sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Adicional ao IMI?


Era mesmo preferível um imposto à parte. Transparente, puro e genuinamente novo imposto. Esta coisa de enxertar no IMI um adicional ao IMI com regras próprias (em alguns casos manhosas) só serve para confundir.
Só de imaginar como será quando me pedirem para explicar a tributação sobre o património em Portugal, até fico com os cabelos em pé.
Ninguém vai perceber que temos dois IMI’s. Um propriamente dito e outro adicional. Um que é devido por quem for proprietário a 31 de Dezembro e outro por quem for proprietário a 1 de Janeiro. Um verdadeiramente municipal, outro destinado ao Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (mas que se chama na mesma «municipal»). Um dirigido a cada imóvel, outro dirigido a uma soma de imóveis mas não de todos e com várias nuances. Um pago numa, duas ou três prestações (em Abril, em Abril e Novembro, ou em Abril, Julho e Novembro) e outro pago integralmente em Setembro. Já para não falar das ligações sub-reptícias ao IRC em matéria de deduções à matéria colectável. Enfim, um mundo de tecnicidades que não se recomendam a nenhum país que se queira fiscalmente estável e acessível (quanto mais a um país que precise desesperadamente de o ser).


Mais que um adicional ao IMI teria valido a pena um adicional de bom senso!

#Escritório

Orçamento do Estado?

Cada um estará a olhar para o seu bolso e a pensar - vou pagar mais?
Rico e pobre, interessado e alheado, leigo e especialista.
Deixem-me cá ver se vos ajudo.
Ora bem, teremos meia dúzia de mexidas nos códigos mais clássicos. Suspeito que mais por preconceito que por boa política (no IRS e no IRC). E mais duas ou três por necessidade envergonhada de receita, onde pontuam o tal DESPI, sobre o património, e o curioso refrescamento do sortido de impostos indirectos. É provável que inovem qualquer coisa nas regras do procedimento e do processo (seja qual for o governo, normalmente é aí que a incompetência e a chico-espertice costumam brilhar mais). E depois teremos alguns paliativos nas pensões (mais para o chavão político que para o bolso das pessoas). É basicamente isto.
Ah, querem saber se vão pagar mais não é?
Sim, sim. Directa ou indirectamente. Como diz o povo, tão certo como a morte.

#Escritório

terça-feira, 11 de outubro de 2016

À mercê do Florêncio

As declarações ufanas, quase todas  irracionais e até cómicas dos manifestantes armados (sim, quaisquer viaturas, nas mãos daqueles senhores, são autênticas armas, como se viu), não são novidade. A novidade talvez tenha sido o despudor colectivo, galopante e sem mediação, que é próprio de quem se julga impune.

O que me fica da jornada de luta (levaram à letra essa coisa da "jornada de luta" ...) é a cobardia, a conivência e a falta de comparência da autoridade do Estado. É assustadora a ligeireza com que os manifestantes decidem sitiar o aeroporto, não cumprir o percurso acordado com as forças de segurança e fazer sua a missão de vigiar os carros da UBER.

Deixarem-nos ao abandono e à mercê desta gente é tão ou mais assustador que as declarações do Senhor Florêncio e seus indomáveis pares.

#Saladeestar

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Não há perdão

Se há coisa que não me surpreende mas que lastimo - à direita e à esquerda - é a paixão com que se critica ou defende exactamente a mesma solução quase ao mesmo tempo. Sim, exactamente a mesma solução. Defende-se ou critica-se em função do autor da proposta ser ou não ser dos "nossos".

Percebe-se o incómodo do governo a propósito do perdão fiscal agora anunciado. Ele não é senão uma medida desesperada de arrecadação de receita. Mas é assim com este perdão fiscal como foi com o seu "irmão" promovido há 3 anos pelo anterior governo. E não vale a pena perder tempo com narrativas porque não é preciso conhecer os detalhes do diploma para saber que este e o de há 3 anos são iguais no que verdadeiramente interessa (perdão de juros e de custas para quem pagar dívidas fiscais).

Há de facto uma diferença. Os críticos de ontem são os apoiantes de hoje. E vice-versa. E essa diferença é hipócrita, é circunstancial e não é tributária de qualquer nobre convicção.
Apetece-me dizer - à direita e à esquerda - que a falta de memória e de contenção verbal é feio. E para isso é que não há perdão.

Já agora, apetece-me dizer também que abomino o modo como se pretende encravar, a propósito desta medida, o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Denunciar-se que a medida beneficia a GALP é o mesmo que sugerir que ela não deveria ser geral e abstracta e que, portanto, não se deveria dirigir a todos os contribuintes. É pura dialéctica política (no mau sentido). Eu defendo (em linguagem popular e demagógica) que estas medidas devem estar ao serviço de todos, das pequenas e médias empresas, das famílias, dos grandes criadores de emprego, de quem investe. Dizer que está em causa beneficiar o grande capital, a GALP, o sogro e o irmão do Secretário de Estado é dizer a mesma coisa. Mas é também feio e também não há perdão.

#Escritório

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Guterres

Se outras razões não se impusessem, eu relevaria em António Guterres o exemplo que representa de que na política podem estar os melhores de entre os melhores, os que se dedicam a servir e que, portanto, enobrecem a vocação política. Sempre me inspirou a sua vocação humana e carismática ao serviço da causa pública.
Sinto-me orgulhoso como cidadão integrado na comunidade internacional. Antes até do orgulho por ser um nacional do meu país.
E depois uma nota pessoal. Fala-se muito - e bem - do extraordinário trabalho da diplomacia portuguesa neste processo. Eu não meço as minhas amizades ou relações familiares pelo sucesso. Mas participo, no orgulho e na vibração, dos seus sucessos. Estou inchado - basicamente era isso que queria dizer a duas pessoas: Álvaro Mendonça e Moura e Miguel Graça!

#Escritório

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Cinema Trindade - da viragem ao regresso

A ida ao cinema era um programa tão desejado quanto raro. Entre os 6 e os 15 anos sou capaz de relatar cada um desses «programões» (era assim que os vivia). Os filmes, as companhias e o gozo que guardei dessas "precárias".
A viragem – já explicarei o que é isso da viragem – deu-se numa tarde de sábado, contra todas as previsões e sem qualquer expectativa.
Vinha de uma manhã intensa e gloriosa – na idade em que a intensidade e a glória se mediam pelos golos marcados e pelas vitórias alcançadas nos vários torneios de futebol que preenchiam os meus fins-de-semana.
Por iniciativa de uma voluntariosa mãe fomos, em equipa, almoçar fora (outro programão e também raro). Éramos sete magníficos com uma tarde pela frente.
Ainda estou a ver a secção de classificados do jornal que folheámos para escolher o que fazer. E recordo-me ainda mais do destino eleito por aclamação.
Foi na rua Dr. Ricardo Jorge, no Porto, que ao início da tarde fomos triunfantemente depositados. Íamos ao cinema!
Dizer que foi especial talvez seja uma banalidade (com 10 ou 11 anos ir com sete amigos ao cinema era já de si especial). Sem imaginar o que me esperava, vi-me de bilhete na mão pronto para ir ver o "Cocktail" com o Tom Cruise e a Elisabeth Shue como protagonistas.
Lembro-me de ficarmos todos juntos numa fila perdida no meio do andar de baixo do enorme anfiteatro do icónico e repleto cinema Trindade (foi antes da transformação em duas salas). 
Naquela tarde não foi só um filme que vi. Descobri o charme e o potencial do cinema. O escuro. A intimidade. A sensação de estar lá dentro, numa espécie de osmose entre a nossa pulsão e o desenrolar do argumento.
Até então só havia experimentado filmes infantis ou de humor (vinha de ver o «Gente Gira 2» no Pedro Cem …). E se desta vez o filme não era infantil eu, infantilmente, apaixonei-me. Quer dizer, não me apaixonei. Fiquei siderado na protagonista da película (era assim que nos apaixonávamos aos 10 anos). Foi a primeira vez e a minha inocência não me advertira para a hipótese. Ao intervalo – havia sempre intervalo – estava meio sem jeito e só pensava na Elisabeth Shue e no seu sorriso sedutor para o Barman estiloso. Apesar da minha fragilidade, passou rápido, devo advertir. Mas foi suficiente para mudar as minhas idas ao cinema.

Só posso vibrar com o regresso anunciado do cinema ao Trindade - o palco da "viragem". E, já agora, de muitas mais e melhores memórias. Foi lá que vi também, por exemplo, a "Lista de Shindler" ou "O silêncio dos inocentes" - filmes incomparáveis ao banal Cocktail. Afastado que estou das idas ao cinema, devo confessar que sinto o chamamento com o regresso do Trindade. Depois da "viragem" é lá que celebrarei o "regresso".

#Saladeestar

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ZENPROF

Estamos em Outubro. Há turmas sem professores. Há professores sem turmas. Há milhares de vínculos precários. Há falta de pessoal não docente (os auxiliares são um bem indispensável mas raro nas escolas). Há colocações de um dia para o outro (como se a previsibilidade e a estabilidade da vida das pessoas não interessasse para nada). Há escolas a fechar. Há tudo isso, devidamente reportado por quem sabe e está no terreno. Mas o que mais há é um silêncio ensurdecedor das estruturas sindicais. Não estará tudo mal. E não estará tudo bem. E eu até poderei gostar mais deste silêncio face à cacofonia sonsa e irresponsável de outros anos. Mas este estilo zen da FENPROF é um todo um programa.

#Saladeestar
#Escritório