sábado, 17 de setembro de 2016

Vou de comboio (I)

As viagens de comboio sempre me desassossegaram. Quase nada me conduz ao descanso ou à simples alienação. Começa com a tensão da hora da partida (chegar à estação a horas está transformado num estranho e quase psicótico drama). Vencida a dúvida da pontualidade, convivemos, da partida à chegada, com aquela cadência do percurso ritmado (que dá sentido ao infantil "pouca terra") e que me sugere imensas melodias (serei um compositor por revelar, mas suspeito que dos sofríveis). As paisagens ora me espantam ora me desiludem, mas sigo-as por canina obediência à curiosidade. Gosto mais das humanas - daquelas que são preenchidas pelas expressões abandonadas de quem espera nos sucessivos cais, ou pelo pânico de quem teme o arranque do comboio antes de assegurada a reunião dos haveres dentro da carruagem. Ou mesmo a expressão de enfado do chefe de estação, de apito na boca e bandeira erguida e sempre por desfraldar (nunca percebi porque a ergue enrolada).
Depois aqueles costumeiros e inevitáveis desassossegos – os jornais do dia (por regra, muitos). Mais um ou outro livro. E papéis de trabalho. No fundo, sempre uma mão cheia de propósitos (onde cabem as orações de expiação), porque teimo em alimentar a ilusão de que vou ter tempo disponível. Eu admito que no comboio o tempo parece maior, mais lento, mais paciente. Mas só por vã teimosia podemos achar que vai ser nosso. Até porque à espreita surge o incontornável sono, sempre pronto a boicotar o que calhar - seja a paisagem, seja a leitura dos jornais ou a revisão dos papéis de trabalho. E também ele é de um desassossego desconfortável, porque invariavelmente esbarra contra o peso na consciência (quem nunca acordou sobressaltado a achar que já passou a sua estação?).

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

José António Saraiva

José António Saraiva não me surpreende. Quando há uns anos li – sim, comprei e li – o seu «Confissões» pensei para mim: aqui está um homem a quem nunca contarei absolutamente nada, história nenhuma, episódio banal ou corriqueiro. E muito menos da vida privada (da minha ou de outrem).
Na oportunidade e no modo, achei-o de um despudor e de uma deselegância para com os citados (alguns até já haviam partido), que não precisei de mais para perceber que não gozava da inteligência dos sensatos.
Pouco me interessa se faz boas ou más análises. Se tem boas ou más opiniões. Se acerta ou não nas previsões. Terá dias como toda a gente e não é esse o meu ponto.
Com alguém assim, lamento, mas quero distância.

#Saladeestar

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A ver se nos entendemos

É óbvio que quem tem património imobiliário no valor de €500.000 em Portugal é um privilegiado (infelizmente a maioria dos portugueses não têm nem nunca terão património em valor dessa ordem de grandeza).

Questão diferente - que é a que se coloca em face desta sanha tributária - é a de saber se essa circunstância legitima um imposto específico para lá de todos os outros. Já pagamos IRS a taxas elevadíssimas a partir de níveis de rendimentos anormalmente baixos. Já pagamos IMI. Pagamos Imposto do Selo e IMT. Temos das taxas de IVA mais elevadas. Pagamos dois carros quando compramos um. Pagamos mais de dois litros de gasolina de cada vez que compramos um.

É neste quadro que se inscreve um novo e adicional imposto sobre a propriedade. Que, ao contrário do que sugeriram, não será devido apenas por quem não paga IRS. Será devido por quem pague ou não pague IRS.

Não relevo o condicionamento óbvio de a mera propriedade não significar liquidez para atender ao imposto devido (frequentemente estará em causa património herdado ou adquirido com financiamento bancário quase todo por pagar). Deixo de parte a conformidade constitucional da pretensão (constituirá uma dupla tributação sem arrimo evidente na capacidade contributiva e na prossecução da igualdade).

Apenas pergunto: faz algum sentido com os níveis de tributação generalizada que temos, visar aqueles que, sendo infelizmente poucos (ou pelo menos não tantos assim), ainda teriam alguma capacidade de investir, de criar ou aumentar um pequeno negócio, e gerar algum emprego?

Se querem receita a sério, apetece sugerir: tributem o preconceito!

#Saladeestar
#Escritório

Assim, de repente …

1. Vamos ter um novo imposto, mas o PS não quer que se diga que é um novo imposto?!? Mas então quer se diga que é o quê?
2. € 500.000, dizem. Mas é pelo valor líquido ou bruto? É que conheço tanta gente com casas de valor mas que as deve quase totalmente ao banco …
3. € 500.000, dizem. Mas é a dividir pelo agregado familiar ou não? É que conheço tanta gente com casas maiores porque há mais gente para deitar …
4. € 500.000, dizem. Justificam que o VPT é por regra abaixo do valor real. Não conhecem nem a lei nem o mercado. Ou então pensam que os VPT de prédios urbanos são como os VPT de prédios rústicos. É que conheço tanta gente que nos anos recentes de crise vendeu abaixo do VPT …
5. € 500.000, dizem. Depois da regra dos € 50.000 nos bancos, das taxas efectivas de 50% no IRS, do imposto pornográfico sobre a gasolina. Depois queixem-se que não há investimento e emprego. Estão a enxotar os que vos podiam ajudar!
6. Ah! Ainda paira por aí o regresso do imposto sucessório.

#Saladeestar
#Escritório

Empatas

1. Que porra pá!
2. Tivemos momentos bons, entrámos bem e fizemos naturalmente o golo.
3. Depois, inexplicavelmente, fica-se com a desconcertante sensação que não queremos assim muito. Os momentos de apatia foram tantos que não consigo perceber.
4. Herrera é menos um neste momento. Não tem presença e arrasta-se. O lugar pertence totalmente a André André.
5. André Silva devia gravar estes jogos. Para perceber como tem de melhorar. A linha entre a afirmação e o deslumbramento é curta e não pode ser ultrapassada.
6. Continuo a gostar desta equipa, gostei do regresso de Brahimi, animou-me olhar para o banco e ver qualidade e alternativas.
7. Em casa, contra o Copenhaga, na primeira jornada. Não devíamos ter empatado. Não podíamos, porra!

#Saladejogos

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O juiz Carlos Alexandre? Está mal.

Se não dá entrevistas nem se expõe está mal porque não se dá a conhecer. Se dá entrevistas está mal porque deveria manter-se no prudente recato.
Se diz que tem muito dinheiro está mal porque é estranho que um juiz – cujos rendimentos são publicamente conhecidos – tenha dinheiro. Se diz que não tem dinheiro e que só tem o que aufere do seu trabalho de juiz está mal porque devia ter (como e porquê não interessa).
Se diz que teve uma infância extasiante e abastada está mal porque se está a exibir. Se diz que teve uma infância simples e austera está mal porque não tem nada que se armar em humilde.
Se tem a percepção que está a ser escutado e «acompanhado» em permanência está mal que não o diga. Se o diz está mal porque não o deve dizer.
O juiz Carlos Alexandre está sempre mal. Faça o que fizer. Evite fazer seja o que for. Diga (ou não diga) o que disser. Estará sempre mal. Sempre. Não vale a pena.
Eu não tenho estados de alma relativamente ao juiz Carlos Alexandre, o que não quer dizer que não me mereça muitas críticas. Mas há uma apreensão que não me assalta – a de que não é honesto e não procura ser justo. Essa tranquilidade acho que a tenho.
Assim, de repente, e apesar de tudo, é a que mais valorizo. E nessa não está mal.

#Saladeestar

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Barbosa de Melo

Não tive o privilégio de ser aluno de Barbosa de Melo e não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Mas acho que posso dizer que o conhecia. Li-o muitas vezes. Sei da sua relevância e inteligência (sobretudo inteligência) em momentos especialmente importantes e fundadores do nosso regime. E acompanhei já, a partir de 1991, o seu «regresso» à ribalta – e, portanto, os seus dois mandatos na Assembleia da República, o primeiro dos quais enquanto presidente eleito pelos seus pares.

A autoridade que lhe reconhecia ia colher ao que nunca pensara ter de valorizar tanto.
Era genuinamente sólido. Cultivava com naturalidade o pluralismo democrático por que se batera. Era sereno na sua firmeza.
Não precisava de ser «floral» nas intervenções. Nem simular (muito menos sentir) reacções ressabiadas e arrogantes.
Por aí se explica a adesão espontânea que gerava. De quem concordava e de quem discordava. Respeitavam-no. E era merecedor de respeito.

Fazem-nos falta, em todas as bancadas, Barbosas de Melo. Faz-nos falta Barbosa de Melo.

#Escritório