quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mega felizes e sempre fixes

Não foi nada de especial. Quer dizer, não foi mau, mas não foi nada de especial. Éramos todos amigos, esteve-se bem, mas não foi memorável. Foi simplesmente normal. E ter sido normal não tem mal nenhum.
Mas estejam descansados. A meio lá tirámos a fotografia. Abrimos o nosso melhor sorriso (como se alguém tivesse contado uma anedota). E já não sei quem é que ficou de editá-la (para disfarçar o pouco bronze de alguns).
E estejam descansados também que mal seja publicada a foto vamos lá todos, disciplinadamente, pôr like (há quem esteja a pensar em pôr um coração). E já distribuímos os comentários por todos. A mim, por exemplo, coube-me um «Top, Top, Top!!!», à Ana (a que vai pôr o coração), ficou destinado «Mega jantar! A repetir!», o Miguel (como é típico dele) vai comentar com «Grandes vinhos! Grandes Risotas!», e o Manel ficou de escolher uma private qualquer (tem que ser qualquer coisa que sugira uma piada que só os que lá estiveram compreendem, mesmo que não seja verdade).

Tudo menos passar a ideia que foi um jantar normal, que nós cá queremos fazer parte do grupo dos mega felizes e sempre fixes!

#Saladeestar

segunda-feira, 31 de julho de 2017

«Nos em D'Bandada»


- E o «Nos em D’Bandada»?
- Incrível como em poucos anos se transformou num festival que inunda a cidade de música, de pessoas, de animação, sem resvalar para uma certa brejeirice que é muito difícil de evitar em eventos de massas.
- Bem verdade. Famílias completas, grupos de amigos, imensos estrangeiros. Vê-se de tudo. Simplesmente na rua para ouvir música, jantar, passear.
- Para mim, já é um evento anual absolutamente incontornável no mês de Setembro.
- Esquece que este ano não há …
- Porquê?
- Por prudência.
- Como assim?
- Porque coincidiria com o período de campanha eleitoral para as Autárquicas 2017.
- Como?
- Isso.
- Caramba pá. E eu a pensar que essa coisa da democracia madura e tal e coiso.
- Pois. Mas não.
- É cada uma?!


#Saladeestar

Viver

- Eu não passo sem a aspirina.
- Comigo é mais o Lexotan.
- Para viver? Guronsan. Fundamental.
- Esqueçam. Dragão. Cada ida ao Dragão é menos 10 idas à farmácia. Não há melhor terapia.
- E como é que fazes nos meses de Junho e Julho?
- Pois. Sobrevivo.



#Saladejogos

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Um dó li tá

O Pedro Correia, do consolidado blogue Delito de Opinião, teve o imponderado impulso de me convidar a escrever um texto para o famoso blogue. Mal ele sabia que não ia sair nada de jeito, como podem constatar:

UM dó li tá

Sento-me no sofá, de comando na mão, ainda sem canal de destino.
Por defeito (no sentido supletivo do termo), a televisão abre o sinal com os desenhos animados.
Um dó li tá, ouvia-se de fundo.

Hesito entre os canais de notícias e de debate político – que tendencialmente se dirigem a mim – e os de desenhos animados – que tendencialmente se dirigem aos meus filhos (certo de que a segunda opção preenche os desejos destes, e com enormes dúvidas de que a primeira preencha os meus).
Um dó li tá (ficou a ressoar na minha cabeça).

Política ou desenhos animados? De repente dou por mim a pensar que não será assim tão grande a distância entre uma e outra opção. Sintomática e preocupantemente, há uma sintonia entre as diferentes sintonias. Se de um lado me oferecem a patrulha pata com a missão de defender o bem, do outro impõem-nos diferentes patrulhas com a missão de defender os seus (e, francamente, não sei se o bem).

Patrulha-Pata1[1].jpg

Preocupa-me a bolha cada vez mais nítida e distante em que habitam os políticos que nos dirigem e «representam». A cada episódio, a cada debate, a cada declaração, o fenómeno acentua-se. O modo infantil como somos tratados talvez seja o mais embaraçante. Mas a forma mais ou menos contorcida como a verdade nos é apresentada, a sensação indisfarçável de que quem nos fala de voz grossa está condicionado e é pouco livre, não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério.

Tanto nos contam (como quem conta) que tudo se deveu a um raio, como nos dizem que «se fez tudo o que era possível». Tanto nos oferecem demissões em barda de chefias menores, como nos prometem que não foi nada de especial e que o material roubado estava fora de validade. Tanto nos garantem que não houve cortes e que se batem recordes de défices mínimos, como nos enganam com termos pomposos que representam a mesma sorte (cativações, dizem). Tanto nos asseguram dignificar as vítimas com as respostas completas, como nos escondem testes prioritários de popularidade. Tanto, tanto, tanto.
Um dó li tá (não deixa de me ressoar).

Tratam-nos como se fôssemos criancinhas, sem capacidade para discernir, permeáveis apenas ao argumento de autoridade. Cada declaração, cada promessa ou explicação, transpiram falta de verdade, de pudor até, e de inteligência. Porque é pouco inteligente presumir-nos incapazes de perceber. E ainda é menos inteligente desprezar a degradação do ambiente entre «eles» e «nós». Sobra sempre a sensação de que não são livres. Para a transparência, para a verdade, para a seriedade dos «crescidos».
Um dó li tá (raios, que não me sai da cabeça).

Sinceramente, para ser tratado como criança prefiro o original.
Fico-me pelos desenhos animados e entrego-me, para gáudio dos meus filhos.

Um dó li tá, quem está livre, livre está (ouço agora a frase completa).

Parece uma declaração política. Pois. Não é assim tão grande a distância entre a política e os desenhos animados.

#Saladeestar
#Escritório

Era uma vez um menino

Quando no passeio de mão dada com a avó, nunca aquela criança – mesmo nunca – escapava à tentação da travessura. Tanto podia ser a de se libertar e fugir, como a de saltar para a rua perigosa onde circulavam, ameaçadores, os carros e as motas. E lá vinha a pedagogia clássica à volta do «era uma vez um menino».
«Era uma vez um menino», começava sempre a avó, «que ia de mão dada no passeio, fugiu e foi raptado … nunca mais viu os pais, os irmãos e os amigos …», ou então «era uma vez um menino que ia de mão dada no passeio, decidiu saltar de repente, e … foi atropelado …». «E morreu?», perguntava o aflito petiz à avó. «Morreu», respondia sorumbática a avó, convencida do sucesso do método.
As histórias do menino conheceram várias versões. Quando o apetite rareava na hora própria a versão era a do «era uma vez um menino que não queria comer, não se portava bem à mesa e então nunca mais lhe deram de comer. Passados uns dias começou a ficar fraquinho, a não conseguir falar, ou rir, ou brincar ou jogar futebol. Como não conseguia fazer nada, já ninguém queria estar com ele. E deixou de ter amigos».
Nas sonoras birras, por exemplo, a história do menino servia para advertir para a perda de voz para sempre (o «para sempre» era o indispensável ingrediente dramático).
O enredo de cada história variava em função do ponto de partida. Mas o sujeito (um menino) era sempre o mesmo e o drama do seu destino era sempre impressionante.
Quando me couber aquele papel de avó (será mais avô), repetirei algumas daquelas histórias (pouco me interessarão os méritos pedagógicos, será mesmo por homenagem). E terei mais uma para contar.
Era uma vez um menino absolutamente normal. Nasceu no Porto, cresceu, tirou o seu curso, casou e teve filhos. E quando fez 39 anos recebeu centenas de parabéns. Centenas mesmo! Ficou de tal forma embasbacado que nem sabia como agradecer (porque sabia não merecer).
E então refugiou-se num «obrigado a todos» (a sério, não disse «a todas e a todos» porque se empertigava com esses tiques do politicamente correcto).
Não. Eu sei que não é uma história com drama, não parte sequer de alguma travessura e tem duvidosa utilidade pedagógica. Mas o sujeito (um menino) é o mesmo e o desfecho é também impressionante.
Muito obrigado a «todos», deste menino que vos estima!

#Saladeestar

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Não confundam

O que mais me incomoda (e desculpem estar sempre a voltar ao tema) não é esta coisa de serem 64 ou 65, ou 80 vítimas mortais. Fossem muito menos e estaríamos sempre, obviamente, perante uma enorme tragédia. E o número de vítimas não é de esquerda ou de direita. Nem deve ser causa de disputa política. Uma coisa é uma tragédia – que todos estamos convencidos que poderia ter ocorrido às mãos de qualquer governo – outra coisa é a reacção do Estado, naturalmente tutelado por um governo em concreto.

Eu tenho profunda pena – lamento quase ao ponto de sentir vergonha – que um governo (não interessa se é da minha simpatia), num contexto como o que enfrentámos de enorme tragédia, não tenha sido capaz de transmitir uma imagem de comando, de controlo, de gestão rigorosa e profissional das operações. Lamento que nos tenha sido apresentada uma ministra da administração interna que não serve nem nunca serviu (e eu digo isto porque o meu desejo era o de que tivéssemos um titular da pasta com competência e pulso, porque os há como é óbvio no PS e na sua área de influência). Lamento que os serviços do Estado também não tenham estado à altura do momento. É a partir daí que eu passo para o chamamento à responsabilidade do Governo. Não se trata de lhe assacar a tragédia propriamente dita (insisto: seria desonesto não reconhecer que ela poderia ter ocorrido às mãos de qualquer governo). Trata-se, sim, de lhe assacar a falta de comparência e de elevação. E, obviamente, trata-se também de lhe perguntar pela bandalheira e contradição dos serviços que tutela, por essa prioridade meio macabra do «focus grupo», e pela desconfiança com que contaminou a informação sobre tudo e mais alguma coisa.

A dúvida dos últimos dias a propósito do número de vítimas mortais e dos critérios assumidos pelo Estado nessa contabilização só foi tema porque não houve essa liderança e clareza. Pelo contrário, houve opacidade, gestão de popularidade, lançamento de dúvidas e perguntas de quem esperávamos respostas e certezas (na medida em que estas fossem possíveis).

Ai afinal confirma-se que são mesmo 64 as vítimas? Ainda bem, que eu não chafurdo nem nunca chafurdei no tema. Mas lamento que o ambiente gerado pelos protagonistas principais tenha consentido a dúvida.

A pergunta é retórica: como avaliam a reacção e a organização dos vários serviços públicos e dos vários membros do governo à enorme tragédia de Pedrógrão Grande? Ocorrem-vos termos como «irrepreensível», «impecável», «organizada», «transparente» e «elevada»? Associam aos protagonistas que nos foram exibidos uma imagem de comando e liderança?

O tema não é a lista de vítimas mortais estar ou não estar certa. Não confundam. O tema, como dizia lá em cima, é esta sensação de profunda pena. Profundíssima pena. Fosse outro o governo e tivesse acontecido tudo nos mesmos termos e podem ter a certeza de que, no mínimo, diria exactamente o mesmo. Não confundam.

#Jardim

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Portugal não é a Grécia

As fraudes eleitorais não se medem tanto pelo não cumprimento de uma série de promessas (de tão generalizada e de tão esperada, essa modalidade de fraude talvez já não sirva de argumento de deslegitimação). A nova fraude eleitoral – mais impressionante e mais perigosa – é-nos revelada pela adesão disfarçada ao essencial do programa combatido e de cujo combate nasceu o mandato ou a legitimidade para governar.
Podíamos falar de Portugal (expressões como «fim da austeridade», «virar de página» ou «fim da obsessão pelo défice» soam-nos e ressoam-nos na cabeça, transpiram reserva mental e não colhem no confronto com a prática se estivermos disponíveis para a avaliar desapaixonadamente). Sobram operações superficiais de cosmética (cada vez menos eficazes) e uma generosa paciência (para não dizer conivência), das instituições e da comunicação social.

É a esta luz que a entrevista ao Guardian de Alex Tsipras, do Syriza (o irmão grego do BE) é especialmente eloquente. E só surpreende pela franqueza (essa sim, nada comum, em contraste com o costumeiro disfarce e reserva mental). Nesta entrevista, Tsipras não apenas reconhece a sua impreparação e os grandes erros que cometeu, como enfrenta a ligeireza do seu «plano B», a ilusão de uma Grécia isolada, fora da Europa e do Euro. E, no fundo (em jeito de mea culpa) assume o cumprimento de um programa que não tem nada a ver com o que apresentou ao eleitorado e que corresponderia, sem grandes diferenças, ao seguido pelo partido «deposto».
Acaba por ser extraordinário que, apesar da estrondosa e confessada fraude eleitoral, Tsipras não se coíba de se exibir «peito feito» porque – é essa a razão do seu orgulho – a ele ninguém o poderá acusar de corrupção, desonra ou aproveitamento dos recursos do Estado.
É esta a frase:
«Se for à rua e perguntar sobre o governo, muitos podem dizer ‘mentirosos’, mas ninguém vai dizer que somos corruptos ou desonrosos ou que colocámos a mão no pote de mel».

«Portugal não é a Grécia». É o que se diz…

#Escritório