terça-feira, 19 de abril de 2016

Pena

A longa sessão que nos foi servida pelos deputados brasileiros na votação do impeachment não salva ninguém. A emoção mais primária exibida sem pudor em cada declaração de voto – a favor ou contra – deixou-me com o pior dos sentimentos pelo povo brasileiro. Pena.

#Escritório

O Estado da Troika

Dizem que o Primeiro-Ministro de Portugal (sublinho de Portugal, e omito o partido de que provém, porque para este efeito não me interessa) devia viajar em voos comerciais e em classe económica, como fez inovadoramente o seu antecessor.
Lamento, mas não consigo acompanhar os indignados. Antes como agora, continuo a não desprezar o simbolismo da dignidade do Estado. É aí que se inscreve o pleno e adequado direito do Primeiro-Ministro a ter um avião ao seu dispor para as deslocações ao serviço do Estado.
O exemplo de frugalidade que deve vir de cima não se mede à custa da dignidade do Estado. Especialmente em anos de troika ou de protectorado estrangeiro. Ainda não somos o Estado da Troika.
#Escritório

Uma experiência eleitoral diferente

1. Pela primeira vez senti necessidade de ir ao Dragão para votar. E pela primeira vez não me senti à vontade no exercício livre do voto (o que não me impediu de votar como estava decidido a livremente votar).
2. Infelizmente, o ambiente dissuadia a livre opção. Não havia qualquer privacidade. Não havia sequer a opção pelo voto branco. Quem estivesse desconfortável e simplesmente quisesse não votar em ninguém não o pôde fazer sem que mil olhos o testemunhassem (a começar pelos dos máximos responsáveis).
3. Não é saudável que assim seja e não queria acreditar que era este o modo de funcionamento da democracia no meu clube!
4. Houve vários sinais interessantes (no sentido de surpreendentes), para lá da própria organização da jornada eleitoral. A Direcção e muitos dos colaboradores da SAD decidiram passar o seu dia à porta e na própria sala onde decorria o acto eleitoral. O modo como se mobilizaram é eloquente sobre a tensão que se sente entre os sócios. Até os SD se deram ao cuidado de divulgar um vídeo a apoiar a única lista.
5. A explicação sobre o sentido de alguns votos nulos é, toda ela, um programa (o que para quem se apresentou sem programa …). Por um lado, é caricata a necessidade do máximo responsável pelo acto eleitoral avançar com essas considerações. Por outro, o próprio presidente completar essas considerações, dizendo que muitos dos votos nulos foram incentivos à sua única candidatura, é também um sinal curioso. Eu senti embaraço alheio, devo dizer (para quê falar dos 21% quando se obteve 79%?).
6. Deixo no ar duas perguntas: se Pinto da Costa se apresentasse a eleições renovando os seus vice-presidentes (com outra lista nova) teria tido os 79%? Não terão sido esses tais «gritos» nos Boletins de voto um desabafo do tipo «gostamos de ti mas não gostamos de quem te acompanha»?
7. Pinto da Costa foi inequivocamente eleito. E por isso é o nosso presidente e comigo contará no que for necessário e no que eu for útil. Em democracia deve ser assim.
8. Não sei explicar, mas nos momentos difíceis, de tensão e de incerteza, gosto ainda mais do meu Porto. E por isso não me consigo desinteressar, não me consigo alhear, não consigo deixar de me entregar. E de sofrer. E também não consigo deixar de sofrer com tantas iniquidades.

#Saladejogos

sexta-feira, 15 de abril de 2016

BI

Não digam que não é importante. Para mim foi quase uma promoção. Era um dos símbolos da transição da quarta classe para o ciclo (acho que já não se chama ciclo ao 5.º e 6.º ano). No ano em que fazíamos 10 anos tínhamos de ser portadores (orgulhosamente portadores, por mim falo) do malogrado Bilhete de Identidade. Não sei se tinha a ver com a idade se com a inscrição no 5.º ano.
A odisseia começava com a ida ao centro comercial lá da zona – daqueles onde havia sempre uma loja de «foto tipo passe» – para tirar a foto garantidamente apalermada que nos haveria de identificar. Era essa, aliás, a foto que, qual praga, contaminaria tudo o que era documentos pessoais dos anos que se seguiriam. Como ficava mais barato pagar 8 ou 16 exemplares, arrumávamos o assunto das «foto tipo passe» por uns tempos. Quando penso na estupidez que era pedir uma grande quantidade da mesma horrível foto (da qual ficávamos reféns em tudo o que era cartões), penso mais no lado prático da coisa. Se era verdade que a foto era horrível (devem ser muito poucos os fotogénicos de passe) – o que recomendava replicá-la pelo mínimo – não é menos verdade que as fotos dos anos seguintes não corrigiam essa mala pata (a cada nova «foto tipo passe» ficávamos ainda mais horríveis e apalermados).
Resolvido o tema da foto, íamos (já não de mão dada, mas ainda com a nossa mãe), à conservatória do Registo Civil. Era um serviço genuinamente serviço. E portanto, aí experimentávamos uma longa espera (era uma espécie de estágio para as relações com os serviços do Estado ao longo da vida). Umas horas depois, lá saímos altivos, de dedo indicador borrado pela marca digital aplicada no cartão e ainda esticados pelo esforço que fizéramos para que nos marcassem uma altura que não envergonhasse (um metro vírgula qualquer coisa centímetros – ficava registado!). Das informações que constavam do BI (filiação, naturalidade, etc) orgulhava-me de todas (talvez me irritasse aquela coisa do Arquivo de Identificação ser de Lisboa – já nessa altura, com razão, pensava porque diabo uma coisa destas tinha que ir à capital e não se podia fazer logo ali).
O cartão do cidadão desfez todo este cerimonial. Passou a ser uma exigência para qualquer criança cujos pais a queiram fazer constar da sua declaração de rendimentos (por muito ridículo e injusto que seja o impacto no imposto a pagar). Já não exige a tão querida foto tipo passe. Até o dedo indicador passa higienicamente incólume. E – o que para mim é o mais grave – já nem pergunta pelo local de nascimento (de tão digital que é, ignora uma das informações que mais me identifica!).
Também não gosto do cartão do cidadão.
#Saladeestar

quinta-feira, 14 de abril de 2016

M de muito (se preferirem assim)

Só para avisar que não estou disponível para mudar nada no meu cartão de cidadão. Muito menos o sexo ou «género» como gostam de dizer (deixem lá ficar o «M» em paz). 

Sobre os outros

1. Gostava de ter sido eu. Claro que gostava.
2. Sei como é bom estar lá, como é fazer parte dessa elite, como é assim que crescemos (quer para lá quer para cá).
3. Não foram humilhados e bateram-se com brio até ao fim. Certo. Mas foi só isso. Nem sequer em casa levaram a melhor.
4. De repente, nem parece que foram eliminados. Dá a sensação que não ser humilhado é motivo de festejo.
5. Não estou a tirar de esforço. Mas ser grande tanto passa por ter aversão à humilhação como à mera eliminação. Por muito avançada que seja a fase da prova e por muito poderoso que seja o adversário.
6. Não estou a desvalorizar nada, até porque valorizo mais a vossa prestação europeia deste ano que as duas finais da Liga Europa que tanto festejaram.
7. Este ano as coisas descambaram de tal maneira para as minhas bandas que já nem me assistem maus sentimentos para fora. Felicitações desportivas!

#Saladejogos

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Stand on the right!


Há uns anos estava eu distraído a descer as escadas rolantes de uma qualquer estação do metro em Londres quando ouço por trás, em voz grossa e irritada, um sonoro «Are you unable to read???». Afastei-me, meio confuso, para deixar passar o senhor.
Interrompido na minha distracção, pude ver os vários avisos «Stand on the right», e perceber que não devia ter estacionado à esquerda.
Não estou irritado, nem quero devolver a grosseria do recado. Mas ao ver o Primeiro-Ministro estacionado nas escadas rolantes da estação do Metro de Lisboa hoje inaugurada lembrei-me do conselho.
Stand on the right!
#Escritorio