segunda-feira, 7 de março de 2016

Cavaco Silva

Eu lembro-me. Por estes dias haverá muitos que se esqueceram. Mas eu lembro-me. Eu lembro-lhes.

A personalidade em quem os portugueses mais confiaram, em quem mais votaram, durante mais anos - acima de qualquer outra, muita acima da segunda - confiando-lhe o Governo do país, entregando-lhe absolutamente o Parlamento, e escolhendo-o para Presidente da República, tem um nome. Aníbal Cavaco Silva. Foi assim em absoluta normalidade. E sobretudo, foi assim em absoluta liberdade.

10 anos como Primeiro-Ministro. 10 anos como Presidente da República.

Nunca reservei a Cavaco Silva o maior dos entusiasmos. O ponto, todavia, que hoje se impõe relevar é outro.
Alguém que se submete tantas vezes ao voto, merecendo a confiança inequívoca da maioria dos eleitores. Alguém que, no respeito pelo pluralismo democrático, dedica tantos anos ao exercício abnegado e digno dos mais altos cargos do Estado neste nosso Portugal, tem sempre o meu reconhecimento independentemente de lhe ter ou não confiado o voto, independentemente do maior ou menor grau de adesão ao longo de tais mandatos populares.

Aliás, não é apenas reconhecimento. É sobretudo agradecimento.

#Escritorio

sábado, 5 de março de 2016

Maria Luís Albuquerque

1. Não fui um entusiasta da nomeação de Maria Luís Albuquerque como Ministra das Finanças;
2. Pode ser injusto, mas fico sempre desconfiado do bom senso de alguém que aceita ser ministro das finanças estando sob a nuvem de um dossier politicamente crítico e potencialmente embaraçante para o próprio governo (como era o dos SWAPS a que estava ligada antes de ser governante);
3. Pode ser injusto, mas fico sempre desconfiado do bom senso de alguém que aceita ser ministro das finanças num governo de coligação sabendo do desagrado do outro partido da coligação;
4. Pode ser injusto, mas politicamente tudo recomendava que à falta de bom senso no convite não se juntasse a falta de bom senso na aceitação (para o que, reconheço, seria necessário um enorme desprendimento e resistência aos apelos do poder);
5. Pode ser injusto, mas o meu escasso entusiasmo de então não melhorou com os tristes ímpetos marialvas e infantis do próprio marido de Maria Luís Albuquerque;
6. Apesar de todo este quadro de partida, fui sendo conquistado ao longo dos seus dois anos enquanto ministra das finanças: apreciei o seu discurso, serenidade e até a classe de quem sabe estar (não só politicamente);
7. Ao não resistir ao convite para administradora não executiva da Arrow Global - para mais, mantendo-se na Assembleia da República como deputada - regressou àquela falta de bom senso de que já quase não me lembrava. E o pior é que essa falta de bom senso veio acoplada ao desprezo egoísta pela reputação do seu próprio partido (em boa verdade, tal como pelo governo quando aceitou ser ministra);
8. Lá em cima ressalvava que "pode ser injusto"? Desculpem. Infelizmente não é nada injusto. Estava lá tudo. Já estava e ainda está.
9. Tenho pena. Não devia ser assim.

#Saladeestar
#Escritorio

quinta-feira, 3 de março de 2016

O Porto descoberto

O que mais me surpreende na emergência do Porto como destino é o modo como nos soubemos abrir à descoberta e o sentido de oportunidade que revelámos nessa abertura. Quando digo «destino» não penso apenas na sua expressão puramente turística, mas também cultural, social, comercial, e até territorial. O próprio país também se tem encontrado com o Porto (o que, temo, não seja o maior elogio ao país que éramos).
Dizem de nós que somos o tesouro mais bem escondido. Eu não diria escondido. Talvez prefira dizer por revelar.
Para quem, como eu, vive embrenhado nesta urbe de que não se distingue, pode parecer estranho ou mesmo contraditório arriscar dizer que o Porto não valia assim tanto a pena.
Valia, com certeza. Este destino tão especial não nasceu agora. E se vale hoje é porque valia!
Com o distanciamento que não tenho, diria, todavia, que nunca como agora estivemos tão preparados para nos revelarmos. Não vivíamos tão abertos e tão disponíveis. Tínhamos os nossos espaços (alguns deles, aos olhos de hoje, aparentemente tão estranhos e incompreensíveis). Os nossos grupos. Os nossos temas. E era difícil penetrar neste nosso mundo. Para quem lograva tal façanha, vibrava connosco e percebia quão especial (já) era este lugar.
Era também o tempo dos espaços urbanos esventrados, por cuidar, e mais ainda por criar. Talvez estivéssemos aquém do nosso potencial. Nos conteúdos. Nas novidades. Nas recriações. Na descoberta de funcionalidades (dedicávamo-nos mais a outras, em boa verdade).
Quase parece que o sol não brilhava tanto no mar como agora (e o mar é o mesmo). Quase parece que o rio não nos reflectia tanto como agora (e o rio é o mesmo). Que «os campos, as árvores e as flores» não se abriam como agora (e somos os mesmos).
Não sei explicar. Mas sinto um efeito novo. Uma vida nova. Uma cor mais forte. E tudo isto sem termos perdido aquela mística, algo egoísta, que não se explica e que nos condena a sentir em circuito fechado certas dimensões do Porto.
Revelarmo-nos agora, só agora, fez todo o sentido. Não foi por calculismo. Mas foi sábio.

#Salaodevisitas

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A rádio que faz falta

É assim com as pessoas, com a saúde, com as instituições. Até com o dinheiro. Tendemos demasiado para a «justiça póstuma». Valorizamos devidamente quando não temos. Quando sentimos falta.
De vez em quando faço um esforço de abstracção para perceber, de entre o que tenho por adquirido, o que realmente me faz falta.
Hoje, no seu 28.º aniversário, pensava na TSF. Eu acho que já nem me lembro da TSF. Está ali. Faz parte. Com notícias de meia em meia hora. Com debates e análise. Com relatos e reportagens. A suscitar-me adesão e rejeição. Comoção e irritação. Informação e desconversa.
Não lhe reservo a exclusividade. Estaciono por vezes noutras frequências e aprecio também outros espaços complementares. Mas diria que é a minha base.
TSF. A rádio que faz falta. Pode parecer curto, mas acho que é o melhor elogio que lhe posso fazer.

#Saladeestar

17

Se é verdade que esgotar um coliseu não impressiona. Se é verdade que esgotar dois ou três pode não impressionar. Já não pode deixar de impressionar que de repente, quase do nada, dois portuguesinhos, fiéis às suas origens e à língua mater, decidam juntar-se para ver no que dá e se vejam a braços com 17 - dezassete! - coliseus repletos e rendidos.
Eu, que em Agosto comprei os meus bilhetes para a primeira data, não posso estar mais sintonizado com o fenómeno. 
No meu caso, devo o impulso de Agosto à expectativa de um serão quase privado, acompanhado de boas histórias, bom humor e melodias familiares.
Quando ontem saía regalado do Coliseu - em que se havia confirmado tudo (e mais alguma coisa) do que justificara a minha fidelidade de Agosto - só pensava no potencial criador deste fenómeno. Se gostamos, se vibramos e nos regalamos com estes serões - e, portanto, se os desejamos renovados por muitos e bons anos - não há-de haver maior bálsamo, maior motivação e mais eloquente estímulo para o Miguel Araújo e para o António Zambujo.
Diria que estão garantidos muitos mais que 17!

#Saladeestar

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Gosta de mim, pai?

As filhas pequenas (também os filhos, mas mais as filhas) quando ao nosso colo, e à procura da segurança paternal de uma declaração de amor incondicional - à prova de todas as hierarquias! - volta e meia perguntam-nos «gosta de mim, pai?». Mal sabem elas que não há resposta mais fácil para um pai ou para uma mãe. Não temos qualquer mérito de tão instintivo que é. E por isso pronunciamos-lhes o «sim» grave e incondicional que tanto desejam ouvir.
De troca, e imerecidamente, recebemos o reconhecimento mais puro e também ele incondicional.

Hoje, em dia de jogo no Dragão, ficarei por casa. É nestes momentos que o reconhecimento àquele «sim» grave e incondicional não é assim tão imerecido …

#Salaodevisitas

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Costa Concórdia

Neste dia em que se inicia o debate do Orçamento do Estado não sei porquê veio-me à memória a dramática história daquele comandante que desviou a rota para acenar a uns amigos.
O desfecho é conhecido e foi terrível. O grandioso barco encalhou, ficando o triste registo de vítimas inocentes e prejuízos materiais incomensuráveis.

Fiquei a pensar. O comandante a desviar a rota do «barco». Os imprudentes acenos aos «amigos». O fundo perigosamente próximo.


Como é que se chamava o barco?

#Escritório