quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Desabafo

Porque me magoas? Vivo contigo há tantos anos!
Tomamos o pequeno-almoço juntos. Vivemos aqueles momentos a sós antes de me deitar. E sabes que não dispenso o teu calor.
Gosto mais de ti branca, sem adereços e simples. E eu sei que se te ignorar e não for meigo contigo até deitas fumo!
É por isso que te ligo como mereces. Com cuidado, sem violência e sem me distrair.
Chego a ser eu que te faço a higiene mais íntima e te tiro as migalhas desta vida!

Porque teimas em me queimar? Porque não deixas os meus dedos em paz, torradeira?

#Cozinha


terça-feira, 18 de outubro de 2016

De Brugges

1. Em Brugges como em Leicester. De repente, a 25 minutos do fim, começamos a jogar. Só que o Brugges não é o Leicester. Felizmente.
2. Mas o Porto não é isto. O Porto come a relva do início ao fim. Pode não jogar bem os 90 minutos. Mas quer ganhar desde o primeiro.
3. Do banco não ver o evidente gera-me imensa intranquilidade. E começam a ser vezes demais.
4. O Porto ganhar fora na Champions é um laivo de normalidade que me sabe mesmo bem..

#Saladejogos

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O orçamento da desilusão e do alívio

A esquerda e a direita (tomemos por bons estes chavões para identificar sobretudo o CDS e o PSD, de um lado, e o PS, do outro) estão mais sintonizadas do que se imagina. E nunca, como neste orçamento, essa sintonia foi tão evidente.
Desde logo a comunhão de expectativas. À direita germinava a percepção de que o Orçamento do Estado para 2017 seria o momento impossível. À esquerda, por sua vez, tinha-se consciência de que seria um exercício a raiar o impossível. Aos primeiros correspondia um sentimento de esperança e apreensão. Aos segundos também de esperança e apreensão.
Com a apresentação da proposta na passada sexta-feira, mais do que críticas ou loas de substância, o que vemos é desilusão ou alívio em face daquelas expectativas. À direita por aquele impossível afinal ter sido possível (com tudo o que isso representa). À esquerda por aquele quase impossível afinal ter sido possível (com tudo o que isso representa).

Pode parecer mas não estou a fazer nenhum jogo de palavras. Ninguém, no seu perfeito juízo, gosta deste orçamento. Ninguém, no seu perfeito juízo, faria muito melhor.
Propaganda à parte, que governo gostaria de criar um novo imposto? Que governo gostaria de adiar o fim da sobretaxa? Que governo prefere fazer aumentos e acertos simbólicos em lugar de os fazer com relevância e efectivo impacto?
O discurso do gradualismo (da direita) versus o aceleramento da devolução de rendimentos e da revogação dos cortes (da esquerda) não é substantivo nem real.
O espartilho orçamental em que nos movemos colectivamente potencia a demagogia no discurso mas não esconde o essencial – em face das exigências de que não abdicamos, e pressionados pelo imediato, não conseguimos diminuir os altos níveis de tributação vigentes (seja nos impostos directos ou indirectos, gerais ou especiais, sobre o rendimento, o património ou o consumo). A direita ontem preferia ter tido margem para não subir galopantemente o IRS. A esquerda hoje preferia ter margem para baixar o IRS que ontem subiu. A direita ontem e a esquerda hoje preferiam não ter de recorrer a regimes especiais de regularização de dívidas para arrecadar desesperadamente receita. E a gestão mais apertada da despesa do Estado – as famosas cativações – não são um exclusivo de nenhum dos lados e não emanam de qualquer convicção ideológica (e estou convencido que é um desporto mais praticado à esquerda, por muita paixão e amor que esta coloque no discurso sobre o estado social e os serviços públicos).


Claro que há questões técnicas dispensáveis e mesmo condenáveis na proposta de orçamento (a começar pelo atabalhoado adicional ao IMI). Claro que há opções simbólicas de governação (o modo como se encaram as escolas com contratos com o Estado). Claro que há opções com consequências (o caso da TAP e da gestão dos transportes públicos talvez seja o mais paradigmático). O problema, todavia, é que para lá do discurso não sabemos bem se poderia ser substancialmente diferente. E se pensávamos que por causa da esquerda do PS este não conseguiria – daí a apreensão que pairava – agora estamos reduzidos, sem convicção para lá dos slogans, à desilusão de uns e ao alívio de outros. Chega a ser infantil. Mas este é mesmo o orçamento da desilusão e do alívio.

#Escritório

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Adicional ao IMI?


Era mesmo preferível um imposto à parte. Transparente, puro e genuinamente novo imposto. Esta coisa de enxertar no IMI um adicional ao IMI com regras próprias (em alguns casos manhosas) só serve para confundir.
Só de imaginar como será quando me pedirem para explicar a tributação sobre o património em Portugal, até fico com os cabelos em pé.
Ninguém vai perceber que temos dois IMI’s. Um propriamente dito e outro adicional. Um que é devido por quem for proprietário a 31 de Dezembro e outro por quem for proprietário a 1 de Janeiro. Um verdadeiramente municipal, outro destinado ao Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (mas que se chama na mesma «municipal»). Um dirigido a cada imóvel, outro dirigido a uma soma de imóveis mas não de todos e com várias nuances. Um pago numa, duas ou três prestações (em Abril, em Abril e Novembro, ou em Abril, Julho e Novembro) e outro pago integralmente em Setembro. Já para não falar das ligações sub-reptícias ao IRC em matéria de deduções à matéria colectável. Enfim, um mundo de tecnicidades que não se recomendam a nenhum país que se queira fiscalmente estável e acessível (quanto mais a um país que precise desesperadamente de o ser).


Mais que um adicional ao IMI teria valido a pena um adicional de bom senso!

#Escritório

Orçamento do Estado?

Cada um estará a olhar para o seu bolso e a pensar - vou pagar mais?
Rico e pobre, interessado e alheado, leigo e especialista.
Deixem-me cá ver se vos ajudo.
Ora bem, teremos meia dúzia de mexidas nos códigos mais clássicos. Suspeito que mais por preconceito que por boa política (no IRS e no IRC). E mais duas ou três por necessidade envergonhada de receita, onde pontuam o tal DESPI, sobre o património, e o curioso refrescamento do sortido de impostos indirectos. É provável que inovem qualquer coisa nas regras do procedimento e do processo (seja qual for o governo, normalmente é aí que a incompetência e a chico-espertice costumam brilhar mais). E depois teremos alguns paliativos nas pensões (mais para o chavão político que para o bolso das pessoas). É basicamente isto.
Ah, querem saber se vão pagar mais não é?
Sim, sim. Directa ou indirectamente. Como diz o povo, tão certo como a morte.

#Escritório

terça-feira, 11 de outubro de 2016

À mercê do Florêncio

As declarações ufanas, quase todas  irracionais e até cómicas dos manifestantes armados (sim, quaisquer viaturas, nas mãos daqueles senhores, são autênticas armas, como se viu), não são novidade. A novidade talvez tenha sido o despudor colectivo, galopante e sem mediação, que é próprio de quem se julga impune.

O que me fica da jornada de luta (levaram à letra essa coisa da "jornada de luta" ...) é a cobardia, a conivência e a falta de comparência da autoridade do Estado. É assustadora a ligeireza com que os manifestantes decidem sitiar o aeroporto, não cumprir o percurso acordado com as forças de segurança e fazer sua a missão de vigiar os carros da UBER.

Deixarem-nos ao abandono e à mercê desta gente é tão ou mais assustador que as declarações do Senhor Florêncio e seus indomáveis pares.

#Saladeestar

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Não há perdão

Se há coisa que não me surpreende mas que lastimo - à direita e à esquerda - é a paixão com que se critica ou defende exactamente a mesma solução quase ao mesmo tempo. Sim, exactamente a mesma solução. Defende-se ou critica-se em função do autor da proposta ser ou não ser dos "nossos".

Percebe-se o incómodo do governo a propósito do perdão fiscal agora anunciado. Ele não é senão uma medida desesperada de arrecadação de receita. Mas é assim com este perdão fiscal como foi com o seu "irmão" promovido há 3 anos pelo anterior governo. E não vale a pena perder tempo com narrativas porque não é preciso conhecer os detalhes do diploma para saber que este e o de há 3 anos são iguais no que verdadeiramente interessa (perdão de juros e de custas para quem pagar dívidas fiscais).

Há de facto uma diferença. Os críticos de ontem são os apoiantes de hoje. E vice-versa. E essa diferença é hipócrita, é circunstancial e não é tributária de qualquer nobre convicção.
Apetece-me dizer - à direita e à esquerda - que a falta de memória e de contenção verbal é feio. E para isso é que não há perdão.

Já agora, apetece-me dizer também que abomino o modo como se pretende encravar, a propósito desta medida, o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Denunciar-se que a medida beneficia a GALP é o mesmo que sugerir que ela não deveria ser geral e abstracta e que, portanto, não se deveria dirigir a todos os contribuintes. É pura dialéctica política (no mau sentido). Eu defendo (em linguagem popular e demagógica) que estas medidas devem estar ao serviço de todos, das pequenas e médias empresas, das famílias, dos grandes criadores de emprego, de quem investe. Dizer que está em causa beneficiar o grande capital, a GALP, o sogro e o irmão do Secretário de Estado é dizer a mesma coisa. Mas é também feio e também não há perdão.

#Escritório