terça-feira, 3 de maio de 2016

Leicester

É inacreditável. É mesmo bombástico.
Qualquer comparação com feitos improváveis outrora conquistados por outros - costumam invocar a Dinamarca de 1992 ou a Grécia de 2004 - não serve (e esses feitos até parecem fáceis ao lado desta façanha). Não estamos a falar de um torneio de 6 jogos. Estamos a falar do melhor e mais poderoso campeonato do mundo, com dezenas de jornadas e milhões investidos pelos mais fortes clubes europeus.
O Leicester representa e representará o ideal de que em futebol tudo é possível.
História é isto. Sem qualquer exagero.
PS. Foi pena não terem selado em campo, com adeptos nas bancadas, a conquista histórica. Merecerão todos os festejos e homenagens. Jogadores, treinador e adeptos.
#Saladejogos

domingo, 1 de maio de 2016

Quo Vadis Porto?

1. Passaram 24 horas mas não me passaram ainda os piores sentimentos (quis esperar algumas horas, num assalto de prudência e de vã esperança).
2. Vergonha própria e alheia. Por cada um daqueles protagonistas que envergam a malha sagrada e que não sabem o que isso é. Mas também por cada um daqueles que se sentam na tribuna. A estes, aliás, dirijo também a minha revolta, que vergonha é pouco.
3. Pior que ser de um clube que perde é ser um adepto conformado, em negação ou a tentar disfarçar. E isso é criminoso quando se tem responsabilidades.
4. As declarações à comunicação social roçam o doentio e confirmam o pior. Estamos a reproduzir tudo o que desprezávamos nos outros. Palavra a palavra. Protagonista a protagonista. Dos jogadores ao líder máximo. Onde bastava um singelo pedido de desculpas estão protestos vazios e até embaraçantes (porque já nem sequer em nosso proveito).
4. Há uns anos, testemunhei a conversa entre dois amigos por um deles ter avançado para a presidência de um clube – do seu clube do coração – ao que o outro ripostava, quase incrédulo, com um simples «és maluco?». Tão depressa ripostou como ouviu a explicação mais simples mas mais genuína: se sentisses que o teu clube precisava de ti tu não te disponibilizavas?
5. ...

#Saladejogos

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Separados à nascença

Os debates na Assembleia da República – tal como estão – fazem-me lembrar as informações de trânsito. Se forem gravados ninguém repara. Se forem trocados também não.
Vamos experimentar.
Presidente: Tem a palavra para um pedido de esclarecimentos o Sr. Deputado Jonas Galamba do Partido do Tempo Novo (PTN).
Deputado Jonas Galamba: Muito obrigado Senhor Presidente, Senhoras e Senhores deputados, a esta hora sinal vermelho na segunda circular, com fila nos dois sentidos. Nota para uma viatura parada na faixa da esquerda à passagem pelas Torres de Lisboa no sentido Benfica - aeroporto, e acidente no outro sentido na zona da rotunda do relógio. Na A2, acidente junto à primeira ponte do Feijó a provocar fila desde o nó do fogueteiro. E na A5, resistências desde o Estádio Nacional até ao túnel do Marquês.
Presidente: Tem que terminar Senhor deputado. Excedeu o seu tempo.
Deputado Jonas Galamba: Estou a terminar Senhor Presidente. Há ainda a registar no IC19 trânsito lento no sentido Sintra-Lisboa desde o Cacém até à Amadora, com fila no Estado Maior até Pina Manique. Ah, e um burro no meio da via na Calçada de Carriche que provoca fila desde Odivelas. Disse.
Aplausos da bancada do PTN.
Presidente: Tem a palavra para responder o Senhor Deputado Marco Antero Costa do Partido da Austeridade (PA).
Deputado Marco Antero Costa: Muito obrigado Senhor Presidente. Senhoras e Senhores deputados. Senhor deputado Jonas Galamba. Haverá ainda a registar o acidente na VCI, no sentido Arrábida – Freixo, com fila desde Bessa Leite até ao nó de Francos, e no sentido Freixo Arrábida, trânsito com resistência desde o Mercado Abastecedor e com paragem no nó da A3. No final da A28, trânsito lento na ponte sobre o Rio Leça com fila na avenida AEP até à Sidónio Pais e 5 de Outubro. Na via panorâmica em direcção ao Campo Alegre. E na A41, junto ao nó da A3, decorrem os trabalhos relacionados com o desabamento das vias de há 10 anos.
Aplausos da bancada do PA.
Estão a ver?
#Escritório

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Plano BÊ e o BE

Não vejo o jogo político-parlamentar do Governo por trás da fuga à votação do Programa de Estabilidade como um problema (e muito menos como uma surpresa).
Claro que o CDS – mais e melhor do que o PSD – faz muitíssimo bem em expor a fragilidade das esquerdas trazendo o assunto para cima da mesa e mostrando, para quem ainda não soubesse, quão envergonhada é a sustentação parlamentar do Governo PS.
E também acho que o Governo – e, com ele, o BE e o PCP – faz o seu papel ao evitar levar a votação um documento que teria um potencial de desestabilização perigoso e que não traria qualquer vantagem para o seu mandato.
Se quisesse resumir numa frase o desfecho deste episódio diria que já nem espaço há para uma boa hipocrisia, de tão transparentes que são as intenções.
O Programa de Estabilidade, pleno de generalidades, é para meninos e presta-se sem arte ao jogo político.
A sério vai ter de ser o OE 2017 (ou um eventual Plano B). Aí já não estarão disponíveis as divergências ideais. Ou aprovam ou não aprovam.
Mais do que o OE ou o Plano B quero é ver qual é o Plano BE (e PCP) para esse momento cada vez mais próximo. Sobretudo se as sondagens não recomendarem uma consulta popular.
#Escritorio

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O homem

Várias vezes lhe invejei o virtuosismo. Chegava a irritar-me com a dependência que dele tínhamos. E impressionava-me os mil e um ofícios de que era capaz.

Ontem, como hoje, qualquer problema solta o desabafo "é preciso chamar o homem". Pode ser uma janela que fecha mal, um candeeiro que não acende, uma torneira que pinga, o estuque da parede que caiu, qualquer electrodoméstico éstico que não funciona. Até para carregar móveis mais pesados.
Ao leve sinal de uma pequena patologia ou necessidade em casa, lá se ouve um "é preciso chamar o homem".

Com tanta arte e dependência do homem, é impossível a qualquer rapazito não querer ser homem um dia. Só não é tão completamente assim porque, como com quase todas as ilusões de infância, o tempo encarrega-se de desfazer o mito. Percebemos que o homem tem vários nomes, que não é sempre o mesmo, que nem sempre é competente. O "é preciso chamar o homem" chega a ser uma forma de pôr fim à conversa (suspeita-se que a avaria não tem solução, não se sabe sequer que homem se há-de chamar, mas não apetece alimentar a conversa, caso em que o "é preciso chamar o homem" vem sempre a calhar).

Por muita concorrência que lhe ergam (a começar pelos imensos incentivos modernos do "faça você mesmo"), por muito que lhe apontem o preconceito sexista (ainda há espaços de convivência imunes à perseguição do BE), por maior que seja a ignorância sobre quem é o artista em concreto, "o homem" ainda é uma instituição.
Para mim não tem problema nenhum. Para quem tiver não sei que lhe faça. Ou então que chame o homem ...

#saladeestar

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O homem que era um gimnodesportivo

De miúdo sempre ouvi o conselho de que a vida é para pôr a render. De parábola em parábola, de meditação em meditação, ficava-me uma síntese eloquente para a vida: deixa rasto.
Eu percebia o conselho. Era na base do não sejas de meias tintas, compromete-te, serve os outros, deixa uma marca (boa, pressupõe-se).
Não pretendo contrariar estes conselhos que trago de miúdo. E muito menos pretendo inventar uma doutrina barata e forçosamente foleira.
A verdade é que essa coisa do «deixa rasto» é uma miragem para 99,9% das pessoas. E dos 0,1% que deixaram rasto (rasto que se veja, que perdure para lá daqueles com quem conviveram) só uma ínfima parte é que fica a fazer parte do dia-a-dia dos vivos.
E mesmo desta ínfima parte dos 0,1%, a maioria deles perduram não pelo que foram, mas pelo que são.
Querem exemplos?
Aqui no Porto, se falarem em Marechal Gomes da Costa e perguntarem o que é, e onde é, ouvirão sem hesitações qualquer coisa como «é uma avenida ali para os lados de Serralves». Quase ninguém sabe quem foi o dito Marechal. Ou em Lisboa, todos saberão onde é, e o que é, o Saldanha ou a Fontes Pereira de Melo, mas quase ninguém sabe quem foram o Duque de Saldanha ou o Fontes Pereira de Melo.
Os melhores exemplos para mim ainda são os estádios por esse país fora. Tal como as avenidas ou as praças, não temos que dizer «estádio» antes do nome – basta o nome propriamente dito que toda a gente sabe do que estamos a falar. Onde vais? Vou a Barcelos ao Adelino Ribeiro Novo, ou a Aveiro ao Mário Duarte, ou ao saudoso Vidal Pinheiro (este era sempre antecedido de «o velhinho»), ou ao Estoril, ao António Coimbra da Mota (e não puxem por mim que nunca mais saio daqui). Já ninguém sabe quem são tão ilustres personalidades! Mas toda a gente sabe onde são e o que são! Essa é que essa.
Quanto a mim, mantenho o tal propósito do «deixa rasto». Já percebi que é vã a ambição de uma avenida, uma praça ou um estádio. Um grande pavilhão talvez seja difícil (só ao justo alcance de uma Rosa Mota ou de um Carlos Lopes – e que se não se tratarem ainda acabam demolidos como o Américo de Sá …).
Estou convencido que um Gimnodesportivo estará mais ao meu alcance. Não haverá, previsivelmente, conquistas históricas no meu gimnodesportivo (nem bilhetes de grandes eventos com o nome estampado). Mas já ficaria satisfeito se ouvisse um «gosto muito de ir jogar ao José Maria Montenegro». Ao gimnodesportivo, entenda-se (que o pai, o filho, o advogado ou o que for já ninguém vai saber).
O José Maria Montenegro? Sei perfeitamente. O gimnodesportivo.
#Saladeestar

terça-feira, 19 de abril de 2016

Pena

A longa sessão que nos foi servida pelos deputados brasileiros na votação do impeachment não salva ninguém. A emoção mais primária exibida sem pudor em cada declaração de voto – a favor ou contra – deixou-me com o pior dos sentimentos pelo povo brasileiro. Pena.

#Escritório