segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Mudanças

- Do corpo ou da carteira?
- Dos dois. Saiu dos dois. Mais do primeiro do que da segunda, num equilíbrio sempre difícil. Até porque ambos são limitados!
- Olha, mas até correu bem?
- Sim. Crianças mais ou menos à distância. E uma chuvinha amiga para patinar a entrada da casa nova …
- Isso da chuva, por acaso, foi azar.
- É. Isso e as louças. Fazes ideia o que pesam as louças? A quantidade que se acumula de louças? O tempo que demora a arrumar as louças? A chuva é o menos…
- E os copos?
- Não me fales dos copos. Nem das roupas. Nem dos sapatos.
- E os livros?
- Cala-te.

#Saladeestar

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Os muros

Não gosto de muros. Não consigo apoiar muros.
Mas eles já aí estão há anos. Nos mesmos sítios. Pelas mesmas razões. Sem choro nem ranger de dentes.
Pelas mãos de líderes incensados.
Ao menos que a aversão ao Trump sirva para denunciar os muros desta vida.
Mas não lhe dêem o gosto de dizer que foi ele que começou (ele até gostaria da medalha, mas não é verdade).


#Escritório

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Relação difícil

Temos uma relação difícil.
Quando apareceste não te liguei nenhuma. Sim, porque eu só queria mesmo ligar. Resisti uns tempos até termos a nossa primeira experiência. Podia não ter sido assim, mas gostei logo. E tanto gostei que rapidamente me conquistaste.
Gostava daquele jogo de toques sintonizados e sensíveis. Chegava a sorrir quando me lançavas a sugestão que eu procurava (tinha a sensação que a reservavas para a última hipótese, num jogo de suspense e de gozo).
Os tempos passaram e tu própria também mudaste. Percebes o que quero mais cedo. Respondes ao mais pequeno e subtil toque. Dispensas bem a agressividade de outrora (que também já me cansava, confesso).
Mas não penses – tenho que te dizer isto – que está tudo bem.
Já me fizeste passar vergonhas. Resistes demasiadas vezes ao que te digo e corriges-me com propostas absurdas (não percebo essa teimosia de não aceitares o que me vai na alma).
Imagino que qualquer analfabeto morra de amores por ti e se entregue à tua tirania.
Imagino que sirvas de bode expiatório para muitos que não se assumem nos seus próprios erros.
Eu prefiro arcar com os meus. Escusas de te meter. Escusas de me corrigir.
Se é apara ajudares, tudo bem. Mas a continuarem as coisas assim acaba já aqui a nossa relação.
É que é cada uma? Ontem, por exemplo, era «Bjork» em vez de «Bj»…
Ando tentado a desactivar a «escrita inteligente» do telemóvel.

#Saladeestar

Os grandes negócios. Dos outros.

- Carro novo?
- Nem imaginas. Foi uma oportunidade única. Full extras, mega desconto e ainda pagaram mais pelo meu carro na retoma.
- Que grande negócio. Que sorte.
- Casa nova?
- Nem imaginas. Foi uma oportunidade única. Soalho de castanho, capoto e aquecimento central. E consegui vender a minha casa antiga em 15 dias pelo preço que queria.
- Que grande negócio. Que sorte.
- Que bronze, foste de férias?
- Nem imaginas. Foi uma oportunidade única. Viagem de avião, hotel 5 estrelas com praia paradisíaca exclusiva e tudo incluído. E por metade do preço!
- Que grande negócio. Que sorte.
- E esse casaco? E esses sapatos? E esses óculos escuros? E tudo em ti?
- Nem imaginas...
- Já sei. Foi uma oportunidade única. Que grandes negócios. Que sorte.
Deve ser inabilidade minha. Cada vez que compro um carro, uma casa, uma viagem, qualquer peça de roupa. Confirmo sempre.
É que me sinto cercado. Pelas oportunidades únicas. Pelos grandes negócios. Dos outros.

#Saladeestar

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

De regresso ao Cinema Batalha

Corria o ano de 2006. Era uma noite fria, como são frias as noites de Novembro. Combinámos os três, como tantas vezes o fizemos. Eu cuidei de avisar do programa e dos bilhetes. Cada um tratou da sua vida em casa.
De repente (tive esse acesso interior) dei por mim, com as minhas irmãs, a entrar no Cinema Batalha para ir ver o Loyd Cole.
Pode parecer estranho, mas estava muito perto de ser um programa de sonho. Nós os três (os três mais velhos, como diriam os nossos pais quando eramos miúdos). A ver o Loyd Cole (som que nos acompanhou na idade das importâncias e dos protestos). No cinema Batalha no Porto (num espaço icónico da nossa cidade). Parece simples. E é. Parece fácil. Mas não é.
Talvez pairasse entre nós um certo sabor a vingança de adolescência (no nosso tempo, nas nossas circunstâncias, era o género de programa que não conseguíamos fazer). E foi mesmo confortável (sim, confortável – porque foi bom e me deixou confortado).
Parece que o Cinema Batalha vai reabrir. Fico contente. Mas eu hoje já lá «regressei». E voltou a ser confortável.

#Saladeestar

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Impressões destes dias

1. Não somos especialmente experimentados em velórios de Estado (o que tem mais de positivo do que de negativo). Há uma indefinição (ou mesmo tensão) permanente entre o formal e o informal, entre o reservado e o popular, entre a ordem e a espontaneidade. Mas se não fosse assim não éramos nós.
2. Eu não escolhia os Jerónimos. Fazia muito mais sentido na Assembleia da República. O líder e fundador do partido mais votado nas primeiras eleições livres, aquele que foi pela primeira vez primeiro-ministro com base em eleições livres, pluralistas e democráticas, um ex-chefe de Estado eleito. Um deputado constituinte. Tudo medido, era na casa da democracia que devia ser velado.
3. Há qualquer coisa de fatal nestes eventos mediáticos. Uma delas é a certeza dos directos divididos entre repórteres já sem ar e sem assunto e que recorrem aos crónicos populares de braços pousados no gradeamento de segurança. Outra, entre perguntas e respostas, é a pobreza confrangedora do diálogo em directo.
4. Imagino a importância de uma visita de Estado à Índia para um país como Portugal, e imagino, portanto, o que representaria «perder» este slot na Índia (não é esse o meu ponto). O que +e pouco democrático é só assitir a alguns o direito de opção (da opção certa, dirão).
5. Não há nenhuma contradição em ter passado uma vida inteira a criticar Mário Soares e agora reservar-lhe palavras de reconhecimento e agradecimento. É que uma coisa é o combate político, democrático e plural. Outra, anterior e mais importante, é a definição do regime que nos há-de permitir, justamente, aquele combate político livre, democrático e plural.
6. No fim do dia fica-nos a divisão de sempre. Mais exposta e por vezes primária. Mas a de sempre. Entre os que olham a liberdade como um acessório instrumental - e quem diz a liberdade diz a democracia. E os que não dispensam nem a liberdade nem a democracia. É essa a divisão. À direita e à esquerda. Mais do que entre a direita e a esquerda.

#Saladeestar
#Escritório

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Prof. Daniel Serrão


Tinha a maior das invejas do Prof. Daniel Serrão. Digo inveja porque é mais forte que admiração. E porque dizer «inveja» impressiona mais que «admiração».
Mas digo «inveja» porque o Prof. Daniel Serrão foi muito do que eu gostava de ser «quando for grande» e que, sei bem, nunca conseguirei.
Tinha a bonomia dos justos. A serenidade dos sábios. A abertura dos inteligentes. O reconhecimento dos eleitos.
Não lhe sobraram temas, disputas e adversários difíceis e exigentes. E nem sempre alinhou com os mesmos. No entanto – é aqui que se funda a minha inveja – exibiu invariavelmente uma enorme, invulgar e quase rara capacidade de preservar o respeito, a simpatia e, no fundo, a ligação aos que se encontravam do outro lado. Era um homem que «fazia pontes» sem ser um consensualista e preservando-se na sua integridade. Eu admiro esta capacidade. Desculpem, invejo.


PS. A sua dimensão merecia uma despedida em «prime time». As circunstâncias, ao não o permitirem, emprestaram uma certa serenidade à sua despedida. Também não está mal.

#Jardim