quarta-feira, 12 de abril de 2017

Gerações

Eu gostava de dizer – ou de deixar dito – que neste jogo de gerações rascas, em que as anteriores tanto gostam de exibir a sua superioridade comportamental sobre as seguintes (caso para perguntar com quem terão aprendido?), fujo o mais que posso do teatro de indignados.

Não tenho quaisquer ilusões. No meu tempo (o que dói assumir a expressão «no meu tempo»!) éramos capazes disto tudo. Não éramos nem melhores nem piores que os de hoje. E suspeito que dos que nos precederam.

Não é desculpa para os de hoje. Nem para os de ontem, já agora. O que está mal hoje estava mal ontem (que fique claro). Mas não vale esse argumento do «no meu tempo não era assim». Porque era. Há várias gerações que, se estivermos a jeito, sabemos ser selvagens.


PS. Não estou aqui a tratar de outras questões. Como a facilidade e quase incitamento. A ausência de censura ou desculpabilização. E a cultura de impunidade. Aí até pode haver diferenças. Mas não são boas. Especialmente para a geração dos indignados.

#Saladeestar

terça-feira, 11 de abril de 2017

Semana Santa?

Porque não temos aulas, pensarão os alunos.
Porque estamos de férias, pensarão os que se banham pelos Algarves, pelo campo ou por esse mundo, em viagens justas e retemperadoras.
Sim. E não. Sim, porque uma semana dessas é santa por natureza. Mas não, esta não se diz Santa por causa disso.
O mistério desta semana – que persiste na tradição de quase todos e na devoção de muitos ainda – é esse evento inexplicável e incrível do próprio Deus, feito homem, se entregar por amor em nosso resgate. Sem paliativos. Sem loas. Na mais absoluta e humilhante doação.
E depois – bem depois – já sabem (sabemos todos). A vitória sobre a morte que dá «razão» à nossa fé.
Entre o maravilhoso sol e o calor deste ano que a semana seja (também) Santa para todos!

#Jardim

quinta-feira, 6 de abril de 2017

E nós, o que dizemos?

Cada vez é-me mais difícil. Não perder a sensibilidade, por um lado. Não me indignar, ainda do mesmo lado. E conseguir perceber o que motiva e o que explica a barbárie orquestrada, por outro.
É verdade e compreensível que nos correm mais facilmente as lágrimas quando as vidas tombam à nossa porta ainda que em números menos impressionantes (em Londres, em Paris, em Nice, em São Petersburgo, e por aí fora). Lá longe, nesses Iraques, Líbias e Sírias que não conhecemos e que se confundem na nossa geografia ignorante, a torrente de atentados, de ataques, de desgraças e desastres é de tal ordem que quase os enxotamos para um canto remoto das nossas preocupações rumo à indiferença e banalização.
Apesar de tudo, a força das imagens, os testemunhos de amigos e conhecidos que não comungam da nossa ignorância e dão o corpo ao manifesto (Gustavo CaronaTiago Filipe V. CardosoMariana VaretaIrene Guia, que não vos doam os dedos e não vos falte a coragem!), mantêm-nos ligados, qual velinha que resiste acesa. E a eles vamos devendo a comoção que ainda sentimos.
Mas não basta, é miseravelmente escasso e é sobretudo inconsequente.
Desta vez, o cenário de morte, de dor, de desumanidade, provocado por mais um ataque químico indiscriminado, volta a sobressaltar a minha consciência. É insuportável ver o sofrimento daquelas pessoas (e então das crianças indefesas …).
Infelizmente, não me surpreende a capacidade diabólica que os homens têm de perpetrar sofrimentos e danos em grande escala. Há um instinto de desumanidade na natureza humana que não é exclusiva do nosso tempo e está provada à saciedade.
Sobram sempre os apelos à comunidade internacional (aos Estados, à ONU, à UNICEF, e por aí fora). O problema é que estes apelos difusos a entidades desfulanizadas não servem e desresponsabilizam. Há uma dimensão pessoal que continuamos a não assumir.
A cada um de nós cabe, em primeiro lugar, controlar o instinto de indiferença. Depois, assumir a causa dos direitos humanos (refiro-me à paz, à liberdade, à vida, aos direitos mais elementares, e não aos ocidentais e florais que só servem para distrair). E depois, ainda, fazer sentir em casa (nas nossas comunidades, nas nossas associações, nos partidos em que militamos, nos programas políticos que apoiamos, nos orçamentos que aplaudimos) que os direitos humanos à escala global são uma prioridade. Eu não sei o que os nossos partidos, os nossos governos, os nossos orçamentos, dizem sobre estas crises e necessidades da condição humana. Em 2015, em plena crise dos refugiados, nada diziam (que eu fui ver). Hoje suspeito que se mantém o silêncio. O que diz muito de nós. Ou pouco.


#Saladeestar
#Escritório
#Jardim

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Não sei como se diz um abraço em russo

Tenho um carinho especial por São Petersburgo. Por entre aqueles majestosos palácios, monumentos, jardins, estações de metro, museus, catedrais, avenidas e becos, sente-se a intensidade da história como em poucos lugares.
Da literatura à arquitectura. Do Ballet à pintura. Da resistência, à tensão política e religiosa. Da amargura à arrogância até. E sempre pela medida grande, com uma sumptuosidade que quase abafa.
Na expressão do vulgar vendedor de jornais, no espalhafato dos noivos que se passeiam em limousines insufladas, na dureza e mesmo exigência das distâncias. Em São Petersburgo prevalece o autêntico, com toda a naturalidade (quase a tocar a agressividade). Chega a ser revelador o regresso ao seu nome de sempre.
Talvez outros lugares (seguramente que sim) tenham sido mais marcados pela história. Mas não sei se algum a conserva tão respirável e marcada.
Há qualquer coisa de São Petersburgo no meu Porto. Ou de Porto em São Petersburgo. Também por isso senti mais o terrível atentado desta semana. Um abraço para lá.

#Saladeestar
#Escritório

Sem sinal

Não tenho estado muito atento. Nem sequer estou em Portugal. E vou tendo rede e dados no telemóvel com alguma intermitência.
Refém da mesma Inbox e das páginas de internet outrora consultadas (que ficam congeladas até ao próximo "sinal"), vou perdendo o interesse e a esperança. A da novidade seguramente.
Se antes me serviam notícias da Caixa, agora servem do Montepio. Se antes era o Carlos Santos Silva e o Sócrates, agora é o Zeinal e o Granadeiro. Onde estavam as boutades sobre o populismo em França, agora estão os lugares comuns do Brexit. Até a praga dos recordes anda à solta (com o défice do orçamento a querer rivalizar com os golos do Ronaldo). E claro os não assuntos de primeira página. Desta vez é o busto, depois de ter sido a besta (esse, o holandês).
O que é que eu acho? Nada. Ou por outra, é sinal de que está tudo na mesma. Digo eu, que estou sem sinal.

#Saladeestar

terça-feira, 21 de março de 2017

Há sempre a poesia

Dizem que não há
Palavras para a gratidão
Daquela que embarga
Sufoca o coração

Dizem que não há
Expressão escrita ou falada
Sentimentos profundos
Alma calada

Dizem que não há
Como dizer o amor
Tristeza mais dura
Suspensa na dor

Dizem que não há
Não haverá nem havia!
Gente sem credo
Há sempre a poesia!

#Escritório

segunda-feira, 20 de março de 2017

O da perdigota

Nomes para tudo e mais alguma coisa. De praças a pracetas, de ruas a avenidas. Às vezes engraçados, outras absolutamente convencionais. O que não faltam são nomes.
Já por uma ocasião (gosto mais de dizer «uma ocasião» em lugar de «uma vez») dei nota da minha reacção quase epidérmica à afronta que é insistirem em impor-nos nomes oficiais a lugares que tiveram, têm e sempre terão os seus nomes consagrados (alguém chama rotunda AEP à dos Produtos Estrela, ou Praça Mouzinho de Albuquerque à Rotunda da Boavista, ou Gomes Teixeira à Praça dos Leões?). Adiante.
Ando há uns tempos a estudar o conflito latente entre o departamento de toponímia e o departamento de esculturas urbanas.
Cá pelo Porto a disputa espalha-se por toda a cidade e chega a ser caricata.
Ai aqui é a Praça do General Humberto Delgado (para mim é simplesmente parte de cima dos Aliados…)? Então toma lá com uma estátua de Almeida Garrett mesmo no meio!
Largo D. João III? Olha ficava mesmo bem uma estátua do Afonso de Albuquerque (faz de conta que eram amigos).
E esse clássico da estátua do Garcia da Orta (sem H!)? Não, não se chama Praça Garcia da Orta. É antes Largo Tomé Pires … até é parecido…
Gosto é daquela na Rotunda do Castelo do Queijo, perdão da Praça Gonçalves Zarco (sabiam?). É que nem Queijo nem Zarco. Bem, bem é um cavalo com o D. João VI!
Mas o jogo do rato e do gato continua. No Jardim João Chagas (ide pesquisar onde é) bem que podem procurar uma estátua ou busto do dito que não encontram. Mas por lá jazem o António Nobre e o Ramalho Ortigão!
E na Praça da Batalha, com o D. Pedro V? Ou na Rua D. Carlos, no Passeio Alegre, o monumento ao Raúl Brandão? Ou ainda o Júlio Dinis no Largo Prof. Abel Salazar? E olhem que não faltam mais exemplos!
Meus amigos, vai para aí uma confusão dos diabos, sem regra nem freio!
E o mais extraordinário é que não havia necessidade disto. O D. João VI podia estar na rua com o mesmo nome. O Júlio Dinis também. O Garcia da Orta (sem H!). O Afonso de Albuquerque. E por aí fora.
Eu se fosse edil cá do burgo alinhava na brincadeira. Mandava construir um grande Largo. E plantava lá uma enorme bota. Ah, o nome do Largo? Isso. O da perdigota.

#Saladeestar