sexta-feira, 7 de julho de 2017

Uma liderança para lamentar?

Paira a sensação de inversão. Já não há estado de graça prolongado. O resultado do défice já não é bem uma bandeira. De repente há governantes precários. Há contradições e falta de liderança. A careca do «virar de página» começa inevitavelmente a ser descoberta, com o embaraço das cativações nos serviços do Estado.

E como vai a vida no principal partido da oposição? Pois, prepara-se para eleger um novo líder parlamentar.
E de quem se fala?
Dois nomes: Marco António Costa (que é também figura de proa na comissão de defesa) e de Hugo Soares. Sim, Hugo Soares.
Querem falar de cativações? Comecem pela bancada parlamentar do PSD. Era cortar a eito!

Lamento, mas a liderança que se anuncia é mesmo para lamentar.

#Escritório

terça-feira, 4 de julho de 2017

A taxa turística

Sou, por princípio, avesso à criação de novos tributos (porque os que temos são mais que suficientes). E no caso da taxa turística de que agora se fala para o Porto, não alinharei numa espécie de preâmbulo que se dedique a invocar a necessidade de chamar os turistas a contribuir para os serviços públicos de que beneficiam porque cá não pagarão impostos. Este argumento não serve nem é verdadeiro. Os turistas pagam e ajudam a pagar muitos impostos. Pagam o IVA dos seus consumos em hotéis, restaurantes, transportes, compras e tudo o mais. Contribuem para a solvabilidade e lucros de muitos negócios (e, portanto, têm a sua «quota-parte» no IRC e derrama municipal dessas entidades), propiciam a recuperação de património (com uma infindável lista de sectores de actividade e entidades – sujeitos passivos de imensos impostos –, directa e indirectamente beneficiadas). Não faltam transmissões onerosas de imóveis directamente provocadas pelo turismo (com as devidas receitas de IMT para os municípios), não cessam de aumentar os veículos dedicados e justificados pela actividade turística (mais imposto automóvel, mais imposto municipal sobre veículos, mais imposto sobre os produtos petrolíferos, mais IVA). E nem falo das receitas directas pela contraprestação que pagam em cada visita e utilização de serviços municipais e estaduais (como museus, salas de espectáculo ou monumentos). Enfim, a contribuição dos turistas para as receitas tributárias do Estado e dos municípios é incontestável e não é de pequena monta. Não serve, portanto, o argumento de que têm de ser chamados a contribuir porque, em boa verdade, já muito contribuem.

Já serei sensível à ideia de que, com respeito pela proporcionalidade, com uma taxa turística reduzida e não dissuasora, se logram alcançar importantes propósitos públicos. Ouve-se falar do combate ao desequilíbrio do mercado imobiliário nas zonas mais turísticas (tenho sérias dúvidas sobre a bondade de uma solução que passe pelo reforço do município como proprietário de habitação dirigida a esse conceito indeterminado que dá pelo nome de «classe média»). Ouve-se falar também da criação de locais destinados aos transportes turísticos (aí, já nada terei a obstar). E admito que se possam isolar outros fins (assim, de repente, ocorre-me propor que se destine a promover soluções de mobilidade como seja a do atravessamento pedonal do rio Douro – aqueles passeios no tabuleiro inferior da ponte de D. Luís são terríveis e em períodos mais concorridos instala-se o caos … e o perigo).

De todo o modo, anunciando-se uma taxa de € 2, reconheço que aquela preocupação de proporcionalidade estará acautelada. Ainda não estou totalmente esclarecido quanto aos fundamentos e aos fins. Mas, como sempre, estou aberto a estar.

By the way, não gosto nada da expressão «pegada turística». Sugere a ideia de uma epidemia a extinguir. Ora, pelo contrário. Devemos acarinhar o turismo nem que seja para não sermos acusados de ingratidão, que eu tenho memória de como estávamos há 10 anos (para não ir mais longe).

#Escritório
#Salaodevisitas

Porto Rico

3 de Julho, 20:42h

We live in Porto Rico. Ou como se diz em português, vivemos num rico Porto.




#Salaodevisitas

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Um homem inteiro e livre

É uma ideia feita projectar em Medina Carreira o epíteto de pessimista. A mim nunca foi essa a marca que lhe associei. Por entre a sua expressão meio paternalista meio impaciente de falar, por entre aquele mastigar de boca e olhos semi cerrados, havia em Medina Carreira um exercício genuíno de liberdade. E quem é livre é inteiro. Sentíamos a liberdade sã em Medina Carreira. Como sentíamos em Silva Lopes, ou em Hernâni Lopes, seus pares nas finanças como na liberdade.

Fazem-nos sempre falta homens inteiros e livres.

#Jardim

Jornais de lá

Primeiro, o El Mundo a questionar a acção do Estado no incêndio de Pedrogrão (quando por cá ainda se declarava acriticamente que se «tinha feito tudo!»).
Agora é o El Español a divulgar informação muito mais detalhada sobre o desaparecimento de material militar em Portugal (quando por cá se tenta resolver o problema com meia dúzia de afastamentos intermédios transitórios).


De Espanha nem bom vento nem bom casamento. Mas ao menos deixem chegar cá os jornais de lá.

#Escritório

O jantar de despedida

Havia alguma sensação de injustiça na sala. Mas todos sabiam que era o dever – que no caso do António tinha mesmo muita força – a sobrepor-se.
Ninguém o demovia daquela mania de ser digno, íntegro e até desprendido. Podia ter ambições de carreira – que as tinha –, podia ter projectos extraordinários a meio – que os tinha – e podia representar um sobressalto financeiro na sua vida – que representava. Mas o dever e o exemplo estavam e estiveram sempre acima de tudo.

Serviam-se os cafés, ainda se rapavam os pratos daquele bolo de chocolate amanteigado, e antes que alguém o sugerisse, o António ergue-se, tilinta o copo com a colher do café, e anuncia que pretende dirigir umas palavras. Sem rodeios e sem falsas emoções diz de chofre: «fui eu!»
O silêncio toma conta da sala. Regressa a tensão e a emoção que justificavam aquele encontro e que, durante a refeição se havia transitoriamente esvaído.
«Fui eu», repete o António com a voz mais grave e dominada.
«Naquelas omissões, naquelas ordens, naquela desorientação, estava eu inteiro.»

Todos olhavam entre si. A menina Cândida – a mais antiga na organização – de olhos em vidro, baixava a cabeça. Aliás, todos baixavam. Queriam, sem o revelar, evitar os olhares cruzados, pelo embaraço das lágrimas evidentemente contidas.
«Sou eu o Director Geral», prossegue o António. «Fui eu que escolhi os coordenadores. Fui eu que aceitei os vários chefes de equipa. Fui eu que assumi as equipas e os colaboradores desta organização.»
Era conhecida e reconhecida a empatia do Director‑Geral com os accionistas, o que tornava mais difícil aceitar o passo que o António se preparava para dar.
«Os acontecimentos deste mês são gravíssimos – prosseguiu o António. De mim nunca ouvirão o contrário. São mesmo muito graves» (havia uma espécie de ordem surda, que ninguém sabia de onde vinha. Para não dizer nada, não qualificar, não sobrevalorizar e, sobretudo, não imputar).
Em tom grave, António quase grita. «Pouco importa que eu não tivesse conhecimento da urgência na substituição das condutas de gás. Aquelas vidas ceifadas no trágico acidente, estavam à minha responsabilidade última» (o António sabia que pouco interessava que conhecesse ou não essas vidas em concreto, que não lhe tivessem feito chegar os relatórios de manutenção e que tivesse ou não avançado com um plano de modernização da estrutura. Ele sabia que um líder não está à espera e tem de antecipar).
«Na semana seguinte foi o assalto às reservas das matérias-primas mais valiosas. Sei da gravidade e sei medir o que representa para a reputação da nossa organização» (o António sabia que a falha do sistema de vídeo vigilância e das equipas de contínuos não podia esbarrar numa comissão de inquérito e na mera reestruturação das estruturas intermédias).
«E, como se não bastasse, a fuga de informação sobre os novos produtos a apresentar no mercado, foi um privilégio para uns em detrimento de outros que eu não posso aceitar e com o qual não me posso conformar. É a transparência e a certeza de imparcialidade que fica em cheque» (o António sabia que o mercado sempre reconhecera a lisura e imparcialidade da organização e, portanto, no dia em que essa confiança fosse abalada e – pior – no dia em que não houvesse uma reacção drástica a um evento grave, seria o princípio do fim).

O António, concluiu: «agradeço a confiança que em mim depositaram. Peço desculpa às vítimas e às suas famílias, com quem comungo do luto e da dor. Peço desculpa à organização e aos accionistas pela enorme crise de confiança e de reputação de que padece a organização. Quero concorrer para o urgente resgate dessa confiança e reputação. E por isso assumo – porque é assim que devem fazer os responsáveis máximos – fui eu. E como fui eu, apresentei a minha demissão. Há momentos que não se fazem de empatias. E muito menos de índices de popularidade. A dignidade e a responsabilidade às vezes doem. E desta vez doeram a mim. Mas este é o momento para duas palavras apenas. Repito uma delas e acrescento a outra. Repito: Desculpa. Acrescento: Obrigado».

Desta vez não houve o burburim de fim de jantar. Não houve sequer o som espalhado das cadeiras a arrastar. Ninguém se levantou. Ninguém disse nada. O silêncio foi quase sepulcral, não fora a menina Cândida precisar de assuar o nariz da comoção. A dignidade e o exemplo do António, tão bem revelado naquele jantar, ficou na retina por muitos anos.

Já não há Antónios assim. Nem Constanças. Nem José Albertos. Nem Tiagos.

#Escritório

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Tourais como Pedrógão

O velho símbolo da Galp, meio desbotado pelo sol e pela temperatura do tempo, avisava-nos da Bomba de Gasolina do Sr. Chaves e representava a saída da estrada nacional rumo a Tourais.
De portão aberto e pleno de fiéis a visitar os seus, o cemitério marcava o início da "terra". Logo de seguida surgia a escola primária, com o terreiro gasto e as janelas ainda decoradas pelo génio artístico dos gaiatos (agora de férias e soltos para preencherem as ruas de vida e, dizia-se, de futuro). A Igreja, grande e bem cuidada, não envergonhava mas também não deslumbrava. As casas de porta aberta ou com a chave do lado de fora, como sempre se usou na Beira. A do Senhor Alfredo, marceneiro reformado e com uma infinita paciência para a pequenada. A do sacristão - sapateiro nas horas de expediente - forrada com meia dúzia daqueles posters da "contradição". 
A da Isaura e a da Lurdes, que sempre as confundi, até porque se não eram irmãs eram cunhadas. A do Senhor Luciano e mulher, cuja enxada à porta assinalava a presença em casa. A do Senhor Professor, a mais moderna e vistosa, que se abria à comunidade em dias de festa. E muito mais abaixo, a do Senhor Elias, o electricista da terra, a do Serralheiro, que nunca lhe soube o nome, e a do Senhor Zé Maria, que fazia questão de não usar a garagem para poder exibir o bólide que, julgava ele, distinguia o seu sucesso.
A vida comunitária distribuía-se pelo incontornável café central (lugar que me intimidava, tal era a densidade da clientela rude e máscula que dominava o balcão e as mesas), pela saudosa Casa do Povo (onde não faltava a assistência médica), pelos tanques comunitários, pelo salão do clube (com um símbolo igual ao do Belenenses), e pela venda (como se chamava às lojas onde havia de tudo, até porque tinha mesmo de tudo, incluindo o marco do correio). Os mais novos, por regra, ora gozavam dos baloiços junto à Casa do Povo, ora disputavam o ringue onde se jogava futebol junto à capela nova e ao recinto das festas de São Matias (não me lembro de alguma vez se jogar naquele campo de futebol de 11 no meio da mata e já fora da povoação).
E a nossa casa? Era a nossa casa. Talvez a maior e a mais antiga. Mas era a nossa casa, que se há-de dizer mais?

Passados 30 anos, não é bem saudade o que sinto. Quer dizer, tenho saudades, mas animam-me mais as preocupações. Ouço histórias de terras sem gente. De campos por cuidar, de matas por limpar, de casas por abrir.

E hoje somos sobressaltados pelos pedidos de ajuda por atender. Pelas horas de abandono porque não há quem acuda nas proximidades. Pelas vidas dos que resistiram e acabam levadas pela catástrofe. Se em Tourais - a minha Tourais - ocorresse uma dessas catástrofes (e Deus sabe as temperaturas que por lá experimentamos) imagino o mesmo desespero. As mesmas estradas por cortar (porque o posto da GNR é também longe e com pouquíssimos efectivos). A mesma fuga desesperada dos que por lá resistem. E a mesma demora dos homens voluntários que, ao som desesperado das sirenes, viriam estafados da sede do concelho.
Já não está lá quem outrora arregaçaria as mangas. Nem o Senhor Alfredo. Nem a Isaura. Nem a Lurdes. Nem as crianças da escola. Nem os homens rudes e intimidantes do café central. Nem as mulheres que enchiam os tanques comunitários. Nem o sacristão. E os filhos não ficaram e já nem visitam a terra. Sobra o Elias, o Professor (sem os três filhos e já sem os sogros que Deus levou), o Senhor Chaves (que transformou a sua bomba de gasolina numa verdadeira estação de serviço na estrada nacional), mais meia dúzia de resistentes e a nossa casa. A casa grande e mais antiga que com amor vamos vivendo e melhorando. Pouco mais sobra. E enquanto sobra, pergunto como havemos de cuidar deste património que é nosso se estamos entregues a esta sorte?
Tourais podia ser Pedrógão. Porque Tourais está como Pedrógão. Sem os seus. Sem os filhos dos seus. Sem crianças. E sem Estado.

Saladeestar