quarta-feira, 25 de maio de 2016

É muito isto


#Salaodevisitas

Elevador

Não deve haver lugar de maior tensão diária que os elevadores nos edifícios de escritórios.
Quando primo o botão para chamar o elevador que me há-de levar ao meu posto de trabalho o gesto é sempre acompanhado do desejo interior de que nada nem ninguém me importune aquele percurso vazio. Gosto de andar sozinho de elevador. Relaxam-me aqueles segundos em que não penso em nada, não faço nada e não sou estimulado para nada (nem pelo telemóvel que perde logo a rede).
Quando aquele nada nos é negado não é só o nada que nos é negado. Ele é trocado pela desconfortável tensão da companhia – qualquer que ela seja – que ora suscita conversa forçada de circunstância (ah, o tempo, as obras da rua, o fim-de-semana) ora impõe um silêncio sepulcral e infindável que permite nervosamente fazer imensa coisa. Ajeitar o nó da gravata. Olhar (sem ver!) os papéis ou o telemóvel que temos nas mãos. E ler a ampla literatura afixada no elevador. Eu, por exemplo, já sei de cor que o certificado de inspecção da Schindler está em vigor até 16 de Outubro de 2016 e que tem de ser solicitada a sua renovação até ao dia 16 do mês anterior.

#Saladeestar

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sempre

Já várias vezes disse que não sou adepto da festa. Gosto da glória que justifica a festa. E não me ensaio para a festa. Mas não foi nem é na festa que me revelo, que me revejo ou que me vingo.
Gosto demais do Porto para medir a minha adesão pela glória concreta e circunstancial. Arrisco até dizer que, como em tudo na vida, é nos momentos mais difíceis que me afeiçoo mais, que me confirmo. Do Porto sou, ao Porto me entrego, com o Porto me confundo. E é por ver assim, por sentir assim, por ser assim, que me ligo ao Porto para lá dos protagonistas que transitoriamente «estão» no clube. Há mais ou menos tempo, com maior ou menor drama.
Hoje mais ainda que ontem. Porto sempre!

#Saladejogos

Não. Não aconteceu taça.

1. Parabéns ao Braga.
2. Quando vejo os golos que sofremos apetece-me chorar. Literalmente.
3. Já não sei quantas vezes, ao longo desta época, clamei pelo André Silva. Era demasiado óbvio. Tem tudo. Mesmo tudo. É portista a sério. Fez o percurso todo no Porto. É português. É trabalhador (já o sigo há mais de 2 anos). É fisicamente forte. É ponta de lança. Tem faro de golo. Marca golos. Muitos. E ainda não vimos nada.
4. O Fernando Santos podia ter seleccionado o André Silva (e foi, juntamente com o Ricardo Pereira, o meu lamento da convocatória). Mas não vale a pena apontar o dedo ao seleccionador nacional. Fomos nós, no Porto, que não quisemos apostar nele ao longo da época. Contra todas as evidências e conveniências.
5. Custa-me dizer isto. Mas não merecíamos esta taça. Nem a direcção. Nem a equipa técnica. Nem os jogadores. Nem nós, adeptos. Por esta ordem.

#Saladejogos

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ir

Há qualquer coisa de sufocante no fenómeno dos festivais de Música. Em certa medida, estão transformados num mundo de alegria, de sucesso, de partilha, a que colectivamente quase nos sentimos obrigados a ceder. Esse sufoco dos festivais decorre, naturalmente, dos méritos de quem os erige mas muito do nosso consentimento. E já sabemos. É sempre incrível, histórico, memorável. As bandas, os artistas (e os seus petit noms), os directos e as multidões. As súbitas multidões de fãs incondicionais. Pouco espaço sobra para a dúvida ou para a entrega mais tímida.
E sempre sem condicionamentos de monta, por muito dinheiro, por muito tempo e por muito exigente que seja a gestão familiar. Ir é o verbo. «Eu Vou», lê-se por todo o lado.

#Saladeestar

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os contratos de associação e a liberdade

Os contratos de associação foram criados – e têm persistido – fundamentalmente para acudir às carências da rede pública (entendendo-se por rede pública as escolas do Estado).
Esses contratos não têm, de facto, qualquer relação com a questão da liberdade de educação e de acesso às instituições de ensino. Por muito que carreguem no argumento, não é essa a génese e a razão dos contratos de associação. A haver alguma relação ela advém, simplesmente, da circunstância de os contratos de associação demonstrarem que a propriedade das escolas é um mero preconceito, que sendo de privados nem por isso fica em causa a prestação do serviço público, que em tais casos pode o dito serviço público ser prestado a um mais baixo custo e até com mais qualidade. Talvez fosse útil perceber porque tem o Estado concorrido para a supressão daquelas carências de rede que justificam agora a iminente exclusão de escolas de sucesso (que se mede, designadamente, pela adesão e pela história junto da comunidade em que se inserem). Mesmo descontando o efeito da crise de natalidade (há menos alunos) parece que o Estado fez investimentos onde eles não seriam verdadeiramente necessários.
O que é facto é que não há, entre nós, liberdade de educação. Eu, que tenho os meus filhos numa escola pública, e que, volta e meia, pondero inscrevê-los numa escola privada, esbarro sempre no factor verdadeiramente dissuasor que dá pelo nome de propina mensal (que no meu caso até pode não ser determinante). Dizer que um agregado familiar pobre, em matéria de acesso à rede de ensino, tem a mesma liberdade que um agregado familiar abastado, é pura hipocrisia.
Debater e defender a liberdade de ensino – também traduzida simplisticamente por cheque ensino – faz todo o sentido. Advertir que essa liberdade de ensino não é compatível com critérios de selecção discriminatórios é entrar no fulcro do debate que interessa aprofundar. Já não me parece muito útil aproveitar a luta dos contratos de associação para invocar essa liberdade. Sinceramente, põe a nu algum oportunismo e confusão. E, sobretudo, revela falta de convicção, senão mesmo coragem, pois muitos dos seus porta-vozes, quando responsáveis pela tutela, foram os primeiros a evitar o dito debate que interessaria ter.

#Saladeestar
#Escritório

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A bem do futebol


 No dia em que não ficássemos com azia. No dia em que não nos desse enorme gozo a azia dos outros. No dia em que não tentássemos dourar as nossas conquistas para disfarçar a relevância das conquistas dos outros. No dia em que não gozássemos hiperbolicamente as nossas glórias.
Esse seria o dia da despromoção do futebol e dos clubes.
O futebol, as audiências, os estádios, os clubes, os patrocinadores. Vivem sobretudo dos adeptos. Os «simpatizantes» (chamemos-lhes assim) são um mero complemento que se se generalizasse remetia o futebol e os clubes a uma espécie de ATL.
O discurso politicamente correcto, se tivesse respaldo na realidade, reduziria a pó o interesse do futebol e a viabilidade das competições tal como as desejamos.
E não. Não confundam com falta de nível, de urbanidade ou de saber estar. E muito menos com violência ou corrupção.
Nunca tive dúvidas de que é muito saudável que eu deteste ver o Benfica tricampeão. Que eu sofra com a desgraça do meu Porto. E é também saudável que eu exagere nesses sentimentos. Que o digam os meus amigos e família do Benfica ou do Sporting. Que o diga eu que não gozava metade se não fossem eles.

A bem do futebol!

#Saladejogos