quinta-feira, 3 de março de 2016

O Porto descoberto

O que mais me surpreende na emergência do Porto como destino é o modo como nos soubemos abrir à descoberta e o sentido de oportunidade que revelámos nessa abertura. Quando digo «destino» não penso apenas na sua expressão puramente turística, mas também cultural, social, comercial, e até territorial. O próprio país também se tem encontrado com o Porto (o que, temo, não seja o maior elogio ao país que éramos).
Dizem de nós que somos o tesouro mais bem escondido. Eu não diria escondido. Talvez prefira dizer por revelar.
Para quem, como eu, vive embrenhado nesta urbe de que não se distingue, pode parecer estranho ou mesmo contraditório arriscar dizer que o Porto não valia assim tanto a pena.
Valia, com certeza. Este destino tão especial não nasceu agora. E se vale hoje é porque valia!
Com o distanciamento que não tenho, diria, todavia, que nunca como agora estivemos tão preparados para nos revelarmos. Não vivíamos tão abertos e tão disponíveis. Tínhamos os nossos espaços (alguns deles, aos olhos de hoje, aparentemente tão estranhos e incompreensíveis). Os nossos grupos. Os nossos temas. E era difícil penetrar neste nosso mundo. Para quem lograva tal façanha, vibrava connosco e percebia quão especial (já) era este lugar.
Era também o tempo dos espaços urbanos esventrados, por cuidar, e mais ainda por criar. Talvez estivéssemos aquém do nosso potencial. Nos conteúdos. Nas novidades. Nas recriações. Na descoberta de funcionalidades (dedicávamo-nos mais a outras, em boa verdade).
Quase parece que o sol não brilhava tanto no mar como agora (e o mar é o mesmo). Quase parece que o rio não nos reflectia tanto como agora (e o rio é o mesmo). Que «os campos, as árvores e as flores» não se abriam como agora (e somos os mesmos).
Não sei explicar. Mas sinto um efeito novo. Uma vida nova. Uma cor mais forte. E tudo isto sem termos perdido aquela mística, algo egoísta, que não se explica e que nos condena a sentir em circuito fechado certas dimensões do Porto.
Revelarmo-nos agora, só agora, fez todo o sentido. Não foi por calculismo. Mas foi sábio.

#Salaodevisitas

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A rádio que faz falta

É assim com as pessoas, com a saúde, com as instituições. Até com o dinheiro. Tendemos demasiado para a «justiça póstuma». Valorizamos devidamente quando não temos. Quando sentimos falta.
De vez em quando faço um esforço de abstracção para perceber, de entre o que tenho por adquirido, o que realmente me faz falta.
Hoje, no seu 28.º aniversário, pensava na TSF. Eu acho que já nem me lembro da TSF. Está ali. Faz parte. Com notícias de meia em meia hora. Com debates e análise. Com relatos e reportagens. A suscitar-me adesão e rejeição. Comoção e irritação. Informação e desconversa.
Não lhe reservo a exclusividade. Estaciono por vezes noutras frequências e aprecio também outros espaços complementares. Mas diria que é a minha base.
TSF. A rádio que faz falta. Pode parecer curto, mas acho que é o melhor elogio que lhe posso fazer.

#Saladeestar

17

Se é verdade que esgotar um coliseu não impressiona. Se é verdade que esgotar dois ou três pode não impressionar. Já não pode deixar de impressionar que de repente, quase do nada, dois portuguesinhos, fiéis às suas origens e à língua mater, decidam juntar-se para ver no que dá e se vejam a braços com 17 - dezassete! - coliseus repletos e rendidos.
Eu, que em Agosto comprei os meus bilhetes para a primeira data, não posso estar mais sintonizado com o fenómeno. 
No meu caso, devo o impulso de Agosto à expectativa de um serão quase privado, acompanhado de boas histórias, bom humor e melodias familiares.
Quando ontem saía regalado do Coliseu - em que se havia confirmado tudo (e mais alguma coisa) do que justificara a minha fidelidade de Agosto - só pensava no potencial criador deste fenómeno. Se gostamos, se vibramos e nos regalamos com estes serões - e, portanto, se os desejamos renovados por muitos e bons anos - não há-de haver maior bálsamo, maior motivação e mais eloquente estímulo para o Miguel Araújo e para o António Zambujo.
Diria que estão garantidos muitos mais que 17!

#Saladeestar

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Gosta de mim, pai?

As filhas pequenas (também os filhos, mas mais as filhas) quando ao nosso colo, e à procura da segurança paternal de uma declaração de amor incondicional - à prova de todas as hierarquias! - volta e meia perguntam-nos «gosta de mim, pai?». Mal sabem elas que não há resposta mais fácil para um pai ou para uma mãe. Não temos qualquer mérito de tão instintivo que é. E por isso pronunciamos-lhes o «sim» grave e incondicional que tanto desejam ouvir.
De troca, e imerecidamente, recebemos o reconhecimento mais puro e também ele incondicional.

Hoje, em dia de jogo no Dragão, ficarei por casa. É nestes momentos que o reconhecimento àquele «sim» grave e incondicional não é assim tão imerecido …

#Salaodevisitas

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Costa Concórdia

Neste dia em que se inicia o debate do Orçamento do Estado não sei porquê veio-me à memória a dramática história daquele comandante que desviou a rota para acenar a uns amigos.
O desfecho é conhecido e foi terrível. O grandioso barco encalhou, ficando o triste registo de vítimas inocentes e prejuízos materiais incomensuráveis.

Fiquei a pensar. O comandante a desviar a rota do «barco». Os imprudentes acenos aos «amigos». O fundo perigosamente próximo.


Como é que se chamava o barco?

#Escritório

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Organizem-se!

Reestruturação da dívida?
Claro. Não. Talvez. Virar a página. Gradualismo. Sim. Não. Talvez.

*Imagem real



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Moção das cinco pedrinhas

Cinco ou seis pedrinhas. Tinha sempre de procurar cinco ou seis pequenas pedras. Por regra, à quinta ou sexta vez que acertava na janela da sala de estar do 1. Esquerdo era presenteado por aquele sorriso meigo e agradecido que já justificava a minha visita. A campainha era como se não funcionasse. Era já uma convenção (não sei se por segurança se por já nem captar o som da campainha que soava na outra ponta da casa).

Naquela salinha, com os pés pousados numa escalfeta e a ler as inocentes anedotas do Clarim, vivi dos melhores lanches (com o melhor leite e as melhores torradas) da minha vida. E sobretudo - muito sobretudo - com a melhor companhia. Arrependo-me de não ter repetido o programa o dobro das vezes (lição que levo para a vida e a que os meus filhos não escaparão).

Quando me procuro situar, quando me quero orientar, quando persigo o registo certo, é naqueles encontros que me inspiro.
Só hoje vejo tão perfeitamente como estava lá tudo. A entrega amorosa, a bondade, as certezas, as raízes, o surpreendente e disfarçado arrojo, as necessárias incoerências, a aceitação quase não assumida (mas praticada) dos desvios alheios, e o maravilhoso sentido de humor (qual líquido que tudo une).

Afinal, nestes tempos de programas, manifestos e moções, estava aqui a verdadeira moção. Das cinco ou seis pedrinhas brotava toda aquela sabedoria. Tão simples.

#Escritorio
#Jardim