti, por tuas manhas, 
A sonhar um painel que se não vê! 

Porque me tocas? Porque me destinas 
Este cilício vivo de cantar? 
Porque hei-de eu padecer e ter matinas 
Sem sequer acordar? 
Porque há-de a tua voz chamar a estrela 
Onde descansa e dorme a minha lira? 
Que razão te dei eu 
Para que a um gesto teu 
A harmonia me fira? 

Poeta sou e a ti me escravizei, 
Incapaz de fugir ao meu destino. 
Mas, se todo me dei, 
Porque não há-de haver na tua lei 
O lugar do menino 
Que a fazer versos e a crescer fiquei? 

Tanto me apetecia agora ser 
Alguém que não cantasse nem sentisse! 
Alguém que visse padecer, 
E não visse... 

Alguém que fosse pelo dia fora 
Neutro como um rapaz 
Que come e bebe a cada hora 
Sem saber o que faz... 

Alguém que não tivesse sentimentos, 
Pressentimentos, 
E coisas de escrever e de exprimir... 
Alguém que se deitasse 
No banco mais comprido que vagasse, 
E pudesse dormir... 

Mas eu sei que não posso. 
Sei que sou todo vosso, 
Ritmos, imagens, emoções! 
Sei que serve quem ama, 
E que eu jurei amor à minha dama, 
À mágica senhora das paixões. 

Musa bela, terrível e sagrada, 
Imaculada Deusa do condão: 
Aqui vou de longada; 
Mas aqui estou, e aqui serás louvada, 
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!

#Biblioteca

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Uma líder para o CDS

Os adversários, os desencantados ou desinteressados – nos quais não me incluo, faço a ressalva (sou militante!) – são indispensáveis em qualquer processo de escolha da nova liderança partidária. Não serão o barómetro definitivo, mas são pelo menos uma referência importante. É através deles que conseguimos perceber melhor como somos vistos de fora, como e com quem somos mais ou menos temidos, como e com quem teremos maior capacidade de penetração eleitoral.

Como é próprio e natural, os militantes tendem a perder o distanciamento, a ceder aos apelos da amizade pessoal, das sãs fidelidades construídas na partilha de muitas disputas eleitorais. Valoriza-se muito – ou demasiado – a história interna, a capacidade de gerar a adesão dos filiados, de unir as tropas.
Tais qualidades são, sem qualquer dúvida, importantes e especialmente úteis na hora da mobilização (a «hora da verdade», em que são sempre os mesmos que estão disponíveis para dar o corpo ao manifesto). E são também manifestações boas e relevantes, que podem e devem concorrer para as escolhas a fazer. Mas não podem ser o móbil único de uma escolha tão séria e porventura decisiva. Não podemos ficar reféns das nossas motivações pessoais ou internas que, quando vistas em exclusivo e sem contemporizações, nos podem impedir de ver mais além, ou simplesmente de ver o óbvio à frente dos nossos olhos.

Por vezes, aquela personalidade que parece «servir» melhor os naturais anseios dos militantes – ou que corresponde mais aos seus afectos (palavra tão em voga) – não é necessariamente aquela que, em determinado momento histórico, melhor atende às necessidades do partido.

Uma coisa é ser popular internamente, outra diferente – e mais importante – é ser popular, gerar adesão, ter capacidade de chegar mais longe, de passar mensagem, fora do partido.

Se é verdade que um partido se faz com os seus militantes, também é verdade que um partido com um mínimo de ambição se faz para todos (e quase todos são não militantes).

Nem sempre os partidos dispõem de uma personalidade (ou personalidades) com essa capacidade de projectar o partido a uma escala mais alargada. Ou porque tais personalidades não querem, ou porque não podem ou mesmo porque pura e simplesmente não existem no universo de militantes que reúnem a projecção e capacidades de liderança indispensáveis.

Há momentos, todavia, em que não só emerge essa personalidade como ela se impõe com especiais e quase únicas características. Assunção Cristas é essa personalidade.

Porque quer (e querer é importante, por muito que uma vaga de fundo possa suplantar a eventual falta de vontade), porque é mulher (o que seria uma boa novidade no próprio partido e geraria maior impacto no potencial eleitorado), é mãe de família (assumindo essa condição como definidora da sua personalidade, a que não é estranho o encanto que suscitou quando protagonizou a primeira gravidez de uma ministra em funções), tem experiência de governo (foi ministra com a tutela de dossiers de enorme responsabilidade), tem experiência de administração pública (foi directora-geral), tem experiência de gabinete (no Ministério da Justiça), tem experiência e carreira académica (é doutorada em Direito e professora na Faculdade de Direito da Universidade Nova), tem experiência parlamentar (eleita três vezes deputada), é advogada e tem obra publicada.

No partido - de que é filiada há quase 10 anos (há quanto tempo eram filiados Maria José Nogueira Pinto e Paulo Portas quando disputaram a liderança no famoso congresso de 1998?) - é vice-presidente, coordenou o programa eleitoral, integrou equipas de negociação ao mais alto nível, foi cabeça de lista por Leiria. Não por acaso, desde que a «descobriu», Paulo Portas não mais a deixou de ter no seu inner circle.

E se mais fosse necessário, Assunção Cristas reúne ainda duas qualidades que a recomendam especialmente para a liderança neste preciso momento. A comunicação social reserva-lhe uma bonomia (para não dizer simpatia) que fazem com que a mensagem, pela sua voz, passe sempre melhor. E depois tem uma enorme empatia no contacto com as pessoas, desde as mais simples às mais sofisticadas.

Termino como comecei. Para quem nos vê de fora não tenham dúvidas que é para Assunção Cristas que olham. Desejando ou temendo. Porque é quem mais seduz para lá do universo tradicional de eleitores do CDS.

Seria imperdoável que não víssemos cá dentro o que tão claro se vê de fora.

#Escritório

O Bolo Rei do próximo ano tem que ser bom!


Quando era criança olhava para o mundo dos adultos com dois sentimentos predominantes. A inveja - sempre a tão humana inveja que nos corrompe desde tenra idade. E a oposição (já explicarei melhor o que é isto da oposição - uma espécie de mistura de espanto, desprezo e incompreensão).

A inveja é fácil de explicar. Qualquer criança projecta nos adultos o poder para fazer o que apetece, a ideia de que ninguém manda neles, e uma carteira sem fundo que permite cumprir todos os desejos. E era essa inocente inveja que experimentava quando tinha de ir para a cama contrariado ou quando me negavam a bola de Berlim que me sorria sedutoramente todos os dias no bar da escola. Ou quando me impediam de viver o sonho de ir à Disneyworld (ainda cresci sem a Disneyland Paris).

A oposição é mais óbvia do que parece. As crianças crescem na oposição. Vêem os pais presos ao telejornal e àqueles «programas de conversa» e pensam «como é possível gostarem de ver aquilo em vez de bonecos?» (eu sempre chamei bonecos aos desenhos animados). Olham para os gostos gastronómicos dos adultos e não compreendem, ficam espantados, senão mesmo com alguma repulsa. Costuma ser assim com a salada. Às vezes com a sopa (os meus esperançosos filhos perguntam sempre «hoje há sopa?», sabendo que há e que a vão ter de comer irremediavelmente). Os frutos secos. O vinho e a cerveja. O café. Os doces mais rebuscados, como a chila ou as trouxas de ovos. A estes gostos incompreensíveis, as crianças opõem os de sempre. Batatas fritas. Salsichas, hambúrgueres e pizzas. Chocolate (ora branco, ora preto). Sumos e coca-cola (esta para os que desde tenra idade convivem bem com as «bebidas de picos»). No Natal, o símbolo maior era o Bolo Rei. O Bolo Rei sempre foi coisa de adultos, para o qual qualquer criança olhava com desprezo e incompreensão. Só seduzia pelo aspecto colorido, pelo cheiro a bolo e pela lotaria do brinde (que, lamentavelmente, temo ter desaparecido). Nunca para comer!
E podia dar mais exemplos da oposição das crianças aos adultos, tantas eram (são) as incompreensões, o desprezo e até às vezes nojo (estejam descansados que vos pouparei ao confronto com o modo como as crianças inocentes olham para a descoberta dos «afectos» entre adultos). Fico-me pelo Bolo Rei.

À medida que vamos crescendo descobrimos, primeiro, que a inveja - aquela inveja - era verdadeiramente infantil. E ainda bem! Imagino os monstros que seriamos se vivêssemos como se ninguém mandasse em nós, como se tivéssemos uma carteira sem fundo e como se pudéssemos atender a todos os nossos desejos (e Deus sabe quão infantis ainda são alguns deles).

E deparamo-nos, depois, com a progressiva adesão aos gostos a que outrora nos opúnhamos. Começamos a gostar de estar informados - e vamos parando no telejornal. Já não vivemos sem uma boa sopa ou uma salada, por muito simples que seja a refeição. Preferimos um bom vinho a qualquer sumo (ainda que nutramos um carinho especial pelo tang). Não passamos sem o café, começamos a afeiçoar-nos à gastronomia mais complexa e por aí fora.

A determinada altura já somos nós que nos esforçamos por entrar nesse mundo de prazeres. Forçamos os primeiros goles de vinho – porque não gostar de vinho, como de cerveja ou de café, é socialmente inaceitável e não há quem não prefira pertencer ao grupo dos comuns, por muita personalidade que tenha ou goste de exibir. E, por isso, forçamos muitas mais coisas. Algumas delas directamente fundadas na nossa tradição familiar. O bolo, o prato, o programa, de casa dos avós, que os tios e os pais sempre gostaram, mas que não compreendíamos ou desprezávamos. Agora é a nossa vez de gostar. E queremos mesmo gostar para que o nosso testemunho esbarre hoje na incompreensão dos nossos filhos para morar amanhã, outra vez, no gosto ou no esforço da perpetuação dos costumes familiares.

Tenho que confessar que ainda vivo nalguma oposição. Não em tudo, claro. Mas nesta época de Natal, Ano Novo e Reis, sinto-me refém da oposição. Eu gostava de gostar de muitos dos doces de Natal, mas não consigo. Não é das rabanadas, que dessas sempre gostei. É desse mundo das frutas cristalizadas e do seu maior ícone que é o Bolo Rei.

Não consigo. Ainda não consegui. Mas eu gostava mesmo de gostar de Bolo Rei. Já não vai ser este ano.

#Saladeestar
#Cozinha

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Palacete

Há já algum tempo que queria ter uma casa. Por onde passar. Onde descansar. Onde espairecer.
No fundo, uma casa onde pudesse escrever o que me apetecesse, o que devesse e mesmo o que não pudesse.

Isto de escrever não é bem um gosto. É mais um ímpeto irresistível.

Procurei por essa casa durante demasiado tempo. Nunca com esmero ou um mínimo de dedicação. Hoje quis mesmo encontrá-la mas já não estava disponível. Dei sempre de caras com a resposta «esse endereço não está disponível». Refinei, e fui parar a um Palacete - a este Palacete. De porta aberta e totalmente em bruto, decidi entrar e tomar posse.

Aqui estou. Por aqui estarei. Não sei no que vai dar. Há algumas divisões que já têm destino. Ao salão de visitas já lhe dei o nome de «Porto». Ao escritório não resisti e já lhe pus uma placa na porta a dizer «Política». A sala de jogos tem destino traçado: «futebol e FCP». A sala de estar do dia a dia será o lugar de todos os assuntos. É lá que estão os jornais do dia, é por lá que me sento de comando na mão e é de lá que parto para as outras divisões do Palacete.

A Biblioteca só podia ser o «cantinho do Torga». Devo-lhe tanto do que sou e do que escrevo que seria uma falta de respeito não lhe destinar essa homenagem.

A sala de jantar e a cozinha não têm nome especial, mas terão assunto em função dos apetites do momento.

De vez em quando irei também ao jardim - que já chamei dos «devaneios». Acho que vai ser nos momentos ao ar livre que passarei pelos assuntos mais sérios. A ver vamos.

Os meus aposentos pessoais serão isso mesmo. Pessoais e por isso reservados. Não consigo imaginar-me sem esse espaço de reserva, desculpem.

Tal como o encontrei, mantê-lo-ei. O Palacete está e estará de portas abertas. Façam o favor de entrar.

José Maria Montenegro