segunda-feira, 13 de junho de 2016

Brinquem, brinquem

Vejam as imagens da batalha campal em Marselha. Vejam ingleses e russos em recíprocos actos primários e selvagens. Muitos deles impelidos contra os demais só porque são russos ou ingleses. Vejam. Vejam bem.
E por muito que digam que os ingleses ou os russos são mais propensos, vejam também os alemães e os ucranianos em cenas congéneres em Lille.
Eu não tenho ilusões. Cada vez mais me fixo no essencial. E o essencial é a importância dos instrumentos de política e de direito internacional (de preferência com uma relevante componente económico-financeira) na manutenção da paz.
Brinquem, brinquem, que eu cá continuo um convicto prosélito da União Europeia, por muitos defeitos que justamente lhe possamos apontar.
#Saladeestar
#Escritório

sábado, 11 de junho de 2016

Brian Wilson, Porto (Pet Sounds 50th Anniversary)

Gastamos para tudo e mais alguma coisa os mais desassombrados adjectivos. Vamos a qualquer concerto ou festival e lá soltamos o generoso relato "espectacular", "incrível" e "histórico" (este o mais frequente e que serve sempre para cravar uma linha entre os que estiveram e não estiveram "lá").

Desta vez, sem qualquer exagero e com todas as letras (ainda estou incrédulo).

Imaginem aqueles clássicos geniais com 50 anos. Daqueles que fizeram a música e dos quais partiram tantas outras músicas.
Imaginem depois o vosso jardim de casa (aquele onde correm, onde brincam com os vossos filhos e onde o verde se une ao mar).
Juntem o sol, a gerar aquela luz alaranjada de quando se vai deitar.
Finalmente, um mar de gente. Civilizada, de muitas idades e a falar várias línguas.

Estão a imaginar? Seria "espectacular", "incrível" e "histórico" não seria?

Pois foi.

#Saladeestar


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Viva Portugal!

1. A cada grande fase final de um mundial ou europeu constato sempre que gosto muito mais da selecção e da atmosfera especial que se gera à sua volta do que imaginava. É sempre assim.
2. Há depois uma experiência pessoal que me comove. Sinto-me irmanado com grandes amigos a quem reconheço a mesma paixão, entrega e forma de sentir o futebol, mas que para lá da selecção militam noutras «paragens» que nos distanciam. A reconciliação – e mais que a reconciliação, a verdadeira comunhão – que a selecção nos proporciona dá-me um prazer quase físico. Ontem, no estádio, lá andava abraçado (em genuína sintonia) com velhos amigos com quem nunca posso partilhar a bancada.
3. Não há nada de parolo ou de infantil nesta adesão que o futebol e a selecção nos suscitam. Eu vivo também de símbolos que justificam o meu patriotismo. De momentos que me «ensinam» o hino que quase nunca entoo. E seria ridículo – isso sim – menosprezar este ímpeto tão saudável só porque que é «futebol» e não tem a solenidade dos palácios (que em boa verdade, dispenso).
4. Gosto de Portugal. Apeteceu-me dizer isto. Desculpem lá.
#Saladejogos

terça-feira, 7 de junho de 2016

Selecção

Não padeço de qualquer crise de entusiasmo relativamente à nossa selecção. Aliás, nunca lhe neguei a minha adesão total, sempre nela projectei as maiores ilusões e, invariavelmente, alimento aquele formigueirozinho infantil antes das grandes competições.
Sinto que me faz bem esta entrega. Sinto que nos faz bem enquanto povo. Especialmente porque poucos fenómenos nos unem com a mesma eficácia, com a mesma transversalidade social, económica, cultural, política, geracional.
Compreendo mal o alheamento de alguns (não serão assim tantos, mas são de todas as cores) que de tão «dedicados» ao seu clube não conseguem sentir a selecção e até projectam nela um empecilho àquele amor maior que lhes preenche a época ao longo do ano.
Eu recuso-me a fazer comparações. E não alcanço essa contradição. Vejo-a sempre como tributária de um coração mal resolvido. É como me perguntarem de qual filho gosto mais (por um estar menos presente que o outro).
Adorava festejar com a selecção o título europeu (como já festejei com o meu clube)!

#Saladejogos

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Crianças, já não sou capaz

É no dia de anos (óbvio). No Natal (claro!). Nos nossos próprios dias de anos (que ternurentamente, são tão delas). Na Páscoa (com a mobilização dos padrinhos). No Carnaval (que são sempre vários dias). No malogrado Halloween (uma espécie de carnaval temático). E no dia "delas", agora tão popular.
Não me censurem. Não consigo. É muita a pressão. São convenções sociais a mais para mim. É que eu sou do tempo em que nem sequer sabíamos da existência de metade daqueles dias!
Crianças, desculpem. Já não sou capaz!
#Saladeestar

sábado, 28 de maio de 2016

Declarações de amor

Provincianamente, cresci refém de vários preconceitos. Um deles sempre foi o de que as declarações de amor, quando ditas em inglês, ou mesmo em brasileiro, ficam naturalmente bem. Já se ditas no nosso português soam a forçado, pouco natural e até ridículo.

Eu reconheço que, por um lado, somos filhos das séries e filmes em inglês - em que qualquer "I love you", "I miss you" ou "I need you" sai sempre bem. E por outro, fomos formatados pelas telenovelas brasileiras - em que o banal "te amo" ou "eu amo você" contrastava com o nosso forçado e quase anti natural "eu amo-te" (com ou sem acento no "a"). Em inglês ou em brasileiro, todos tivemos o nosso momento mais frágil (quem nunca estremeceu com uma declaração de amor no cinema ou na TV?).

Com o tempo, com a experiência e alguma emancipação, fomos aderindo ao português e ao nosso modo de nos declararmos. Eu, pessoalmente, desde que tenho filhos, tenho vindo a descobrir a riqueza impressionante da nossa língua. Nas palavras, na forma de as dizer e nas imagens disponíveis.

A mais recente (e que ainda ferve no meu coração sensível) foi-me dedicada pela minha filha de 4 anos que, doente em casa e acompanhando-me à porta de saída me pediu "pai, compra-me uma lata de salsichas só para mim?". Quando lhe disse "claro que sim, filha", respondeu em bom português e com a voz embargada pela febre "o pai é lindo". Não sei se em inglês ou brasileiro ficava tão bem ...

#Saladeestar

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Aprender com os 6 meses da esquerda

Estes seis meses de governo da esquerda - com BE e PCP implicados - deviam interpelar a direita parlamentar e social para lá da mera oposição (por muito competente e eficaz que esta possa e deva ser).

Para o bem ou para o mal, a esquerda, ao contrário da direita, está apostada em assumir-se. E por isso, uma vez sentada no poder, avança sem freio nem pudor. Na primeira hora, e no que ao plano simbólico e cultural dos costumes se refere, arrasou as taxas e demais medidas dissuasoras do aborto, avançou para a adopção por casais homossexuais, para as barrigas de aluguer e lançou a eutanásia. No plano estritamente político, foi em frente com o fim dos cortes nas pensões e na função pública, revogou o coeficiente familiar, e não hesitou na reversão das concessões e privatizações nos transportes. Não satisfeita, lançou-se ainda contra os contratos de associação na educação, aproveitando para desprezar os bons resultados e a história de tantas escolas junto das suas comunidades e entrincheirando eventuais pretensões sobre a "liberdade de educação".

Se há característica que se destaca, e que marca a esquerda por contraposição à direita, - e é perigosamente cada vez mais assim - é que a esquerda não hesita em avançar com as suas reformas ideológicas, desprezando se necessário o argumento económico-financeiro.

Já a direita nem com maiorias absolutíssimas avança com olhos de ver. E no que avança fá-lo com mil hesitações. Por muito que o estado de necessidade financeira diminua a margem de actuação, ele não justifica tudo. Até porque há muitas medidas simbólicas que escapam a esse espartilho (como bem demonstra a esquerda).

Para quem não se identifique nada. Para quem não se identifique substancialmente. Ou para quem não se identifique em parte (porque não enjeita algumas das medidas). Seja para quem for, a verdade é que estes seis meses de governo da esquerda servem, entre outras coisas, para cravar esse sulco entre a tibieza da direita e o despudor da esquerda. Devíamos aprender.

#Escritorio