O velho símbolo da Galp, meio desbotado pelo sol e pela temperatura do tempo, avisava-nos da Bomba de Gasolina do Sr. Chaves e representava a saída da estrada nacional rumo a Tourais.
De portão aberto e pleno de fiéis a visitar os seus, o cemitério marcava o início da "terra". Logo de seguida surgia a escola primária, com o terreiro gasto e as janelas ainda decoradas pelo génio artístico dos gaiatos (agora de férias e soltos para preencherem as ruas de vida e, dizia-se, de futuro). A Igreja, grande e bem cuidada, não envergonhava mas também não deslumbrava. As casas de porta aberta ou com a chave do lado de fora, como sempre se usou na Beira. A do Senhor Alfredo, marceneiro reformado e com uma infinita paciência para a pequenada. A do sacristão - sapateiro nas horas de expediente - forrada com meia dúzia daqueles posters da "contradição".
A da Isaura e a da Lurdes, que sempre as confundi, até porque se não eram irmãs eram cunhadas. A do Senhor Luciano e mulher, cuja enxada à porta assinalava a presença em casa. A do Senhor Professor, a mais moderna e vistosa, que se abria à comunidade em dias de festa. E muito mais abaixo, a do Senhor Elias, o electricista da terra, a do Serralheiro, que nunca lhe soube o nome, e a do Senhor Zé Maria, que fazia questão de não usar a garagem para poder exibir o bólide que, julgava ele, distinguia o seu sucesso.
A vida comunitária distribuía-se pelo incontornável café central (lugar que me intimidava, tal era a densidade da clientela rude e máscula que dominava o balcão e as mesas), pela saudosa Casa do Povo (onde não faltava a assistência médica), pelos tanques comunitários, pelo salão do clube (com um símbolo igual ao do Belenenses), e pela venda (como se chamava às lojas onde havia de tudo, até porque tinha mesmo de tudo, incluindo o marco do correio). Os mais novos, por regra, ora gozavam dos baloiços junto à Casa do Povo, ora disputavam o ringue onde se jogava futebol junto à capela nova e ao recinto das festas de São Matias (não me lembro de alguma vez se jogar naquele campo de futebol de 11 no meio da mata e já fora da povoação).
E a nossa casa? Era a nossa casa. Talvez a maior e a mais antiga. Mas era a nossa casa, que se há-de dizer mais?
Passados 30 anos, não é bem saudade o que sinto. Quer dizer, tenho saudades, mas animam-me mais as preocupações. Ouço histórias de terras sem gente. De campos por cuidar, de matas por limpar, de casas por abrir.
E hoje somos sobressaltados pelos pedidos de ajuda por atender. Pelas horas de abandono porque não há quem acuda nas proximidades. Pelas vidas dos que resistiram e acabam levadas pela catástrofe. Se em Tourais - a minha Tourais - ocorresse uma dessas catástrofes (e Deus sabe as temperaturas que por lá experimentamos) imagino o mesmo desespero. As mesmas estradas por cortar (porque o posto da GNR é também longe e com pouquíssimos efectivos). A mesma fuga desesperada dos que por lá resistem. E a mesma demora dos homens voluntários que, ao som desesperado das sirenes, viriam estafados da sede do concelho.
Já não está lá quem outrora arregaçaria as mangas. Nem o Senhor Alfredo. Nem a Isaura. Nem a Lurdes. Nem as crianças da escola. Nem os homens rudes e intimidantes do café central. Nem as mulheres que enchiam os tanques comunitários. Nem o sacristão. E os filhos não ficaram e já nem visitam a terra. Sobra o Elias, o Professor (sem os três filhos e já sem os sogros que Deus levou), o Senhor Chaves (que transformou a sua bomba de gasolina numa verdadeira estação de serviço na estrada nacional), mais meia dúzia de resistentes e a nossa casa. A casa grande e mais antiga que com amor vamos vivendo e melhorando. Pouco mais sobra. E enquanto sobra, pergunto como havemos de cuidar deste património que é nosso se estamos entregues a esta sorte?
Tourais podia ser Pedrógão. Porque Tourais está como Pedrógão. Sem os seus. Sem os filhos dos seus. Sem crianças. E sem Estado.
Saladeestar
sexta-feira, 30 de junho de 2017
sexta-feira, 23 de junho de 2017
S. João – a ti me escravizei
Não estou no mood ideal. Esta coisa de 64 dos
nossos terem partido, em circunstâncias tão horríveis, e tudo o mais que por lá
se passou e passa, não me sai da cabeça. Mas ainda assim, cá vou eu para o meu São
João.
Eu gosto tanto do São João!
Dos arraias mais ou menos espontâneos. Da
cidade dominada pelo seu povo inteiro. Dos novos, dos velhos, de todos mesmo,
entregues a uma festa livre. Das cervejas ou dos sumos. Das febras e das
sardinhas. Da música e das luzes. Dos bailaricos e das caminhadas. Dos martelos
e dos alhos porros. E, sim, das fogueiras e dos balões (algo ficará por cumprir quando olhar ao céu e o vir despido da nossa tradição).
São João, aqui me tens. «A ti me escravizei»,
como dizia Torga sobre a poesia.
Bom São João a todos!
PS. Eu sei o que é ser desterrado neste dia.
Sei o que custa não estar cá para quem é de cá. Sei o que é passar pela tortura
de imaginar como estará a ser, como se estarão a entregar os «nossos». Sei o
que é substituir esse aperto e saudade pelo exercício de recordação de tantos
São Joões vividos. Tenho uma mensagem para esses nossos: venham mesmo. Deixem-se
de secundarizar a vossa presença quando vão a tempo de a garantir. Estamos a um
ano do São João de 2018. Organizem-se e venham!
#Saladeestar
#Salaodevisitas
Só me apetece gritar
Morreram 64 pessoas. 64 pessoas. Já nem falo das
centenas de feridos, dos desalojados e da área ardida (que já chegariam para
nos indignar). Morreram 64 pessoas num incêndio em Portugal, há meia dúzia de
dias. Ainda estou incrédulo e indignado. E como se não bastasse o próprio
Ministério da Administração Interna não sabe – não sabe! – quantos serão os
desaparecidos. Estamos a falar de pessoas.
Com uma catástrofe de tamanha dimensão não podíamos
exigir menos que comportamentos irrepreensíveis das nossas autoridades. De
todas.
Das autoridades de comando – político, de
segurança, de socorro, militar – a quem se exige um comando forte, firme,
seguro. E até inspirador, porque o momento não é para menos. Mas não tivemos
nada disto. Só me apetece gritar. Não temos nem tivemos voz de comando. Já tivemos
contradições que cheguem. Já tivemos até contradições infantis, próprias de quem
está mais preocupado em se autojustificar e olha à verdade como um pormenor que
pode ou não ser útil (a história pronta da árvore cortada a meio por um raio é
quase um ícone desta tragédia). O Estado, no seu desnorte, nem sequer compareceu
ao funeral das primeiras vítimas que foram a enterrar.
Não sei que diga. Sinto-me um cidadão
desesperado. Só me apetece gritar.
Ainda teremos de ir mais a fundo (para percebermos
a política de cortes ou não cortes na prevenção, de cortes ou não cortes no dispositivo
de combate aos incêndios, de cortes ou não cortes na manutenção de sistemas de
segurança). Mas não nos libertam da sensação de que o IPMA falhou, o SIRESP
falhou, a GNR falhou, de que não temos nem tivemos MAI. É tudo tão grave que a
exigência de responsabilidades (a todos os níveis) soa-me a pouco.
Mas neste momento – que ainda
é o da prevenção imediata da propagação, e de reacção e combate ao fogo – fico-me
pelo grito que não consigo conter. Morreram 64 pessoas! Acudam-nos!#Escritório
terça-feira, 20 de junho de 2017
Que país é este?
Em pleno século XXI, temos um fogo que matou
mais de 60 pessoas, feriu mais de 150, implicou já a evacuação de 27 (27!)
aldeias. As comunicações convencionais estiveram 2 dias sem funcionar. O SIRESP
ou lá o que é, também não funcionou.
Agora é um avião (e suponho que mais uma vida)
que caiu.
O fogo lavra há 3 ou 4 dias descontrolado!
Não pode haver falinhas mansas! A ministra (que
nunca existiu e nunca devia ser ministra de nada) já devia ter sido demitida. E
o centro de controlo tresanda a descontrolo. Que gente é esta? Não quero saber
dos briefings e dos coletes laranjas pomposos a dizer «protecção civil»!
Já é terça-feira! Que espectáculo sinistro é
este que não somos capazes de resolver?!
Que país é este?
Sim! É a revolta e a emoção a falar! Mas é uma
emoção que transborda de razão!
#Escritório
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Ilações de uma catástrofe (IV)
É nestes momentos que sinto o poder do comando
da televisão. Vão rareando os repórteres que sabem conjugar a sobriedade, o
vocabulário simples, a capacidade de informar. E há canais que não nos sabem
respeitar (e nós próprios não nos damos ao respeito, dirão as audiências).
Abomino a exploração do desespero de quem está
em sofrimento. Abomino a exploração da simplicidade e menor sofisticação das
pessoas. Abomino a exploração da desgraça pervertida em espectáculo.
Ao menos tenho o comando.
#Saladeestar
Ilações de uma catástrofe (III)
Os fenómenos naturais têm o condão de nos
convocar para a nossa frágil condição. Mas essa constatação – que, no meio da
tragédia e do drama, tem o seu lado saudável – não deve servir (não pode!) para
incensar responsabilidades. Ninguém pretenderá imputar os ventos descontrolados,
as temperaturas de 40 graus e a trovoada seca (há sempre uma expressão técnica que,
a cada catástrofe, entra para o léxico popular). Mas no terreno dos
comportamentos, da educação, do planeamento, há seguramente muito por apurar.
E, portanto, responsabilidades por atribuir.
Não há fenómeno natural que pacifique uma sã
consciência cívica quando, em meia dúzia de horas, morrem mais de 60 pessoas. Não
há chuva, não há vento, não há terramoto, que afaste enormes dúvidas sobre a nossa
competência colectiva.
Exemplos de catástrofes «naturais» não faltarão
por esse mundo fora. Exemplos de uma mortandade a esta escala, num tão curto
espaço temporal, em condições «óptimas» como as que se anteviam, não se
encontram.
Podemos falar da protecção civil, nos
bombeiros, nas forças de segurança. Questionamo-nos como foi possível não se terem
fechado à circulação aquelas estradas imediatamente. Suscitamos o debate sobre
o modelo de exploração florestar e as espécies de árvores em que apostamos. Podemos
discutir a opção de investimento desproporcionada em favor dos meios de combate
e não das medidas de prevenção. Mas há ainda um outro debate que podemos e
devemos fazer e que se coloca no terreno da educação. Lembro-me muitas vezes
daquela criança americana que salvou a sua família no tsunami na ásia porque,
ao olhar ao comportamento estranho da maré, se lembrou das aulas de ciências e
avisou os pais de que estava a chegar um tsunami. Algum de nós aprendeu na
escola a comportar-se num ambiente de catástrofe natural? Algum de nós sabe o
que fazer se estiver no meio de um fogo? Alguém aprendeu regras básicas de
controlo pessoal?
Não. Não!
Desculpem-me mas esta tragédia humana
inimaginável não pode estacionar na nossa indignação estéril. E muito menos
pode justificar-se nessa expressão sonsa de «causa natural». Muita coisa tem de
mudar. Desde a escolha dos nossos protagonistas políticos, à política de
prevenção e exploração florestal, passando naturalmente pela estratégia de
protecção civil e de combate aos incêndios. E começando pelas escolas, onde valeria
a pena investir no ensino básico. De regras de sobrevivência, por exemplo!
#Escritório
Ilações de uma catástrofe (II)
Se é verdade que nos identificamos naquele
abraço, de olhos embargados, de Marcelo à chegada ao local do comando de operações,
não é menos verdade que foi penoso o exercício precipitado e infantil em que se
lançou de afastamento de culpas de tudo e de todos. Não era ainda o momento. Nem
para assacar culpas, nem para as ilibar. Foi triste e infantil. Num momento
grave e sério como este, é inaceitável.
#Escritório
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