sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Não há perdão

Se há coisa que não me surpreende mas que lastimo - à direita e à esquerda - é a paixão com que se critica ou defende exactamente a mesma solução quase ao mesmo tempo. Sim, exactamente a mesma solução. Defende-se ou critica-se em função do autor da proposta ser ou não ser dos "nossos".

Percebe-se o incómodo do governo a propósito do perdão fiscal agora anunciado. Ele não é senão uma medida desesperada de arrecadação de receita. Mas é assim com este perdão fiscal como foi com o seu "irmão" promovido há 3 anos pelo anterior governo. E não vale a pena perder tempo com narrativas porque não é preciso conhecer os detalhes do diploma para saber que este e o de há 3 anos são iguais no que verdadeiramente interessa (perdão de juros e de custas para quem pagar dívidas fiscais).

Há de facto uma diferença. Os críticos de ontem são os apoiantes de hoje. E vice-versa. E essa diferença é hipócrita, é circunstancial e não é tributária de qualquer nobre convicção.
Apetece-me dizer - à direita e à esquerda - que a falta de memória e de contenção verbal é feio. E para isso é que não há perdão.

Já agora, apetece-me dizer também que abomino o modo como se pretende encravar, a propósito desta medida, o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Denunciar-se que a medida beneficia a GALP é o mesmo que sugerir que ela não deveria ser geral e abstracta e que, portanto, não se deveria dirigir a todos os contribuintes. É pura dialéctica política (no mau sentido). Eu defendo (em linguagem popular e demagógica) que estas medidas devem estar ao serviço de todos, das pequenas e médias empresas, das famílias, dos grandes criadores de emprego, de quem investe. Dizer que está em causa beneficiar o grande capital, a GALP, o sogro e o irmão do Secretário de Estado é dizer a mesma coisa. Mas é também feio e também não há perdão.

#Escritório

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Guterres

Se outras razões não se impusessem, eu relevaria em António Guterres o exemplo que representa de que na política podem estar os melhores de entre os melhores, os que se dedicam a servir e que, portanto, enobrecem a vocação política. Sempre me inspirou a sua vocação humana e carismática ao serviço da causa pública.
Sinto-me orgulhoso como cidadão integrado na comunidade internacional. Antes até do orgulho por ser um nacional do meu país.
E depois uma nota pessoal. Fala-se muito - e bem - do extraordinário trabalho da diplomacia portuguesa neste processo. Eu não meço as minhas amizades ou relações familiares pelo sucesso. Mas participo, no orgulho e na vibração, dos seus sucessos. Estou inchado - basicamente era isso que queria dizer a duas pessoas: Álvaro Mendonça e Moura e Miguel Graça!

#Escritório

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Cinema Trindade - da viragem ao regresso

A ida ao cinema era um programa tão desejado quanto raro. Entre os 6 e os 15 anos sou capaz de relatar cada um desses «programões» (era assim que os vivia). Os filmes, as companhias e o gozo que guardei dessas "precárias".
A viragem – já explicarei o que é isso da viragem – deu-se numa tarde de sábado, contra todas as previsões e sem qualquer expectativa.
Vinha de uma manhã intensa e gloriosa – na idade em que a intensidade e a glória se mediam pelos golos marcados e pelas vitórias alcançadas nos vários torneios de futebol que preenchiam os meus fins-de-semana.
Por iniciativa de uma voluntariosa mãe fomos, em equipa, almoçar fora (outro programão e também raro). Éramos sete magníficos com uma tarde pela frente.
Ainda estou a ver a secção de classificados do jornal que folheámos para escolher o que fazer. E recordo-me ainda mais do destino eleito por aclamação.
Foi na rua Dr. Ricardo Jorge, no Porto, que ao início da tarde fomos triunfantemente depositados. Íamos ao cinema!
Dizer que foi especial talvez seja uma banalidade (com 10 ou 11 anos ir com sete amigos ao cinema era já de si especial). Sem imaginar o que me esperava, vi-me de bilhete na mão pronto para ir ver o "Cocktail" com o Tom Cruise e a Elisabeth Shue como protagonistas.
Lembro-me de ficarmos todos juntos numa fila perdida no meio do andar de baixo do enorme anfiteatro do icónico e repleto cinema Trindade (foi antes da transformação em duas salas). 
Naquela tarde não foi só um filme que vi. Descobri o charme e o potencial do cinema. O escuro. A intimidade. A sensação de estar lá dentro, numa espécie de osmose entre a nossa pulsão e o desenrolar do argumento.
Até então só havia experimentado filmes infantis ou de humor (vinha de ver o «Gente Gira 2» no Pedro Cem …). E se desta vez o filme não era infantil eu, infantilmente, apaixonei-me. Quer dizer, não me apaixonei. Fiquei siderado na protagonista da película (era assim que nos apaixonávamos aos 10 anos). Foi a primeira vez e a minha inocência não me advertira para a hipótese. Ao intervalo – havia sempre intervalo – estava meio sem jeito e só pensava na Elisabeth Shue e no seu sorriso sedutor para o Barman estiloso. Apesar da minha fragilidade, passou rápido, devo advertir. Mas foi suficiente para mudar as minhas idas ao cinema.

Só posso vibrar com o regresso anunciado do cinema ao Trindade - o palco da "viragem". E, já agora, de muitas mais e melhores memórias. Foi lá que vi também, por exemplo, a "Lista de Shindler" ou "O silêncio dos inocentes" - filmes incomparáveis ao banal Cocktail. Afastado que estou das idas ao cinema, devo confessar que sinto o chamamento com o regresso do Trindade. Depois da "viragem" é lá que celebrarei o "regresso".

#Saladeestar

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ZENPROF

Estamos em Outubro. Há turmas sem professores. Há professores sem turmas. Há milhares de vínculos precários. Há falta de pessoal não docente (os auxiliares são um bem indispensável mas raro nas escolas). Há colocações de um dia para o outro (como se a previsibilidade e a estabilidade da vida das pessoas não interessasse para nada). Há escolas a fechar. Há tudo isso, devidamente reportado por quem sabe e está no terreno. Mas o que mais há é um silêncio ensurdecedor das estruturas sindicais. Não estará tudo mal. E não estará tudo bem. E eu até poderei gostar mais deste silêncio face à cacofonia sonsa e irresponsável de outros anos. Mas este estilo zen da FENPROF é um todo um programa.

#Saladeestar
#Escritório

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Mas qual sigilo bancário?

Não sabia, digo-o ainda banzado. Juro que achava que as regras de acesso da Autoridade Tributária às contas bancárias dos contribuintes não eram desconhecidas (sigilosas até).
De repente, mesmo pessoas que julgava informadas, não sabem, não conhecem, não estudaram, as regras que regulam actualmente o acesso às contas bancárias e dissertam sobre uma realidade que não existe. Ora, para vossa surpresa (pelos vistos) eu permito-me fazer uma síntese dessas regras.
A AT (ou, como se diz coloquialmente, o Fisco) pode aceder à minha conta bancária (ou de qualquer contribuinte), sem que eu autorize, sem que eu saiba, sem que o banco possa pestanejar, sem passar por juiz algum, - repito, sem autorização, sem que o visado saiba, sem que o banco possa pestanejar, sem passar por juiz algum – nas seguintes circunstâncias corriqueiras (vou simplificar, para que ninguém tenha dúvidas):
1. Se eu não entregar a minha declaração de rendimentos, a minha declaração de IVA ou outra congénere (o que se designa de declaração legalmente exigível);
2. Se eu escolhi o regime da contabilidade organizada (frequentíssimo) ou o regime do IVA de caixa (basta a AT querer verificar a conformidade de documentos de suporte de registos contabilísticos);
3. Se eu dever à AT ou à Segurança Social (não importa que montante).
E o acesso às contas bancárias também está obviamente disponível em casos não corriqueiros como seja a da existência de indícios da prática de crime em matéria tributária, de indícios de falta de veracidade das declarações submetidas, acréscimos de património não justificado, relações com offshores, etc. E sempre sem necessidade de qualquer autorização e conhecimento do contribuinte, sem particpação de um juiz, sem oposição do banco.
Acham mesmo que é preciso mais que isto?
O veto chega é tarde.

#Saladeestar
#Escritório

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ainda não foi em Leicester

1. Só querer nos 20 minutos finais é incompreensível. E não foi só desta vez.
2. Era perfeitamente possível. Mas há uma espécie de atracção pelo fracasso na estrutura (ou na falta dela). Parece que estamos condenados. Por quem nos devia defender.
3. É humilhante perder com um golo (mais um) de Slimani. Até nisso fomos incompetentes, porque por muito bom que seja é um jogador perfeitamente anulável. Sobretudo por quem o conhece.
4. Perder 1-0 com o campeão inglês em sua casa não nos pode deitar abaixo. Mas temos de "voltar" urgentemente.
5. Talvez começar por entrar com os 11 melhores. Acabar com os passes longos sem critério. Querer ganhar do primeiro ao último minuto. Por exemplo. Ainda não foi em Leicester.

#Saladejogos

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Triste papel

Amália, Orbital ou Antena 1. São as que me calham mais em sortes. Apeteça-me ou não. Esteja ou não com a cabeça em água. Precise de ler, de trocar umas ideias ou mesmo de falar ao telefone. Por regra o som é alto (mas não é bom).
Quando, por ruas de Lisboa, lanço o braço a solicitar um táxi, não tenho ilusões. Chegarei ao destino, é certo. Mas não vai ser como gostaria. Eu até não sou muito exigente – satisfaço-me com um carro limpo, que não me acelere a transpiração no Verão, que não me enjoe com os odores clássicos de veículos descuidados, que não me impinja música de que não gosto, com decibéis que não suporto. E – talvez o mais importante – que não me eleve a pressão diplomática (desgasta-me ter de gerir a híper sensibilidade de alguém que me deveria estar a agradar). Não é sempre, mas é demasiadas vezes. Os modos e a paciência do comum taxista em Lisboa deixam tanto a desejar que me pergunto porque insisto neste modelo de serviço.
Não sou preconceituoso (ou pelo menos, juro que faço um esforço por não ser). E por isso tenho procurado perceber o que mobiliza os taxistas contra a UBER (já sei que não querem concorrência, mas esse não é bem um argumento).
Invariavelmente respondem-me sem hesitação: porque é ilegal. Ao que lhes respondo: muito bem, mas se não for, qual é o problema? Nesse momento entram em desconversa.
Eu desafio-lhes o argumentário – para os ajudar a defenderem-se com racionalidade – dizendo que tarde ou cedo a UBER vai ser legal, vai estar mais ou menos nivelada em matéria de taxas e de licenças. E nesse caso, seria bom que estivessem preparados para explicar porque razão a UBER não deve operar. É que ilegal já não vai ser, explico-lhes.
Até se gera uma conversa interessante mas acabo sempre por não conseguir chegar ao meu ponto. Sugerir que se preocupem com a qualidade do serviço, com uma condução agradável, com o ambiente respirável, com limpeza e atenção ao cliente, sem atender chamadas, com as suspensões sem parecerem panelas de pressão a cada obstáculo na estrada. Noutro dia já só tentava dizer ao motorista que me deixava à porta do hotel para na próxima «corrida» baixar um bocadinho o som estridente do fado que nos embalava o debate, ao que me respondeu: olhe, se quiser perceber porquê que a UBER não pode ir para a frente leia este papel. Segui o conselho e li. Este mesmo que aqui junto cópia. Mas não vi lá argumentos (que os deve haver). Triste papel. O meu e o propriamente dito, pensei.
PS. O Senhor Luís que não me leve a mal (até porque trabalha no Porto). E tantos colegas mais. Que têm os seus táxis sempre impecáveis. Que são pontuais, cuidadosos e sérios. É por eles que ainda tento dizer alguma coisa aos seus colegas.

#Saladeestar