quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Café Latino

A dependência e o prazer do nosso café gera-nos uma enorme intranquilidade quando estamos à mesa fora de Portugal (ou de Itália!) - especialmente ao pequeno-almoço e ao almoço. Encontrar um café decente é o desafio permanente. Não nos conseguimos adaptar à água suja a que os "estrangeiros" teimam em chamar café.
Aquela tensão, em boa verdade, é cada vez menos justificada. Não sei de quem é o mérito. Talvez tenha sido útil a ideia de recorrer a um charmoso de Hollywood e escarrapachá-lo em outdoors por esse mundo fora a beber um café expresso. O que sei é que, cada vez mais, me surpreendem com café no final das refeições (ia dizer café expresso, mas seria redundante).

A crescente latinização gastronómica do mundo pode ser um pormenor. Mas é por estes pormenores - como o bom ou mau café - que meço o estado civilizacional do mundo gastronómico.


#Saladejantar

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Tristes tempos

A Sportinguização e Benfiquização (por esta ordem) do meu Porto deixa-me completamente desorientado.

Se a dança de treinadores, de jogadores e de comissionistas é um problema, arrisco dizer que o desnorte nas hierarquias - que passa inclusivamente por saber quem manda e em quem - é um problema ainda maior. Há muito tempo que a autoridade moral não mora no Dragão. Essa lacuna era, apesar de tudo, compensada por algum pudor, alguma afeição ao clube (infelizmente evito as palavras "amor" e "paixão") e alguma disciplina.

A crise de resultados deteriora tudo isso que ainda subsistia. E é vê-los, qual associação de estudantes em crise e cisão, a olhar aos seus interesses pessoais e a lutar pela sua coutada de poder e de influência. Os adeptos não interessam nada. Não lhes interessam nada a não ser na justa medida em que sirvam aqueles interesses pessoais de poder (que é também o das suas contas bancárias e certas imunidades). Por outras palavras, tudo o que justifica a militância dos adeptos - a história, a cultura do clube, a raça, a organização e disciplina irrepreensível, o inconformismo - já não interessa. Já nem conhecem.

Somos umas marionetas com cujas emoções andam a brincar.

Não tenho um programa. Mas qualquer programa tem de começar por um diagnóstico objectivo e desapaixonado. E coragem. Vai ser preciso coragem.

#Saladejogos

sábado, 16 de janeiro de 2016

Aureliano da Fonseca

Alegra-te ó Céu!
Querias tudo, querias um capaz de tudo, que fez de tudo? Aí o tens!
Querias um criador inspirado? De músicas, de cantorias e tangos e até de hinos? Claro que querias! Aí o tens!
Querias um estudante - um eterno estudante - um Professor, um mestre, um médico, «o» especialista? Aí o tens!
Querias um navegador e viajante, aventureiro e humanista? Recebe-o que aí o tens!
E poeta e escritor, e fotógrafo e colecionador? Está aí, recebe-o! Sofisticado e galã como ele é.
Sim, é o filho fiel de pai e mãe. O marido fidelíssimo de dezenas e dezenas de anos. Como dezenas e dezenas são os que lhe devem o bem maior que é a vida. E outros tantos (ou mais!) que mereceram e sentiram como se dele fossem. E milhares serão os que de seu trato gozaram e não esqueceram.
E tu sabes, ó Céu, que foi para Deus e por Deus que viveu tanto. Até ao fim que nunca teve fim.
Se eu mandasse? Se eu mandasse soariam os sinos!
No Porto, na Universidade, nos pianos, nos tangos, nas tunas, nos hospitais e consultórios, na poesia e na prosa, na fotografia, nas viagens pelo mundo. E no Brasil e na Suíça, nas Pousadas e na Urgeiriça. Seriam os seus filhos, com os filhos dos filhos, e mais filhos. Todos - e mais os mochos - a puxar as cordas dos sinos deste mundo.
Alegra-te ó Céu! Para os reencontros, os abraços e as saudades de 100 anos! Alegra-te ó Céu!
#Jardim

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Paulo Baldaia e David Dinis

Há mais de 20 anos (não estou a exagerar) que sou um fiel leitor, ouvinte e espectador de informação e análise política em Portugal.
Já li, ouvi e vi muita gente.
Há, claro, aqueles que se perpetuam na «alta roda» mas que nunca gozaram da minha paciência (não serão assim tão poucos os que eu chamo de «balões de ar»).
Há também aquele grupo de jornalistas e comentadores que até já mereceram a minha fidelidade – por mais ou menos tempo – mas que a foram perdendo por manifesto desinteresse.
Há depois aqueles que volta e meia valem a pena, mas primam pela irregularidade. Tanto nos surpreendem com uma boa análise, com um ponto interessante, como nos servem banalidades que entediam qualquer audiência.
Há ainda aqueles de quem tenho imensas saudades. Que nunca perdia mas que perdi (perdemos todos). Penso sempre no Medeiros Ferreira, curiosamente.
Há finalmente aqueles – três ou quatro – que ouço, vejo e leio há muitos anos e que nunca deixarei de seguir.
O denominador comum destes três ou quatro – como daqueles que perdi – não é a maior ou menor adesão às suas teses ou análises. É aquela coisinha tão subvalorizada mas tão essencial que dá pelo nome e honestidade intelectual. E quando a ela está associada uma oralidade agradável sem laivos de sobranceria, fico arrebatado.
O Paulo Baldaia é um desses três ou quatro, vai deixar de ser director da TSF. O David Dinis também, e vai passar a ser director da TSF.

Tudo está bem.

#Escritório

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A Casa Amaro!

 
- Faça o favor.
- Muito obrigado. Então o que tem para hoje?
- Não tem que se preocupar que o Sr. Miranda já tratou de tudo.

Fiquei descansado. Só me surpreendiam com razões para estar confiante. Aliás, confiante é pouco.
O estado incólume do estabelecimento. As mesas de madeira na diagonal. As paredes de cor branca amarelada, com várias demãos impostas pelo tempo e pela preocupação de manter tudo impecável.
Os armários de parede. Daqueles de sempre – que, tal como as mesas, eram de madeira boa e densa, com portas que empurramos para o lado, e onde se empilhavam os pratos e copos à confiança. O aparador no canto, impecavelmente limpo (suspeito que encerado há pouco tempo) daqueles que víamos em casa dos «nossos» avós – dos bons, antigos, com uma pedra mármore inteira, preenchida com garrafas e canecas de líquidos puros.

O cheiro era tudo. Era dele que me vinha a surpresa e a segurança da escolha. Só podia estar no local certo, ou como se diz nestes lugares sagrados, no local «justo» (não é nenhuma blasfémia sublinhar a sacralidade destes templos). Pressenti aqueles aromas autênticos que asseguram a nossa absoluta e total rendição. A lenha do forno. Sim, do forno. Do forno que tudo transforma. E porque é a lenha, transforma com outra sabedoria (quando falam em sabedoria dos antigos deve ser da lenha que estão a falar). O arroz, servido em repetidas e pequenas quantidades para chegar ao prato sempre quentinho, as batatas assadas e – sintam o rufar dos tambores – o cabrito tenro e meigo a fumegar. Já nem me lembrava que era assim! Passam os anos, comemos a mesma carne volta e meia. Gostamos. Às vezes gostamos mesmo muito. Mas perdemos a memória do que é um verdadeiro cabrito. Tenro, com sabor «à antiga» (não a velho!) e assado em forno a lenha (sim, daqueles com uma pequena porta pela qual se reforça o lume com mais duas ou três achas). Que delícia. Que nostalgia. E naquele lugar sagrado (insisto na sacralidade).

Tudo está lá como sempre esteve. Os clientes são os mesmos – que pelo nome são todos tratados, que eu bem ouvi! Das mesas e armários já falei. E a Dona Rosa – a delicada D. Rosa. O trato, a simpatia e o gosto com que nos servia confirmam plenamente a sabedoria que importa.

- Ó Dona Rosa, traga mais um café se faz favor. É que o primeiro foi por conta do cabrito. O próximo tratará desta sobremesa especial que nos poisou ainda quente sobre a mesa!
Pedi o segundo café pelo gosto de ser servido uma última vez pela Dona Rosa!
 
#Saladejantar

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

David Bowie

Faz parte da minha adolescência precoce (tive uma adolescência precoce à volta de algumas músicas e da política – no resto, foi tudo mais ou menos no ritmo normal).
Associo David Bowie à subversão que não me era consentida e para a qual, tenho de reconhecer, não tinha feitio nem jeito.
Sempre gostei das vozes próprias, que não se confundem e que não pretendem ser iguais a ninguém. David Bowie era isso. Tinha uma voz grave e forte. E tinha estilo (evito dizer swag, mas é esse o termo). E fez grandes malhas. Essa é que essa!
No tempo dos concertos de estádio em Portugal – em que também deu o seu concerto (1990) – era demasiado novo. Quer dizer, já tinha idade para querer ir, para achar que podia ir, mas para não me deixarem ir. E não fui, infelizmente.

Deixo aqui a minha preferida.



#Saladeestar

domingo, 10 de janeiro de 2016

Proposta para Janeiro

Não faz qualquer sentido este mundo empedernido. Em que a paz e a concórdia são uma miragem ou palavras vãs em tantos e tantos púlpitos solenes.

Não vou propor nada. Já está proposto pelo Papa Francisco para este mês de Janeiro.


#Jardim