segunda-feira, 8 de maio de 2017

Eleições em França (I)

O facto da noite foi obviamente a vitória de Macron por uns inequívocos 66%. Mas há mais factos a destacar.
Nos dias que passam não é bem suposto ganhar – quanto mais com forte adesão popular – escolhendo falar da Europa e para a Europa.
Nos dias que passam, em que a juventude se arrasta até aos 40 anos (por muito absurdo que seja), a vitória de um jovem num velho Estado é também uma oportunidade e uma inspiração.
Nos dias que passam, ser magnânimo perante os que não se identificam é essencial, mas nem sempre se sente essa lucidez. Falar para esses desavindos e sentir a preocupação em resgatá-los é, do meu ponto de vista, o ponto mais essencial do discurso de vitória.
Nos dias que passam até o «b» «a» «ba» merece sublinhado. Foi bom ouvir falar de humanismo, de liberdades, de justiça e, até, de ecologia.
Belo discurso o de Macron. E que bem que ficaram aquelas bandeiras tricolores ao vento e ao som do Hino da Alegria.
Nos dias que passam, foram felizes os sinais.


#Escritório

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Vídeo árbitro

É certo que não é bem um segredo e muito menos é novidade. Mas eu gosto muito de futebol. E gosto imenso do meu clube (segredo ainda menos bem guardado). Dirão que gosto excessivamente. Eu respondo que não sei «gostar» sem me entregar.

Ora, eu alimento esta minha paixão pelo futebol e pelo meu clube da rivalidade com os demais clubes, naturalmente, e da tensão à volta dos jogos, dos jogadores, das jogadas, dos golos, das celebrações e das desilusões. Tudo banalidades, dirão.

Esta servidão que o futebol me impõe, tem, todavia, um lado menos bom, que não consigo evitar tanto quanto gostaria e que chega a prejudicar a minha «capacidade de gostar», quase recomendando-me ao afastamento. No fundo, as discussões à volta dos erros, dos penaltis e foras de jogo, das agressões e insultos, e dos próprios programas de debate (imagine-se!), deixou de me interessar e, portanto, tem afectado gravemente aquela minha entrega ao futebol e ao meu clube. Eu, que era caninamente fiel ao «domingo desportivo», ao «trio de ataque», ao «remate», e tantos outros, perdi a vontade. Não vejo um único programa de comentário e debate sobre futebol. E sei bem que isso quer dizer que estou afastado da televisão convencional aos domingos, às segundas, às terças e às quartas. E suponho que, como eu, tantos mais que comungam de igual paixão (não necessariamente pelo mesmo clube).

É a esta luz que me anima o anúncio do vídeo-árbitro já na próxima época. Não há-de ser a panaceia para a indigência do debate desportivo que nos sufoca actualmente. Mas contribuirá, seguramente, para afastar algum do ruído e devolver a confiança que tanta falta faz ao nosso futebol.

#Saladejogos

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Eu sei

Ontem dei por mim a pensar que bom seria que chovesse (no pedaço de terra lá de casa, ando a ver se medram meia dúzia de plantas).
Já hoje dei por mim a zurzir com a chatice da queima que aí vem, mais a sua barulheira e as lombas na circunvalação.
A natureza tem-me poupado aos cabelos brancos (em quantidade que se veja, pelo menos). Mas em interesses e pensamentos já me começam a sobrar «cabelos brancos». Estou a ficar velho. Eu sei.

#Saladeestar

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Os importantes


Há um fenómeno frequente que me abespinhava (e agora já só me diverte de tão certo) nos seminários, conferências e apresentações. Como é da praxe, estes eventos anunciam orgulhosamente uma figura de proa, mais chamativa, a quem a organização entrega, por regra, ou a sessão inaugural ou a sessão de encerramento (são aqueles que no anúncio costumam ter um asterisco «a confirmar»). Tanto pode ser um ministro, como um secretário de estado (ou ex-ministro, ou ex-secretário de estado), ou um Presidente de qualquer coisa. Tem é de ser alguém que é mais conhecido ou, pelo menos, tem um lugar de prestígio (tenha ou não, seja ou não, é essa a presunção).
O discurso é sempre o mesmo. Sempre. Repito, sempre.
Na sessão inaugural, o dito senhor ou senhora começa com os agradecimentos, os elogios à organização, louva a oportunidade do tema, lamenta não poder ficar (tem mesmo pena, é sentido) e ausenta-se porque tem sempre (sempre!) um compromisso inadiável. Por vezes, com muita pena (diz o próprio) nem sequer é possível esperar pelo fim do painel inaugural (e do púlpito vai directo para o compromisso inadiável algures no mundo dos importantes). Quando a conferência é no Porto a retirada é quase sempre explicada com um «tenho que sair, vou agora para Lisboa».
Quando a cena se passa na sessão de encerramento, por sua vez, voltamos a ter os agradecimentos, os elogios à organização e o louvor à oportunidade do tema, e voltamos a ter o lamento por não ter podido estar presente porque teve «um compromisso inadiável». E quando a conferência é no Porto a chegada em cima da hora (quando não atrasada) é explicada com um «vim agora de Lisboa».
Há pessoas que são mesmo importantes …

#Saladeestar

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A ver se nos entendemos

1. O meu post de ontem – em que defendo que algumas raças de cães (deixo aos entendidos quais deverão ser) não podem ser admitidas como animais domésticos e de estimação pelo genético potencial violento – gerou imensos comentários de discordância (ver aqui). Não é pela discordância que regresso ao tema. É mesmo por achar que vai por aí uma enorme confusão. E porque – terei de o dizer – não apreciei especialmente o tom adoptado por alguns dos meus amigos.
2. Não confundam: eu não estou a fazer nenhuma crítica aos cães (não lhes posso conceder, em substituição da natureza, essa capacidade de imputação de culpa), estou simplesmente a socorrer-me de um dado da natureza (o seu reconhecido potencial de instinto violento) que, do meu ponto de vista, e demonstradamente, recomenda a dita proibição.
3. O argumento mais usado pelos que discordam de mim é muito baseado na ideia de que os animais (estes cães de determinadas raças) não são naturalmente violentos, emanando essa violência (quando revelada) dos seus donos e da «educação» que estes lhes destinam. No fundo, o argumento é o de que só haverá cães violentos se os donos forem violentos ou os instigarem à violência. Este argumento, de tantas vezes contrariado na prática, custa-me ter de enfrentar. O Afonso Botelho Vieira até teve o cuidado de dar o seu testemunho pessoal, relatando o episódio de violência que viveu com um dos seus cães, ao qual havia dedicado o mesmo carinho e educação que a outros cães de que era proprietário e com os quais não teve qualquer problema semelhante. Ora bem, os meus amigos estão a sugerir que o ataque de que o Afonso foi vítima se ficou a dever à violência do próprio Afonso? Não admitem que possa não ter essa origem e que o seu cão, num impulso natural de instinto, se lançou num violento ataque sem explicação? Ou por outra, não admitem a hipótese da explicação estar na natureza do próprio cão (essa sim, eu não discuto e, por isso, recomendo que se actue em conformidade)?
4. Eu, em certa medida, antecipei que não resistissem à comparação entre os homens e os animais (retoricamente, sugeri que me poupassem à típica frase feita). Lamento não ter sido atendido. Mas lamento mais que insistam na comparação. A dignidade do Homem, por muito desprezível que este seja, não permite esse nivelamento em que os meus amigos embarcam. Não faz qualquer sentido (e não quero ser paternalista ao ponto de explicar porquê). Mas, curiosamente, os que se lançam no exercício de comparação com os homens são, por regra, os que me lançam a crítica por querer comparar os cães de raça violenta com alguns animais selvagens. Mas eu esclareço: eu não disse que são animais selvagens (calculo que usem a expressão em sentido técnico). Sugeri – ou afirmei – que comungam de muitas das características desses animais violentos. O que está demonstrado. E, por muito que queiram ignorar, essa violência é, frequentemente, independente dos donos (que, como os meus amigos, podem ser umas jóias de pessoas) e, obviamente, é independente da culpa que os animais não têm porque não podem ter.
5. Eu não levo a mal algumas das acusações que me fizeram. Conheço os seus autores e sei da sua boa fé, recta intenção e, portanto, não atendo ao sentido literal de algumas das palavras que escolheram. Mas dispenso – não o deixo de dizer – que me acusem de egoísta, de baixar o nível para o gajo de bairro (até pode ser elogioso, depende do bairro). Primeiro porque não são bem argumentos. E depois porque não é verdade. Egoísta? Mas egoísta porquê? Baixar o nível? Como assim?

#Saladeestar

quarta-feira, 26 de abril de 2017

É da natureza

Eu se quisesse ter em casa e até passear na rua com um tigre ou um leão não podia. Pouco adiantaria argumentar que aquele animal, em concreto, não tinha qualquer episódio de violência, era dócil com todos e que estava muito bem domado. Fosse com ou sem trela. Com ou sem açaime. Não podia, e muito bem!
Há raças de cães que são autênticos leões ou tigres em potência. Por muito doces que nos pareçam. Por muito bem domados que estejam. Por nenhuns episódios de violência que tenham registado. E como é assim – é da natureza! – deviam ser proibidos como animais domésticos e de estimação. Ponto.
Nem percebo as hesitações, os argumentos e o latim com justificações, até porque não tem nada a ver com a defesa dos animais (eu que acho o tigre um belo animal e uma espécie que deve ser protegida).
PS.1. Um cão de raça com potencial reconhecidamente violento, por acção directa, atacou uma criança de 4 anos deixando-a às portas da morte. As autoridades colocaram o animal na dita «quarentena». Se fosse com o vosso filho de 4 anos (façam o exercício) ...
PS. 2. Poupem-me à frase feita de que há homens que são piores que muitos animais. Não é bem um argumento. A sério.

#Saladeestar

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Parecidos

A não declaração de apoio do candidato do Bloco e do Podemos francês - o senhor Melanchon - a qualquer dos candidatos que passaram à segunda volta é todo um eloquente programa.
Reparem no argumento. Quer ouvir os seus apoiantes. Entre Le Pen e Macron, ele bem sabe que não é nada óbvio quem os seus apoiantes preferem.
Tão queridos e tão parecidos. Lá como cá.

#Escritório