terça-feira, 13 de junho de 2017

Escola de Lisboa

«Costa diz que escola europeia beneficia Lisboa face ao Porto na corrida à agência europeia do medicamento»

Não, não. Não vale inventar (criação da escola europeia?). Nós sabemos muito bem - há muitos anos - em que escola se fazem essas candidaturas. É sempre a mesma ...

E, já agora, com os 900 funcionários que a desejada Agência Europeia traz consigo, cá estaremos para criar a Escola Europeia. É que são eles que a justificam. Mais uma vez, não vale inventar.

#Escritório

Macron - algumas considerações

Para a enorme falange de agoirentos sobre o fenómeno Macron – eu próprio terei os meus agoiros (que serão mais dúvidas) – as coisas não têm corrido bem. Ou, pelo menos, não se têm confirmado. E valerá a pena tentar perceber porquê (independentemente da maior ou menor identificação com o sentido do discurso e do projecto).

A primeira nota a assinalar é, obviamente, a do enorme e reiterado sucesso eleitoral. Depois das duas voltas nas presidenciais, as eleições deste fim-de-semana foram já o 3.º acto eleitoral do qual Macron saiu inquestionavelmente como grande vencedor.

A segunda nota (e agora já não seguirei uma sequência hierarquizada) é a da juventude. Já o disse na primeira ocasião, mas reitero. Os 39 anos de Macron, se estivéssemos nos anos 70, seriam uma banalidade. Em 2017, é um facto permanentemente assinalado, o que diz muito de quão adiadas poderão estar tantas vocações políticas, reféns de um preconceito absurdo e – pior – de lugares captados pelos mesmos de sempre.

Em terceiro lugar – e porque ligado à nota de «juventude» do ponto anterior – está o efeito renovação (numa tripla dimensão): por um lado, e como se prevê, é inspirador que um parlamento receba, de uma vez, mais de 50% deputados debutantes (independentemente da idade desses «novos» protagonistas); por outro, é louvável que centenas de cidadãos se tenham predisposto a, pela primeira vez, se candidatarem e, uma vez eleitos, servirem a causa pública através de um cargo político; e por outro lado ainda – mesmo para quem, como eu, não conhece minimamente o universo de deputados da Assembleia Nacional Francesa – aquele refrescamento do parlamento não se esgota na entrada de novos deputados. Vai simetricamente colher também à saída de uns quantos que tenderiam a eternizar-se naquelas cadeiras.

Uma quarta nota – talvez a mais relevante – diz respeito ao discurso e modus operandi deste Movimento En Marche de Macron. A sua afirmação, por muito complexa e difusa que seja a inspiração doutrinária que a orienta, não tem sido alcançada na base de um programa e de um discurso populista, centrado em promessas de facilidade, engajadas nos interesses corporativos clássicos (que os haverá no movimento, não tenhamos ilusões). Esta circunstância, que no fundo se traduz na sensação de que há ali um ímpeto genuíno que resiste ao facilitismo, é porventura a maior lição desta ainda curta história. Macron toca a musica que acha que as pessoas precisam de ouvir, e não a música do tipo panfletário que as pessoas querem ouvir (como baixar a idade da reforma, subir as pensões, aumentar ou mesmo manter o número de funcionários públicos, reforçar a soberania face a Bruxelas, etc). Parece uma frase feita, mas é disto que estamos a precisar. E depois as pessoas julgam como entenderem. A lição está no julgamento popular que, num quadro como este, até agora lhe tem sido destinado. Vale a pena ser genuíno (rings the bell, senhora May?).

Uma nota final – entre muitas que ficam por dizer – para a debacle do Partido Socialista. Mesmo para um eleitor (como eu seria em França) que não lhes entrega o voto, não vejo com bons olhos o definhamento de um Partido tão enformador e conformador do regime democrático pluralista. Se é certo que me apraz registar a derrota das suas ideias, convém não ignorar que essa derrota não representa (ou parece não representar) a atracção desses eleitores para o «lado dos bons» (permitam-me o parcialismo). O movimento a que temos assistido merece a maior reflexão e monitorização (como se gosta de dizer em politiquês). O poder de atracção desses votos parece estar nos partidos radicais (indistintamente, de esquerda e de direita). E isso é motivo de enorme preocupação.

#Escritório

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Das escutas aos e-mails

Há sempre dois grupos. Os que se dedicam a indignar-se com a forma. E os que se dedicam a indignar-se com o conteúdo.
Há uns anos tivemos as escutas. E lá tivemos o grupo que se dedicou a discutir a ilegalidade da forma («é ilegal!», zurziam, «não valem como prova», esbracejavam). E depois tivemos o grupo da substância, que insistia na indignação quanto ao que se testemunhava naquelas conversas gravadas («se fosse o meu clube, eu tinha vergonha!», «ganhar assim, não quero!», ouvíamos à boca cheia).

Hoje temos os e-mails (até ver, porque há ameaças de mais revelações). Pois lá temos o grupo que só fala de quão grave é a violação do correio privado («é gravíssimo num Estado de direito!», «é preciso apurar como é possível a violação de correspondência privada!», dizem pelos canais costumeiros). E, naturalmente, forma-se o outro grupo, o da substância, que se indigna com o que as conversas revelam («está lá tudo!», «é uma rede instalada de corrupção»!).

O curioso é que entre ontem e hoje são (quase todos) os mesmos. Se olharmos aos da forma e aos da substância, estão lá os mesmos. A diferença – pequena diferença – é que trocaram de lado.

Eu declaro-me já, para que não sobejem dúvidas. Das escutas aos e-mails, acho indigna a violação «formal» num Estado de direito, e envergonha-me a substância (que no que revela, é rigorosamente a mesma!).


Para muito boa gente, não é fácil reconhecer isto.

#Saladejogos

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Por qué te callas?

Este artigo do Luís Aguiar-Conraria («E por Lisboa não vai nada, nada, nada?», in Observador) ainda me consegue revoltar. O que é bom sinal. É sinal de que ainda não surtiu em mim o efeito anestésico da habituação. O centralismo doentio (tão bem representado no artigo) deste nosso pequenito Portugal devia revoltar. A mim revolta. Mas devia também envergonhar. Envergonhar mesmo.

Eu não sei quantos cidadãos o norte do país (isolo o norte, mas poderia nomear todo o país para lá da região de Lisboa e Vale do Tejo) já forneceu aos Governos de Portugal. Não sei quantos deputados já passaram pela Assembleia da República eleitos pelos círculos do Porto, Braga, Aveiro, Viana, Vila Real, etc. Não sei também quantos quadros superiores do Estado e de Empresas Públicas vieram do «Portugal paisagem». O que sei é que não há quase memória de uma declaração política, com um mínimo de solenidade e consequência, de algum desses «nossos representantes» sobre este escândalo nacional. Não há um deputado – seja de que bancada for – que associemos minimamente a esta causa da urgente inversão do centralismo. Alguém toma as dores da concentração do Estado todo na capital? O INE, os Supremos Tribunais, o Tribunal de Contas e o Constitucional, a CMVM, as Autoridades de Concorrência, as Entidades Reguladoras, e tudo e mais alguma coisa! Alguém já exigiu (já é caso para exigências) algum destes serviços do Estado central em Coimbra, no Porto, em Viseu ou Aveiro?
E querem que falemos de investimentos públicos? Querem que faça a lista dos 20 maiores investimentos dos últimos 10 anos? Querem saber quantos deles foram realizados no Portugal paisagem?

É uma vergonha. Mas eu, se fosse (ou se tivesse sido) membro do governo, se fosse (ou se tivesse sido) deputado, se fosse (ou se tivesse sido) alto quadro no Estado, eu, sob pena de não ser eu, não me calaria.

É caso para perguntar a cada um desses membros do governo e deputados (e são tantos!): por qué te callas?

#Escritório

terça-feira, 6 de junho de 2017

Sérgio Conceição

1.    Foi o escolhido, passou a ser a minha escolha. A primeira.
2.    Não padecerá de falta de identificação com o clube e com os adeptos, nem nos exasperará com frases feitas, repetitivas, sensaboronas.
3.    O perfil recomenda parcimónia no «campeonato» da comunicação. Eu começaria por acabar com metade das conferências de imprensa. E reduzia a um terço (em tempo e em dias) as presenças dos jornalistas nos treinos.
4.    Se for incontornável a exigência dos sponsors, encontrem outros protagonistas para justificar as garrafinhas de publicidade à frente dos microfones.
5.    Só espero que os jogadores se entreguem e se identifiquem. Se houver sintonia, disciplina e organização, pode acontecer.
6.    O Porto, mesmo destroçado e depois de 4 anos a seco, é muito mais forte do que imaginam.


PS. Ia dizer que, em 1998, quando o Sérgio Conceição saiu do Porto para a Lázio, tinha escrito um post no Facebook a dizer que regressaria daí a duas décadas para ser o nosso treinador. Depois lembrei-me que ainda não havia Facebook. E às tantas é ridículo esse jogo do «eu sempre disse» ou «eu sabia» ou, na versão presunçosa, «se me dessem ouvidos».

#Saladejogos

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O nosso modo de vida

Mais um atentado. Mais abraços fraternos. Mais não sei quê. No fundo, há já uma espécie de reacção standard (é mesmo isto, «standard»).

A cada evento triste – e mais que triste, revoltante – em lugares que sentimos como nossos, vamos coleccionando lugares comuns, mais ou menos consensuais. Costumamos partir da premissa da superioridade da nossa civilização, reiteramos, depois, o orgulho no nosso pluralismo e tolerância, e terminamos com a afirmação (meio viril, meio vã) de que não podemos ceder a estas ameaças e agressões. Se tivéssemos uma bandeira para desfraldar ela teria inscrita a frase feita «nosso modo de vida» e lá estaríamos todos a desfraldar essa bandeira sem saber bem «porquê», «o quê» e «para quê».

O que é que nós defendemos exactamente? Que «nosso modo de vida» é esse em contraposição ao «deles»?
Cada vez mais, com todas as dificuldades que a necessidade de simplificação nos coloca, acho que nos está a faltar o debate exigente sobre que sociedade, que valores, que futuro, defendemos. No fundo, a quê que deverá corresponder essa bandeira difusa do «nosso modo de vida».
Enquanto a resposta for a do relativismo, a do pluralismo acrítico, a do nivelamento dos valores e da ausência de valores, somos nós próprios que nos expomos. Porque ninguém se sente mobilizado por uma amálgama incoerente de valores.
Claro que esse debate implicará a hierarquização, a crítica e o afastamento de ideias e prioridades absurdas. Eu atrevo-me a dizer o óbvio – que a pessoa, na sua dignidade intrínseca, ou regressa ao centro do «nosso modo de vida» ou nesta batalha de civilizações nem vale a pena desfraldar essa nossa bandeira (quanto mais ir à luta …).

Eu suspeito (não é bem suspeito, é mais acho, mas prefiro dizer suspeito) que a descristianização da Europa não devia ser olhada com indiferença.

#Saladeestar
#Escritório
#Jardim

A segurança no Porto

O JN deu à estampa dados moderadamente animadores a propósito dos índices de segurança no Porto.
Não sou nenhum especialista em políticas de segurança e criminalidade. Mas sou quase doutorado em ideias óbvias.
Intimamente relacionado com este tema da segurança está o modo como olhamos para os nossos bairros sociais, pelos quais sempre nutri um carinho especial. De tão transversais na cidade, fazem parte da nossa vida comunitária. Desde a infância à idade adulta, ninguém terá escapado. Seja à tensão, seja à descoberta, seja à participação na acção social. Seja simplesmente nas discussões sobre soluções e reabilitações.

Sempre achei – e sempre fui dizendo – que era essencial abrir os bairros sociais à cidade. Sempre gostei, aliás, de usar o neologismo «desguetização dos bairros sociais» (é mesmo só para passar a ideia de que sou um especialista respeitável, mesmo que não seja verdade).

Ora, esta desguetização ou abertura dos bairros deve enquadrar-se, do meu ponto de vista, numa revolução mais completa que se traduz – ou vai-se traduzindo – na reabilitação do ambiente urbano nos bairros tendencialmente problemáticos (há muitos bairros sociais que não são problemáticos, pelo que não confundo uma coisa com a outra, para que fique claro!). Refiro-me à limpeza urbana e asseio dos arruamentos, à disposição dos contentores de recolha de lixo, à periodicidade da recolha e limpeza pelos serviços municipais, à renovação do mobiliário urbano, ao ajardinamento e respectiva manutenção, e acima de tudo, à preservação do património edificado, a começar pelos blocos e espaços comuns, mas passando pelos diversos fogos. E aqui incluo os serviços públicos que, pela proximidade, servem as populações destes bairros. As escolas primárias, os centros de saúde, as esquadras da polícia, os gimnodesportivos e parques urbanos, só para dar alguns exemplos. Na justa medida em que forem equipamentos qualificados e modernos, com serviços de qualidade, há como que um efeito contágio às próprias pessoas. Gera-se um ambiente de cuidado geral, de limpeza, de urbanidade que muito contribui para a qualidade de vida das populações. Chega a ter a virtualidade de propiciar a transformação dos comportamentos colectivos e individuais e gera, naturalmente, mais segurança.

Há depois um trabalho mais difícil neste processo de desguetização que é o de procurar abrir, no sentido físico, as vias públicas interiores de cada bairro à malha urbana circundante. Por erro de palmatória que já não vale a pena imputar, a maioria dos bairros são fechados e, portanto, não têm vias de atravessamento (o termo gueto é-me inspirado por esta constatação). E não é preciso explicar como esse condicionamento físico prejudica aquele propósito de mais segurança e abertura. É essencial apostar na inversão deste condicionamento. Isso mesmo já foi ensaiado, por exemplo, com a nova via que rasga o Bairro Pinheiro Torres e o Bairro da Pasteleira Nova até ao Bairro da Pasteleira.

Há ainda muito a fazer neste capítulo. O ímpeto de reabilitação dos Bairros e das Escolas Municipais tem sido notável (e há que distribuir o mérito, neste particular, entre este e o anterior executivo). Mas ainda estará para chegar o dia em que os canteiros dos bairros sociais merecerão o mesmo esmero que os relvados da Marechal Gomes da Costa. Ainda estará para chegar o dia em que os Jardins do Parque Oriental se confundirão com os jardins dos Bairros Falcão, Contumil ou Lagarteiro. Em que entre o novo Gabinete Municipal dos Aliados e a sede da Associação Cultural e Desportiva do Bairro Falcão, não haverá diferença na qualidade do mobiliário, das janelas e dos acessos (estou a exagerar de propósito).


A bem do Porto.

#Salaodevisitas
#Escritório
#Saladeestar