segunda-feira, 3 de julho de 2017

Um homem inteiro e livre

É uma ideia feita projectar em Medina Carreira o epíteto de pessimista. A mim nunca foi essa a marca que lhe associei. Por entre a sua expressão meio paternalista meio impaciente de falar, por entre aquele mastigar de boca e olhos semi cerrados, havia em Medina Carreira um exercício genuíno de liberdade. E quem é livre é inteiro. Sentíamos a liberdade sã em Medina Carreira. Como sentíamos em Silva Lopes, ou em Hernâni Lopes, seus pares nas finanças como na liberdade.

Fazem-nos sempre falta homens inteiros e livres.

#Jardim

Jornais de lá

Primeiro, o El Mundo a questionar a acção do Estado no incêndio de Pedrogrão (quando por cá ainda se declarava acriticamente que se «tinha feito tudo!»).
Agora é o El Español a divulgar informação muito mais detalhada sobre o desaparecimento de material militar em Portugal (quando por cá se tenta resolver o problema com meia dúzia de afastamentos intermédios transitórios).


De Espanha nem bom vento nem bom casamento. Mas ao menos deixem chegar cá os jornais de lá.

#Escritório

O jantar de despedida

Havia alguma sensação de injustiça na sala. Mas todos sabiam que era o dever – que no caso do António tinha mesmo muita força – a sobrepor-se.
Ninguém o demovia daquela mania de ser digno, íntegro e até desprendido. Podia ter ambições de carreira – que as tinha –, podia ter projectos extraordinários a meio – que os tinha – e podia representar um sobressalto financeiro na sua vida – que representava. Mas o dever e o exemplo estavam e estiveram sempre acima de tudo.

Serviam-se os cafés, ainda se rapavam os pratos daquele bolo de chocolate amanteigado, e antes que alguém o sugerisse, o António ergue-se, tilinta o copo com a colher do café, e anuncia que pretende dirigir umas palavras. Sem rodeios e sem falsas emoções diz de chofre: «fui eu!»
O silêncio toma conta da sala. Regressa a tensão e a emoção que justificavam aquele encontro e que, durante a refeição se havia transitoriamente esvaído.
«Fui eu», repete o António com a voz mais grave e dominada.
«Naquelas omissões, naquelas ordens, naquela desorientação, estava eu inteiro.»

Todos olhavam entre si. A menina Cândida – a mais antiga na organização – de olhos em vidro, baixava a cabeça. Aliás, todos baixavam. Queriam, sem o revelar, evitar os olhares cruzados, pelo embaraço das lágrimas evidentemente contidas.
«Sou eu o Director Geral», prossegue o António. «Fui eu que escolhi os coordenadores. Fui eu que aceitei os vários chefes de equipa. Fui eu que assumi as equipas e os colaboradores desta organização.»
Era conhecida e reconhecida a empatia do Director‑Geral com os accionistas, o que tornava mais difícil aceitar o passo que o António se preparava para dar.
«Os acontecimentos deste mês são gravíssimos – prosseguiu o António. De mim nunca ouvirão o contrário. São mesmo muito graves» (havia uma espécie de ordem surda, que ninguém sabia de onde vinha. Para não dizer nada, não qualificar, não sobrevalorizar e, sobretudo, não imputar).
Em tom grave, António quase grita. «Pouco importa que eu não tivesse conhecimento da urgência na substituição das condutas de gás. Aquelas vidas ceifadas no trágico acidente, estavam à minha responsabilidade última» (o António sabia que pouco interessava que conhecesse ou não essas vidas em concreto, que não lhe tivessem feito chegar os relatórios de manutenção e que tivesse ou não avançado com um plano de modernização da estrutura. Ele sabia que um líder não está à espera e tem de antecipar).
«Na semana seguinte foi o assalto às reservas das matérias-primas mais valiosas. Sei da gravidade e sei medir o que representa para a reputação da nossa organização» (o António sabia que a falha do sistema de vídeo vigilância e das equipas de contínuos não podia esbarrar numa comissão de inquérito e na mera reestruturação das estruturas intermédias).
«E, como se não bastasse, a fuga de informação sobre os novos produtos a apresentar no mercado, foi um privilégio para uns em detrimento de outros que eu não posso aceitar e com o qual não me posso conformar. É a transparência e a certeza de imparcialidade que fica em cheque» (o António sabia que o mercado sempre reconhecera a lisura e imparcialidade da organização e, portanto, no dia em que essa confiança fosse abalada e – pior – no dia em que não houvesse uma reacção drástica a um evento grave, seria o princípio do fim).

O António, concluiu: «agradeço a confiança que em mim depositaram. Peço desculpa às vítimas e às suas famílias, com quem comungo do luto e da dor. Peço desculpa à organização e aos accionistas pela enorme crise de confiança e de reputação de que padece a organização. Quero concorrer para o urgente resgate dessa confiança e reputação. E por isso assumo – porque é assim que devem fazer os responsáveis máximos – fui eu. E como fui eu, apresentei a minha demissão. Há momentos que não se fazem de empatias. E muito menos de índices de popularidade. A dignidade e a responsabilidade às vezes doem. E desta vez doeram a mim. Mas este é o momento para duas palavras apenas. Repito uma delas e acrescento a outra. Repito: Desculpa. Acrescento: Obrigado».

Desta vez não houve o burburim de fim de jantar. Não houve sequer o som espalhado das cadeiras a arrastar. Ninguém se levantou. Ninguém disse nada. O silêncio foi quase sepulcral, não fora a menina Cândida precisar de assuar o nariz da comoção. A dignidade e o exemplo do António, tão bem revelado naquele jantar, ficou na retina por muitos anos.

Já não há Antónios assim. Nem Constanças. Nem José Albertos. Nem Tiagos.

#Escritório

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Tourais como Pedrógão

O velho símbolo da Galp, meio desbotado pelo sol e pela temperatura do tempo, avisava-nos da Bomba de Gasolina do Sr. Chaves e representava a saída da estrada nacional rumo a Tourais.
De portão aberto e pleno de fiéis a visitar os seus, o cemitério marcava o início da "terra". Logo de seguida surgia a escola primária, com o terreiro gasto e as janelas ainda decoradas pelo génio artístico dos gaiatos (agora de férias e soltos para preencherem as ruas de vida e, dizia-se, de futuro). A Igreja, grande e bem cuidada, não envergonhava mas também não deslumbrava. As casas de porta aberta ou com a chave do lado de fora, como sempre se usou na Beira. A do Senhor Alfredo, marceneiro reformado e com uma infinita paciência para a pequenada. A do sacristão - sapateiro nas horas de expediente - forrada com meia dúzia daqueles posters da "contradição". 
A da Isaura e a da Lurdes, que sempre as confundi, até porque se não eram irmãs eram cunhadas. A do Senhor Luciano e mulher, cuja enxada à porta assinalava a presença em casa. A do Senhor Professor, a mais moderna e vistosa, que se abria à comunidade em dias de festa. E muito mais abaixo, a do Senhor Elias, o electricista da terra, a do Serralheiro, que nunca lhe soube o nome, e a do Senhor Zé Maria, que fazia questão de não usar a garagem para poder exibir o bólide que, julgava ele, distinguia o seu sucesso.
A vida comunitária distribuía-se pelo incontornável café central (lugar que me intimidava, tal era a densidade da clientela rude e máscula que dominava o balcão e as mesas), pela saudosa Casa do Povo (onde não faltava a assistência médica), pelos tanques comunitários, pelo salão do clube (com um símbolo igual ao do Belenenses), e pela venda (como se chamava às lojas onde havia de tudo, até porque tinha mesmo de tudo, incluindo o marco do correio). Os mais novos, por regra, ora gozavam dos baloiços junto à Casa do Povo, ora disputavam o ringue onde se jogava futebol junto à capela nova e ao recinto das festas de São Matias (não me lembro de alguma vez se jogar naquele campo de futebol de 11 no meio da mata e já fora da povoação).
E a nossa casa? Era a nossa casa. Talvez a maior e a mais antiga. Mas era a nossa casa, que se há-de dizer mais?

Passados 30 anos, não é bem saudade o que sinto. Quer dizer, tenho saudades, mas animam-me mais as preocupações. Ouço histórias de terras sem gente. De campos por cuidar, de matas por limpar, de casas por abrir.

E hoje somos sobressaltados pelos pedidos de ajuda por atender. Pelas horas de abandono porque não há quem acuda nas proximidades. Pelas vidas dos que resistiram e acabam levadas pela catástrofe. Se em Tourais - a minha Tourais - ocorresse uma dessas catástrofes (e Deus sabe as temperaturas que por lá experimentamos) imagino o mesmo desespero. As mesmas estradas por cortar (porque o posto da GNR é também longe e com pouquíssimos efectivos). A mesma fuga desesperada dos que por lá resistem. E a mesma demora dos homens voluntários que, ao som desesperado das sirenes, viriam estafados da sede do concelho.
Já não está lá quem outrora arregaçaria as mangas. Nem o Senhor Alfredo. Nem a Isaura. Nem a Lurdes. Nem as crianças da escola. Nem os homens rudes e intimidantes do café central. Nem as mulheres que enchiam os tanques comunitários. Nem o sacristão. E os filhos não ficaram e já nem visitam a terra. Sobra o Elias, o Professor (sem os três filhos e já sem os sogros que Deus levou), o Senhor Chaves (que transformou a sua bomba de gasolina numa verdadeira estação de serviço na estrada nacional), mais meia dúzia de resistentes e a nossa casa. A casa grande e mais antiga que com amor vamos vivendo e melhorando. Pouco mais sobra. E enquanto sobra, pergunto como havemos de cuidar deste património que é nosso se estamos entregues a esta sorte?
Tourais podia ser Pedrógão. Porque Tourais está como Pedrógão. Sem os seus. Sem os filhos dos seus. Sem crianças. E sem Estado.

Saladeestar

sexta-feira, 23 de junho de 2017

S. João – a ti me escravizei


Não estou no mood ideal. Esta coisa de 64 dos nossos terem partido, em circunstâncias tão horríveis, e tudo o mais que por lá se passou e passa, não me sai da cabeça. Mas ainda assim, cá vou eu para o meu São João.

Eu gosto tanto do São João!
Dos arraias mais ou menos espontâneos. Da cidade dominada pelo seu povo inteiro. Dos novos, dos velhos, de todos mesmo, entregues a uma festa livre. Das cervejas ou dos sumos. Das febras e das sardinhas. Da música e das luzes. Dos bailaricos e das caminhadas. Dos martelos e dos alhos porros. E, sim, das fogueiras e dos balões (algo ficará por cumprir quando olhar ao céu e o vir despido da nossa tradição).

São João, aqui me tens. «A ti me escravizei», como dizia Torga sobre a poesia.

Bom São João a todos!


PS. Eu sei o que é ser desterrado neste dia. Sei o que custa não estar cá para quem é de cá. Sei o que é passar pela tortura de imaginar como estará a ser, como se estarão a entregar os «nossos». Sei o que é substituir esse aperto e saudade pelo exercício de recordação de tantos São Joões vividos. Tenho uma mensagem para esses nossos: venham mesmo. Deixem-se de secundarizar a vossa presença quando vão a tempo de a garantir. Estamos a um ano do São João de 2018. Organizem-se e venham!

#Saladeestar
#Salaodevisitas

Só me apetece gritar

Morreram 64 pessoas. 64 pessoas. Já nem falo das centenas de feridos, dos desalojados e da área ardida (que já chegariam para nos indignar). Morreram 64 pessoas num incêndio em Portugal, há meia dúzia de dias. Ainda estou incrédulo e indignado. E como se não bastasse o próprio Ministério da Administração Interna não sabe – não sabe! – quantos serão os desaparecidos. Estamos a falar de pessoas.

Com uma catástrofe de tamanha dimensão não podíamos exigir menos que comportamentos irrepreensíveis das nossas autoridades. De todas.
Das autoridades de comando – político, de segurança, de socorro, militar – a quem se exige um comando forte, firme, seguro. E até inspirador, porque o momento não é para menos. Mas não tivemos nada disto. Só me apetece gritar. Não temos nem tivemos voz de comando. Já tivemos contradições que cheguem. Já tivemos até contradições infantis, próprias de quem está mais preocupado em se autojustificar e olha à verdade como um pormenor que pode ou não ser útil (a história pronta da árvore cortada a meio por um raio é quase um ícone desta tragédia). O Estado, no seu desnorte, nem sequer compareceu ao funeral das primeiras vítimas que foram a enterrar.
Não sei que diga. Sinto-me um cidadão desesperado. Só me apetece gritar.

Ainda teremos de ir mais a fundo (para percebermos a política de cortes ou não cortes na prevenção, de cortes ou não cortes no dispositivo de combate aos incêndios, de cortes ou não cortes na manutenção de sistemas de segurança). Mas não nos libertam da sensação de que o IPMA falhou, o SIRESP falhou, a GNR falhou, de que não temos nem tivemos MAI. É tudo tão grave que a exigência de responsabilidades (a todos os níveis) soa-me a pouco.
Mas neste momento – que ainda é o da prevenção imediata da propagação, e de reacção e combate ao fogo – fico-me pelo grito que não consigo conter. Morreram 64 pessoas! Acudam-nos!

#Escritório

terça-feira, 20 de junho de 2017

Que país é este?

Em pleno século XXI, temos um fogo que matou mais de 60 pessoas, feriu mais de 150, implicou já a evacuação de 27 (27!) aldeias. As comunicações convencionais estiveram 2 dias sem funcionar. O SIRESP ou lá o que é, também não funcionou.
Agora é um avião (e suponho que mais uma vida) que caiu.
O fogo lavra há 3 ou 4 dias descontrolado!
Não pode haver falinhas mansas! A ministra (que nunca existiu e nunca devia ser ministra de nada) já devia ter sido demitida. E o centro de controlo tresanda a descontrolo. Que gente é esta? Não quero saber dos briefings e dos coletes laranjas pomposos a dizer «protecção civil»!
Já é terça-feira! Que espectáculo sinistro é este que não somos capazes de resolver?!
Que país é este?

Sim! É a revolta e a emoção a falar! Mas é uma emoção que transborda de razão!

#Escritório