segunda-feira, 17 de julho de 2017

Representação? É só fachada.

Dois dias depois das eleições de Outubro de 2015, era notícia a eleição da deputada Domicília Costa do Bloco de Esquerda. Nessa altura escrevi isto. Hoje dirijo estas palavras para os senhores, do mesmo Bloco de Esquerda, que a convidaram a sair. Como é óbvio, não houve na elaboração daquelas listas nem convicção nem representatividade. O Bloco é só fachada.

A representação

Anda meio mundo indignado com a eleição de uma doméstica do Porto nas listas do Bloco de Esquerda.
Na base da indignação está, invariavelmente, um certo desprezo e preconceito de superioridade face à agora deputada eleita. É quase um juízo de casta aquele que gera o tal desprezo, fundado na ideia de que um deputado tem de ser alguém que cumpra os requisitos da respeitabilidade convencional, da formação tipo ou da sofisticação das redes sociais (crivo que a senhora deputada não observará).
Eu arrisco-me a dizer que a senhora doméstica (uso o qualificativo por ser assim que a própria se apresenta) sabe mais da vida que metade dos senhores doutores, engenheiros, professores e demais senhores e senhoras que agora comungam com ela da condição. Suspeito que esses – que observam escrupulosamente os termos regimentais (olhe que não senhor deputado!), que sabem indignar-se com a teatralidade adequada e terminar as suas intervenções com um grave «disse», gerando os aplausos orquestrados das respectivas bancadas – talvez devessem prestar mais atenção ao país que a Senhora doméstica vive e representa.
Não conheço a senhora deputada. Mas já passei bastas vezes pela «desconcertante» experiência de ser confrontado com a sabedoria dos justos e simples para ter a humildade de não me precipitar nestas indignações colectivas e preconceituosas. E diria que nos está a fazer falta esse choque com os doutorados da vida.

Olho para a composição do Parlamento que nos representa e penso: entre um deslumbrado que enche a boca de lugares comuns e uma senhora que se confessa apreensiva pela mudança de vida que os eleitores lhe ofereceram, eu talvez me sinta mais representado pela segunda.

#Escritório

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Hello Everyone?


Tudo bem que acabem com o Ladies and Gentlemen.
Mas o Hello Everyone tem tudo para correr mal.
Eu sei lá quem me aparece do outro lado da porta?
E entre o Hello e o Everyone olhem que hesito. E logo em momentos em que a hesitação pode sair cara ...

#Saladeestar

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Ainda não

Não vou ser «desmancha prazeres». Não é o meu estilo. Muito menos com o meu Porto.
Mas não vejo motivos para celebrar. Ainda.

A escolha do Porto para a candidatura à sede da EMA é um bom sinal. E serviu para outras conquistas, não directamente relacionadas com esta à sede da EMA, mas que vieram por arrasto (como a de expor o absurdo centralista que nos governa e – não menos importante – o de nos pôr alerta para outras oportunidades em benefício do país todo). Mas sejamos objectivos. Não é uma grande notícia ao ponto de nos pôr a festejar. Sinceramente, ainda não.

Dito isto, não hesito nos adjectivos. Se o Porto conseguir, de facto, atrair a sede da EMA será a maior conquista para o desenvolvimento da cidade de há muitos, muitos anos. Não estou a exagerar. Quem olha aos números da Agência – ao orçamento, ao número de trabalhadores e respectivos salários, às viagens a que obriga, às reuniões que promove, às dormidas na região, etc. – conseguirá ter bem a noção do impacto que a instalação de um organismo destes poderá ter na nossa cidade.

Acredito muito nas nossas gentes. Especialmente naqueles a quem, em nosso nome, cabe gerir estes dossiers. Diria que é justamente essa a sua expertise. Ana Lehman (agora de saída da InvestPorto para o governo, mas para uma pasta não totalmente desligada do tema), Ricardo Valente, Filipe Ortigão Guimarães, o presidente Rui Moreira. São – têm sido – uma equipa com excelentes resultados na atracção de investimento e na capacidade de seduzir quem pensa em nós. E, neste dossier em concreto, o envolvimento de Eurico Castro Alves fez e faz todo o sentido.


Eu quero festejar. Mas ainda não.

#Escritório
#Salaodevisitas

Investigação à minha viagem ao Euro 2016

- Estás nervoso?
- Pá, sinceramente, estou só ansioso. Tenho a certeza que vamos a Paris.
- Vamos mesmo? O País de Gales fez um jogão contra a Bélgica …
- Tenho a certeza. E até devíamos ver como é que é de aviões. O mais importante era tratarmos da ida. O regresso logo se vê.
- És maluco, vamos gastar assim dinheiro, antes de termos a certeza?
- Deixa ver os preços. Olha, para Paris pela Ryanair, no dia 10 de manhã, se comprarmos agora fica por € 70. Arriscamos?
- Estou a sentir a pressão.
- Já agora deixa ver o regresso. Ui, esquece. Só se formos mesmo. O regresso está por quase € 300. Já percorri todas as alternativas.
- Fica à tua responsabilidade. Compramos o bilhete de ida. Se perdermos, foram € 70 (dói, mas não deita um gajo abaixo).
- Não vamos perder. Tenho a certeza. E vamos ser campeões. E vamos estar lá!
- Deus te ouça. Mas e como é que é de bilhetes para o jogo?
- Nem te digo os preços. O mais barato custa só € 300. Quer dizer, há uns a € 80, mas são pouquíssimos e não tenho esperança de os conseguir. Depois só há a € 300, € 600 e € 900.
- Caneco, até dói!
- É isso, vale o caneco. Vais ver.
- Avançamos?
- Avançamos. € 70. Bilhete de avião para Paris já cá canta. Agora eles fazem a outra parte (ganhar ao País de Gales) e só (este só é meio sonso) temos de tratar do bilhete de regresso e do bilhete para o jogo (o tal a € 300 … chiça!).
- Estou aqui a ver, e se há pouco ainda havia 12 lugares no avião de regresso mais barato, agora só há 6. Ainda nos vamos tramar.
- Fazemos assim. Pedimos à Joana (eu falo com ela, que não se importa) que esteja on-line, com tudo seleccionado, durante o jogo. Quando a coisa estiver resolvida em campo ligamos-lhe e é só carregar no «enter». Ela faz-nos isso com gosto.
- Bem pensado.
- Até já estou a sentir a jornada (o aeroporto, a viagem, a cidade, o estádio, o caneco – sim, o caneco, que eu vou lá para o trazer para «o nosso Portugal»).
- (…)
- Liga à Joana!
- Mas ainda faltam 15 minutos para acabar o jogo …
- Já ninguém nos tira da final! Liga à Joana! Ela que carregue no «enter»!
- Pronto. Só em aviões foi uma fortuna. Mas agora vamos mesmo. Ida na madrugada de dia 10. Regresso na madrugada de dia 11. Espero que com o caneco.
- Boa. Agora vou tratar dos bilhetes para o jogo. Vai ser uma bela aventura. E se só conseguirmos os de € 600, vamos na mesma?
- Pá, temos de conseguir os de € 300.
- Eu sei que é uma loucura, mas isto é uma vez na vida. Vamos ser campeões da Europa e nós vamos lá estar!
- Trata mas é dos bilhetes.
- Já estou a tratar. Estou à espera que me confirmem. Mas, entretanto, o Gonçalo (de Londres) e o Manel (de Bruxelas) conseguiram 4 bilhetes cada um pelo site da UEFA. São os de € 300. Dizem que me dispensam 2. Fica já arrumado?
- Claro!
- Fechado!

E assim fomos a Paris.
Sem a Galp, ou a PT, ou o BES, ou a Caixa. Porque não somos membros do Governo. Ou deputados. Ou pseudo VIP’s.
Fomos como adeptos. No meio dos nossos. Como pessoas normais. Que sabem o que custa a entrega. Cada fatia de pizza ou cada cachorro, cada bilhete de metro para chegar e regressar do estádio, cada cerveja. Tudo do próprio bolso.

Não fazem ideia de como a vida sabe muito melhor assim.

E assim foi a minha viagem ao Euro 2016.

#Escritório
#Saladeestar
#Saladejogos

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ele ajuda imenso

Não vou falar sobre as quotas. Nem sobre as suas causas.
Também vou pôr de lado o equilíbrio, a vocação de cada um, as apetências e até o que diz respeito à natureza. São tantas as variáveis que não é disso que vou tratar.
Vou falar sobre nós (em sentido figurado). Sobre a nossa vida em casa. Sobre o absurdo que domina o nosso subconsciente. E como tudo fica ainda mais exacerbado na hora de cuidar dos filhos.

Vou resumir o meu ponto a este diálogo clássico:
- E ele, ajuda lá em casa? - Ele é impecável, ajuda imenso.

O marido ou pai que merece reconhecimento tem na voz da sua mulher (e da pequena sociedade que o rodeia) um sentido «ele ajuda imenso».
Ele muda a fralda aos filhos, dá-lhes banho e veste-os, dá-lhes de comer (e tantas outras banais tarefas próprias em casa e em família) e lá vem um «está a ajudar», «ajuda imenso».

Não há reconhecimento mais discriminatório e preconceituoso que este.
As mesmas tarefas, numa mulher e numa mãe, são simplesmente o cumprimento natural do que lhe compete. A cada fralda que uma mãe muda, a cada banho, a cada refeição que serve aos seus filhos, ninguém se lembra daquele «ajuda imenso». Ela nunca «ajuda imenso». Ela faz. E esse «faz» não lhe garante qualquer galardão e admiração.
Se invertermos os papéis, o exercício é ainda mais impressionante. Uma mãe ou mulher que por razões que não interessam a ninguém (que tanto podem ser as melhores como as menos respeitáveis) está menos em casa por troca com o marido, na linguagem clássica dificilmente se livra do «é ele que faz tudo!». Mesmo que ela faça as mesmas tarefas que, na distribuição tradicional, garantiriam ao marido o reconhecido «ajuda imenso». Porque a elas só está disponível fazer, sem elogio e sob pena de crítica indignada. Porque, no fundo, ainda não nos libertámos da ideia que é «delas» essa função. E que ele, se fizer alguma coisa, está a «ajudar» (como se fosse a avó ou uma tia que ajuda).

Dizem que as coisas estão mais equilibradas – que os maridos e pais, por contraste com os seus próprios pais, «hoje fazem tudo». Mas a verdade é que no plano reputacional os nossos subconscientes ainda discriminam.

Certamente, a cada fralda que um pai muda aos seus filhos, a cada banho, a cada refeição que lhes serve, está a fazer uma tarefa que não merece destaque porque é dele. E muito menos serve para alimentar aquele diálogo clássico do «ele ajuda imenso».

#Saladeestar

Eu por acaso continuo a festejar

Eu por acaso sempre disse que ia à final. Eu por acaso se tivesse que escolher uma final era aquela. Eu por acaso se tivesse que escolher uma cidade era aquela. Eu por acaso se tivesse que escolher um adversário era aquele. Eu por acaso se tivesse que escolher um filme era aquele. Eu por acaso até a lesão, até a substituição, até o prolongamento, até o protagonista, teria escolhido. Eu por acaso nunca me senti tão representado como naquele remate. Eu por acaso sempre achei que íamos ganhar mesmo. Eu por acaso, mesmo um ano depois, ainda revivo aquele momento como se tivesse sido ontem. Eu por acaso acho que éramos melhores.



Eu por acaso acho que não foi por acaso.

#Saladejogos

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Uma liderança para lamentar?

Paira a sensação de inversão. Já não há estado de graça prolongado. O resultado do défice já não é bem uma bandeira. De repente há governantes precários. Há contradições e falta de liderança. A careca do «virar de página» começa inevitavelmente a ser descoberta, com o embaraço das cativações nos serviços do Estado.

E como vai a vida no principal partido da oposição? Pois, prepara-se para eleger um novo líder parlamentar.
E de quem se fala?
Dois nomes: Marco António Costa (que é também figura de proa na comissão de defesa) e de Hugo Soares. Sim, Hugo Soares.
Querem falar de cativações? Comecem pela bancada parlamentar do PSD. Era cortar a eito!

Lamento, mas a liderança que se anuncia é mesmo para lamentar.

#Escritório