terça-feira, 23 de maio de 2017

Eu queria agradecer a minha manhã

E quando acordas, ainda cheio de sono, olhas para o relógio e … faltam 2 minutos para o despertador tocar?
E quando estás cheio de pressa, enfias a pastilha na máquina de café, carregas no botão, saem duas pingas porque o depósito está sem água e a máquina demora uma eternidade a voltar a funcionar?
E quando, depois de esperares pelo elevador que nunca mais chega, lá entras e distraidamente carregas no botão de um andar muito antes do teu para logo te esqueceres do lapso e saíres no andar errado deixando o elevador fugir?

E quando abres as notícias e percebes que só tens é que agradecer? O despertador, ou lá o que é, a máquina de café, o elevador e a tua vidinha banal que é um privilégio que te caiu no colo sem mereceres?
Agradece, mas é.

#Saladeestar
#jardim

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Quando for grande quero ser ...

Eu acho que nunca disse isto. Pelo menos nunca o disse assim.
Mas sempre o senti.
Desde os meus 8 ou 9 anos. Quando talvez não soubesse bem o que era. Mas era o que eu queria ser. E talvez já fosse, em certa medida.
Sim. Fui poupado às crises vocacionais. As dúvidas – quem não as teve? – puderam prosperar por outros domínios da vida que não o da vocação.
Na inteligência a que obriga, no desafio permanente que constitui, na tensão das dores alheias feitas próprias. No desencanto de um insucesso e na alegria de uma vitória. E sobretudo – muito sobretudo – na liberdade feita missão.
Continuo a alimentar a ambição. Quando for grande quero ser Advogado.

#Saladeestar

quarta-feira, 17 de maio de 2017

No meu tempo

Ainda bem que somos poupados - os nossos filhos nem imaginam - ao confronto embaraçoso com o exercício de imitação dos nossos pais naquelas precisas manias que mais mexiam com o nosso sistema nervoso. Especialmente a mania da recuperação permanente (e até emocionalmente sufocante) do passado duro e exigente que haviam vivido.
«No meu tempo tomávamos banho de água fria!».
«No meu tempo recebíamos um par de meias no Natal e não protestávamos!»
«No meu tempo éramos repreendidos na escola com a menina dos 5 olhos» (esta é só para quem sabe).

Quase sem darmos por ela, agora somos nós a abusar da muleta «no meu tempo» para forçar os nossos filhos a sentirem-se agradecidos com o que têm e a deixarem-se de protestos birrentos.

Então quando se trata de dar de comer às criancinhas é irritantemente inevitável: «no meu tempo não comíamos iogurtes todos os dias nem os tínhamos disponíveis ao sabor de cada ida ao frigorífico!» (no nosso tempo, em boa verdade, os que tínhamos eram quase sempre daqueles artesanais – já agora, ainda haverá dessas máquinas de fazer iogurtes?). «No meu tempo não tínhamos Cerelac em casa porque era muito caro!» (das coisas boas quando ficava doente era o mimo de uma Cerelac só para mim!). Ou então uma mais geral a empurrar a pressão emocional para os avós: «no meu tempo, ai de mim se não comesse a sopa! Ficava logo de castigo!».

Lá em casa, por exemplo, os miúdos ficam muito impressionados quando lhes lembro que «no meu tempo» só tínhamos dois canais, não podíamos escolher nem quando nem quais os bonecos (continuo a chamar bonecos aos desenhos animados) que íamos ver.
E por falar em televisão está a ser urgente um pequeno reforço deste discurso. É que é bom que os meus filhos saibam que ainda guardo o trauma da humilhação da Dora com o «Não sejas mau para mim».

Ganhar Europeus e Festivais da Eurovisão? No meu tempo não era nada assim!

#Saladeestar

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Que Poder é este?

12 de Maio. Fátima convoca-nos e uns quantos comparecemos.
Depois de uma mão cheia de horas (ou mais) de resistência e paciência, uma multidão de centenas de milhares de pessoas faz um silêncio quase sufocante.
Em uníssono cumpre-se o terço. Pai-Nossos, Avé Marias, Glórias. Intervalados com leituras serenas do Evangelho. Em português, árabe, italiano, espanhol, coreano, francês, alemão, polaco, ucraniano, inglês. A cada dezena erguem-se os braços ao Céu. O manto de velas ao som de «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo» comove e aquece. De joelhos Francisco - o pastor vindo de Roma - fecha os olhos em absoluta intimidade.
Que Poder é este?

13 de Maio. Fátima mantém a convocatória e uns quantos voltamos a comparecer.
Mais horas de resistência e paciência acumuladas. A mesma multidão. Porventura ainda maior. Francisco entra com a descrição do peregrino.
A quem ergue o olhar, o que vê? A verdadeira universalidade da Igreja. Milhares de cartazes. Bandeiras do mundo inteiro. Talvez seja normal.
Do Algarve a Braganca. Normal. Estamos em Portugal.
Mas de todos os países onde se fala português. Do Brasil, a Angola, passando por Moçambique, indo à Guiné, a São Tomé e a Cabo Verde, e terminando em Timor (quantas bandeiras timorenses?). Também será normal. Alguns até viverão cá em Portugal. É normal.
Da Europa? Sim, quase todos. De Espanha (imensos), de Itália, de França, da Alemanha, da Irlanda, da República Checa, da Roménia, da Grécia, da Suíça, da Lituânia (que grande grupo), da Bélgica, da Polónia, da Ucrânia, da Rússia. Já nem sei quem mais ou simplesmente quem não estaria. Mas é também normal. Ou são ricos ou são muitos ou são vizinhos. É normal.
E da América Latina, quantos? Pois imensos, senão mesmo todos. Argentinos, brasileiros, mexicanos, costa riquenhos, uruguaios, colombianos. Do Panamá também. E da Venezuela. Tantos e tão impressionantes. Alguns com cartazes que nos gritavam com letra impressiva «SOS Venezuela». Mas também será normal. Poderão não ser ricos. Poderão ser de longe. Mas serão tantos que é normal alguns cá virem. E era a peregrinação do seu Papa.
De África sou de tal modo refém da minha ignorância que nem saberei distinguir de onde provinham tantos daqueles peregrinos. Vi do Quénia, da África do Sul, da Nigéria. E sei de tantos mais que não sei. Normal? Talvez. Afinal diz-se que é de lá que nos vem a força da evangelização de que tanto precisamos.
A Ásia não faltou. Aliás, fez-se representar em massa. Do Japão. Da China (tantas e tão visíveis as bandeiras da China). Do Vietname. Da Coreia do Sul. Estes os que eu vi e percebi de onde eram. Mas é sempre assim, é normal. São também tantos e alguns tão ricos, que é normal.
E é normal que da Austrália e da Nova Zelândia também venham muitos. Pelas mesmas razões. É normal.

E esta multidão, este mundo todo reunido, ao que vem? Por que se junta e aperta naquele recinto ameaçado por nuvens escuras rasgadas por um sol quente e inesperado? Por nada de especial. Por algo absolutamente normal.
Afinal, rezar, mais uma vez, o terço em absoluta serenidade e comunhão, não é fazer nada de especial. Desta vez, também em russo e croata.
Aquela multidão reza. Só reza e espera. E parece tudo suportar, para ali estar a rezar e a esperar.

E, finalmente, a missa, a canonização e procissão do adeus. É difícil compreender. E mesmo sem compreender é difícil esconder. Se não a comoção, pelo menos a dúvida. Uma multidão que se mobiliza. Que respeita os momentos. Que sabe fazer silêncio. Que reza em uníssono. Que simplesmente reza. No mais absoluto anonimato e transversalidade. Com algumas, poucas ou nenhumas horas de sono. Com escassa e mesmo nenhuma comodidade. Simplesmente reza porque quer rezar. Ali. Com aquela multidão universal e irmanada. Junto da Mãe comum («temos Mãe», gritava Francisco!) dirigindo-se ao Pai.
Que Poder é este?

Será tudo muito normal. Sempre normal. Mas de tão normal, será mesmo normal?

Que Poder é este?

#Jardim

A vitória de Salvador Sobral

Comunguei - e comungo - da excitação colectiva (e até infantil) à volta da epopeia do Salvador Sobral. Gostei da música à primeira. Fui gostando cada vez mais. E às tantas já era mais o desejo de gostar que prevalecia. Porque queria participar do movimento colectivo e cada vez mais disseminado por essa Europa fora.

Também fui gostando do próprio Salvador, da sua história e do seu jeito desajeitado de viver esta revolução à sua volta.

E finalmente dei por mim a entregar-me ao festival e, com especial intensidade, à vertigem gloriosa das pontuações (os twelve points for Portugal, de tão repetidos, já soavam a refrão).

O senão veio com as palavras da vitória. Não resistiu a tirar de esforço e, no fundo, a desdenhar sobre os seus concorrentes (os "fast food" e "fireworks", como lhes chamou). Não foi bonito. Mas eu, que deambulo entre momentos Salvador Sobral (dou-lhe a honra do epíteto), os momentos Tony Carreira e os fireworks e fast food, perdoo-lhe a fraqueza. Arrisco dizer que lhe estará a faltar uma "eurovisão". Agora que a vitória foi incrível, lá isso foi.

#Saladeestar

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A caminho

Como quase sempre, vou a Fátima.
Sou naturalmente sensível ao significado da efeméride – 100 anos!
E não escondo que partilhar a minha peregrinação com o nosso querido Papa Francisco me emociona.

Mas vou e estarei como sempre. Junto de Nossa Senhora – a intercessora predilecta. No meio de todos. De ricos e pobres. Novos e velhos. Doentes e sãos. Porque cabemos todos. Sempre coubemos.

#Jardim

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Metros

Eu até compreendo que uma deputada que é também candidata à Câmara Municipal de Lisboa interpele o Governo na Assembleia da República reivindicando mais estações de metro para Lisboa (20 novas estações!). Já compreendo mal que a líder do meu partido, que por essa circunstância tem especial tempo de antena, aproveite o debate quinzenal com o Primeiro-Ministro para reivindicar 20 estações de metro para Lisboa e se esqueça de o fazer também para o metro do Porto.
Não foi uma intervenção nem na Comissão de Obras de Públicas, nem na Comissão de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local. Aí até compreenderia o detalhe da interpelação e diria que as «dores» do metro do Porto devessem ser assumidas por outro deputado do círculo eleitoral do Porto. Mas não foi. Foi no debate quinzenal com o Primeiro-Ministro.
Ora, sendo assim, se queria falar (presumo que com toda a razão, dou de barato) do metro de Lisboa, deveria ter falado do metro do Porto que, naturalmente, faz parte do mesmo dossier de investimentos anunciados pelo Governo. Eu sei que era preciso conhecer a necessidade da linha do Campo Alegre, ou da Linha de Gondomar (já para não falar na da Trofa). Mas se é na qualidade de líder nacional do Partido que fala, ou sabe ou alguém lhe faz saber. E às tantas até teria sido uma oportunidade para «apanhar» o Primeiro-Ministro na (mesma) ignorância. Foi pena.

#Escritório