quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os contratos de associação e a liberdade

Os contratos de associação foram criados – e têm persistido – fundamentalmente para acudir às carências da rede pública (entendendo-se por rede pública as escolas do Estado).
Esses contratos não têm, de facto, qualquer relação com a questão da liberdade de educação e de acesso às instituições de ensino. Por muito que carreguem no argumento, não é essa a génese e a razão dos contratos de associação. A haver alguma relação ela advém, simplesmente, da circunstância de os contratos de associação demonstrarem que a propriedade das escolas é um mero preconceito, que sendo de privados nem por isso fica em causa a prestação do serviço público, que em tais casos pode o dito serviço público ser prestado a um mais baixo custo e até com mais qualidade. Talvez fosse útil perceber porque tem o Estado concorrido para a supressão daquelas carências de rede que justificam agora a iminente exclusão de escolas de sucesso (que se mede, designadamente, pela adesão e pela história junto da comunidade em que se inserem). Mesmo descontando o efeito da crise de natalidade (há menos alunos) parece que o Estado fez investimentos onde eles não seriam verdadeiramente necessários.
O que é facto é que não há, entre nós, liberdade de educação. Eu, que tenho os meus filhos numa escola pública, e que, volta e meia, pondero inscrevê-los numa escola privada, esbarro sempre no factor verdadeiramente dissuasor que dá pelo nome de propina mensal (que no meu caso até pode não ser determinante). Dizer que um agregado familiar pobre, em matéria de acesso à rede de ensino, tem a mesma liberdade que um agregado familiar abastado, é pura hipocrisia.
Debater e defender a liberdade de ensino – também traduzida simplisticamente por cheque ensino – faz todo o sentido. Advertir que essa liberdade de ensino não é compatível com critérios de selecção discriminatórios é entrar no fulcro do debate que interessa aprofundar. Já não me parece muito útil aproveitar a luta dos contratos de associação para invocar essa liberdade. Sinceramente, põe a nu algum oportunismo e confusão. E, sobretudo, revela falta de convicção, senão mesmo coragem, pois muitos dos seus porta-vozes, quando responsáveis pela tutela, foram os primeiros a evitar o dito debate que interessaria ter.

#Saladeestar
#Escritório

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A bem do futebol


 No dia em que não ficássemos com azia. No dia em que não nos desse enorme gozo a azia dos outros. No dia em que não tentássemos dourar as nossas conquistas para disfarçar a relevância das conquistas dos outros. No dia em que não gozássemos hiperbolicamente as nossas glórias.
Esse seria o dia da despromoção do futebol e dos clubes.
O futebol, as audiências, os estádios, os clubes, os patrocinadores. Vivem sobretudo dos adeptos. Os «simpatizantes» (chamemos-lhes assim) são um mero complemento que se se generalizasse remetia o futebol e os clubes a uma espécie de ATL.
O discurso politicamente correcto, se tivesse respaldo na realidade, reduziria a pó o interesse do futebol e a viabilidade das competições tal como as desejamos.
E não. Não confundam com falta de nível, de urbanidade ou de saber estar. E muito menos com violência ou corrupção.
Nunca tive dúvidas de que é muito saudável que eu deteste ver o Benfica tricampeão. Que eu sofra com a desgraça do meu Porto. E é também saudável que eu exagere nesses sentimentos. Que o digam os meus amigos e família do Benfica ou do Sporting. Que o diga eu que não gozava metade se não fossem eles.

A bem do futebol!

#Saladejogos

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O meu minuto 92

Não lamento nada. Há quem se arrependa de não se ter entregue à medida do momento. Eu não. Não lamento nada.
Festejei como se não houvesse amanhã. Com quem queria, a começar pelo meu filho que já viveu e sentiu como eu. Saltei, abracei, beijei, gritei, dancei. Tudo superlativamente. Lembro-me que já não estava quase ninguém no estádio e que até tive de ser convidado a sair do Dragão (não queria sair enquanto estivesse lá, em sofrimento e para meu supremo gozo, a falange do adversário).
Agasalhei-me depois com uma francesinha numa das várias cervejarias que por toda a cidade se apinharam de gente feliz. Recordo-me de encontrar imensos amigos (que, naquela ocasião, eram ainda mais amigos tal era a recíproca abertura de coração e disponibilidade para mais abraços). Sempre ao som dos festejos daquele momento, daquele golo. E sempre acompanhado das imagens em repetição sucessiva que preenchiam os vários ecrãs que costumeiramente decoram as paredes destes templos do pós-jogo. E matei uns finos. Muitos.
Se há momento que gozei e que percebi o quanto valia, foi esse.

Há 3 anos.

#Saladejogos

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Na berma até Fátima

Todos os anos somos surpreendidos (surpreendidos não será bem o termo, infelizmente) com a tragédia dos atropelamentos de grupos de peregrinos a caminho de Fátima. Se é certo que não há "épocas baixas" é com a proximidade do 13 de Maio - data em que afluem mais peregrinos - que essas tristes notícias são demasiado frequentes.

No país das auto-estradas (já vai da A1 à A49!, imaginem), das super escolas com mobiliário de assinatura e dos Programas Polis, ainda não temos um simples caminho, com um mínimo de segurança, ao dispor dos milhares de peregrinos que já mereciam evitar a berma da Estrada Nacional 1 (o que para alguns, será o mesmo que dizer, que já mereciam não perder a vida).

Eu perceberei pouco do que deve ou não deve ser o investimento público mas percebo o suficiente para ter a certeza de que é escandaloso, quase 100 anos depois dos primeiros peregrinos, ainda não termos concluído uma das mais elementares obras públicas. E esta seria verdadeiramente universal. Beneficiaria novos e velhos, ricos e pobres, homens e mulheres. Ou não fosse o caminho para Fátima.

Também aqui www.opalacete.blogspot.com

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A política e a natalidade

A agenda da natalidade (não confundam com a agenda pessoal de fertilidade...) tem servido, infelizmente, para o exercício mais primário do jogo político-parlamentar.
O diagnóstico é tão objectivo - faltam nascimentos e crianças em Portugal, está em causa a sustentação da segurança social e a dimensão do nosso mercado - que a consensualização à volta de medidas ao serviço dessa causa deveria ser quase um impulso colectivo. Infelizmente não foi e continua a não ser assim, por muito que o problema se agrave e se revele cada vez mais premente fazer alguma coisa.
Típica e estupidamente prevalecem duas razões para o impasse.
A primeira é ideológica. Vá-se lá saber porquê, a nossa esquerda associa à direita a agenda da natalidade. É que estaremos sempre a falar da maternidade, do incentivo aos nascimentos, da família (sendo a família convencional - homem / mulher - a que tem significativa propensão para gerar crianças). Tudo termos ou conceitos que causam urticária à esquerda, por nos reconduzir ao elementar das relações familiares e sociais. E dessa urticária brota a resistência, por muito que ela não lhe aproveite - nem a ela nem a ninguém.
A segunda razão é de ordem puramente estratégica e política, no seu sentido mais desprezível. Com a alternância política, cada facção tem disposto das maiorias aparentemente suficientes para avançar com medidas concretas de promoção da natalidade, sem que a resistência da oposição represente um verdadeiro obstáculo. Os mandatos, todavia, sucedem-se, as maiorias e os protagonistas mudam, e apenas nos são servidos pequenos paliativos, acompanhados de chavões propagandistas. À clareza de intenções e de medidas na oposição sucede-se uma cruel tibieza no Governo.
Já sabemos. As circunstâncias condicionam. Os constrangimentos orçamentais justificam tudo. E cada liderança, em concreto, tem as suas próprias prioridades de entre aquelas que representam o seu partido.
Eu diria que as circunstâncias revelam com mais clareza as verdadeiras prioridades (porque são esses os momentos de fazer opções).
Ora, esta dança entre oposição e poder torna irresistível a ambos os "lados" expor as contradições entre as declarações e as ações. Pouco interessa se as propostas de acção são boas e até indiscutíveis. Pouco releva a urgência dessas acções. O que verdadeiramente importa - chega a dar um prazer indisfarçável - é expor as contradições, denunciar a hipocrisia, desmascarar a autoridade moral. No fundo, não há como desperdiçar um bom número político.
Não teria problema, não seria gravíssimo ou mesmo criminoso, se o interesse de todos não estivesse a ser desprezado, agravando o estado de urgência que vivemos.
Qualquer pessoa, parcial ou imparcial, de direita ou de esquerda, no governo ou na oposição, e desde que consciente, só pede 3 coisas:
1. Deixem-se de jogos e de tretas e aprovem medidas a sério de apoio à natalidade.
2. Deixem-se de jogos e de tretas e aprovem medidas a sério de apoio à natalidade.
3. Deixem-se de jogos e de tretas e aprovem medidas a sério de apoio à natalidade.
(Não necessariamente por esta ordem, como se costuma ressalvar).
#Saladeestar
#Escritório

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Túnel do Marão?

Já estive a ver o mapa e não vai para a Pontinha, nem para a Amadora, nem para Odivelas, nem Santa Apolónia, nem Terreiro do Paço, nem São Sebastião da Pedreira, nem Cais do Sodré.
Também não consegui perceber de que linha é que faz parte. Da amarela não é. Da vermelha e da azul também não. E na verde não encontro. Mas por que diabo e para chegar onde se fez o túnel?
Ironias à parte (a que não resisti) apetece-me dizer que o problema do Túnel do Marão é ser o Túnel do Marão.
A inauguração do próximo sábado padece de um atraso tal que já só me pergunto se é mesmo verdade que foi construído o Túnel do Marão – «o segundo maior da península» (muito gostamos nós destas medidas de grandeza!).
Não fosse o Túnel no Marão e há muito mais tempo teria sido inaugurado. Mesmo que custasse o dobro, derrapasse outro tanto e fosse o 50.º investimento de dezenas ou centenas de milhões na mesma região.
O povo costuma dizer que nas famílias há filhos e enteados. Eu acrescento que também é assim nos investimentos do Estado que envolvem muitos milhões.
É fazer a lista e medir os investimentos do Estado dos últimos 15 anos. Haverá poucos espalhados pelo país, haverá alguns com olhos de ver à volta do Porto e depois, bem, depois, haverá para aí uns 50 na famosa região do efeito spill over (só a ampliação do metro nos últimos anos dava para 3 ou 4 Túneis do Marão!).
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terça-feira, 3 de maio de 2016

Escreve-se assim, mas lê-se assado

A celeuma à volta de como se deve ler ou dizer «Leicester» não é original. Por exemplo, estou farto de dizer que «Cedofeita» não se lê como se se escrevesse «cedo feita» mas sim como se se escrevesse «se do feita»!
Ah, mas eu leio como se escreve…
Tudo bem. Se queres ser parolo, estás à vontade.
#Saladeestar