- Preciso de um tempo.
- Como assim? Precisas de um tempo?
- É bom estarmos juntos, mas eu preciso de espaço, de ter tempo para mim.
- Como assim? O que se passa? O que é que eu fiz?
- Não és tu. Sou eu.
- Mas queres que eu vá?
- Sim. Basicamente. Que finalmente acabem essas férias e que vás para as aulas. Que eu preciso de um tempo. De normalidade.
#Saladeestar
terça-feira, 5 de setembro de 2017
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
Como fazer?
Hoje é dia 25 de Agosto. Eu lembro-me bem do 25
de Agosto em que o Chiado se transformou num inferno de chamas descontroladas.
Foi – com justa consternação – uma catástrofe que gerou a comoção nacional. Rezam
as crónicas que «um residente e um bombeiro morreram,
70 pessoas ficaram feridas, mais de 300 desalojadas e
outras duas mil perderam os locais de trabalho». Uma verdadeira catástrofe de
má memória.
A cidade de Lisboa em particular, mas o país
como um todo e, portanto, o Estado central, organizaram-se para reabilitar a
zona ardida, recuperando os edifícios, as ruas e as infra-estruturas.
Menos de dois meses volvidos sobre a tragédia, o Estado
criou o Fundo Extraordinário
de Ajuda à Reconstrução do Chiado (FEARC)
– ao qual sucedeu mais tarde o Fundo Remanescente
de Reconstrução do Chiado (FRRC)
– associando-lhe legislação própria, uma generosa dotação inicial do Orçamento
do Estado e mobilizando os melhores arquitectos e engenheiros do país. Fez-se o
que se devia fazer. Ter-se-á, porventura, demorado mais tempo do que o desejado
(está-nos no sangue) mas não se deixou de dedicar a atenção e os meios extraordinários
que um evento extraordinário exigia. Num Estado decente é assim que se deve
fazer.
Estamos em 2017. Passaram quase 30 anos sobre
aquele fatídico 25 de Agosto. Tivemos Pedrógão, Mação, Oleiros, a Serra da
Estrela do lado da Covilhã, e tantos mais, especialmente no norte e no centro
do país.
Já não sou capaz de saber quantas centenas de casas
arderam – muitas delas de primeira habitação. Já não sei bem quantos hectares
de floresta e de mato foram consumidos pelo fogo. Choro pelos muitos locais de
trabalho que o fogo destruiu (medidos em fábricas e armazéns consumidos). Choro
pelas centenas de feridos. E choro sobretudo pelas 65 pessoas que perderam a
vida.
Quantos 25’s de Agosto já tivemos em 2017?
Quantas catástrofes do Chiado vivemos e estamos a viver por estes dias?
Eu sei.
Pedrógão não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou
no Porto).
Mação não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou
no Porto).
Oleiros não é o Chiado e não fica em Lisboa (ou
no Porto).
A Serra da Estrela não é o Chiado e não fica em
Lisboa (ou no Porto).
O resto do país não é o Chiado e não fica em Lisboa
(ou no Porto).
Mas o mínimo que se exige é o mesmo empenho do
Estado central. No mínimo, o mesmo. Um Fundo Extraordinário
de Ajuda à Reconstrução. Legislação Especial. Dotações expressivas do Orçamento
do Estado. Um plano com os Sizas Vieiras da segunda década do século XXI.
Para que daqui a 20 ou 30 anos olhemos para
Pedrógão, Mação, Oleiros, etc, com o orgulho com que hoje olhamos para o Chiado.
Num Estado decente é assim que se deve fazer.
#Saladeestar
#Escritório
terça-feira, 22 de agosto de 2017
A liberdade ainda é de todos
Eu por acaso não acho nada indiferente que um
político se assuma na sua orientação sexual. A entrevista da Graça Fonseca ao
DN tem interesse por várias razões (deixarei para o fim a parte da revelação
sensação).
Desde logo é uma entrevista que nos dá a
conhecer uma política (no sentido de sujeito) que pensa e fundamenta a sua própria
presença na política, que tem sentido crítico, que revela elegância no modo
como vê «o outro lado» e, especialmente, como se vai desviando das perguntas
algo tendenciosas e desnecessariamente opinativas que lhe foram sendo
colocadas. Fê-lo sempre com serenidade e fundamentação e em contra corrente com
o tom populista e preconceituoso da entrevistadora – que subliminarmente lhe
pedia a adesão que ela não dava (é interessante o modo como responde, sempre
com contemporização, à generalização sobre o PSD, sobre o Partido Republicano, sobre
o fenómeno racial, ou até como procura explicar o que sabemos das tendências do
sistema de justiça no julgamento de estrangeiros).
Eu gostei da entrevista. Gostei de conhecer um
pouco mais da Graça Fonseca.
Ora, com isto eu não estou a dizer que
concordei com o que a Graça Fonseca foi dizendo, com as opiniões que foi
expondo e a mundividência política que representou. Se bem interpretei a
política Graça Fonseca, eu vislumbrei naquela entrevista alguém com quem eu me
posso entender numa sociedade plural como a que defendo. E foi por isso que eu
gostei da entrevista. Porque eu temo – temo mesmo – pela ausência de
interlocutores disponíveis, de boa-fé, com fundamentação, nas diferentes facções
do nosso espectro político.
Já quanto à revelação da sua homossexualidade
eu repito. Não acho nada indiferente que um político livremente (e este
livremente é intransponível) se assuma na sua orientação sexual. Para quem,
como eu, acha que a avaliação de uma proposta de transformação política implica
conhecer os seus protagonistas – o que passa por conhecer o seu carácter, os
seus gostos, a sua mundividência – não é indiferente conhecer a sua história,
nela podendo relevar a orientação sexual. E como há, por razões de maioria, uma
presunção de heterossexualidade (não percam tempo a qualificar a presunção),
essa revelação é mais pertinente no caso dos homossexuais. Não confundam – podem
confundir, mas estarão a deturpar – com querer saber o que cada um faz ou não
faz em casa (faço ouvidos moucos à curiosidade de sarjeta). Não confundam – podem
confundir, mas estarão a deturpar – com obrigar ou esperar de uns o que não se
obriga ou espera de outros. Não confundam – podem confundir, mas estarão a deturpar
– com «proscrição» de uma orientação sexual face a outra.
Uma sociedade livre é mesmo isto. É também a assunção
livre da orientação sexual. E é a liberdade de quem acha muito bem (a revelação
e a opção) a saudar, quem não concorda a condenar, e quem acha indiferente a
desprezar ou não ligar. Todos com a mesma liberdade pessoal. O que quer dizer –
e este ponto é muito importante – que quem acha bem não deve «obrigar» aqueles
que não concordam a concordar (com a revelação ou simplesmente com a opção ou
com a sua promoção). Porque a liberdade ainda é de todos.
#Escritório
O regresso de férias (V)
Quaisquer dois dias de trabalho (quaisquer duas ou três horas ...) servem para destruir completamente o «modo de férias». A rotina (boa ou má) regressa com uma facilidade estonteante.
Porque diabo não é assim com o «modo de férias», que chega a demorar uma semana a conquistar completamente?
#Saladeestar
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
O regresso de férias (III)
E
aproveitaste para dormir? A pergunta tem vários defeitos. O primeiro é o de
assumir que dormir é sinónimo de descanso (claro que é, não vou negar o óbvio).
Mas recuso-me a essa visão desinteressante do descanso. Eu não passo sem «descansar» à base de serões noite dentro, a conversar, a discutir, a ler, a rir, a beber um bom vinho ou uma cerveja bem gelada. E não vale a pena ter ilusões que não há como não roubar ao sono para conseguir … descansar.
E depois,
esquecem-se de um pormenor relevantíssimo e inultrapassável. Podemos dormir bem
nas férias. Aliás, convém que durmamos bem nas férias. Mas dormir mesmo bem, só
mesmo depois das férias. Confessem lá. Há ou não há uma espécie de reconciliação no regresso à cama de todos os dias? É ou não é onde se dorme melhor?
#Saladeestar
O regresso de férias (II)
Há de
certeza um conluio. Entre a EDP, as Águas do Porto, a NOS ou a MEO e,
sobretudo, muito sobretudo, a Autoridade Tributária. Todas se organizam para
nos enviarem extensa correspondência no clássico mês de Agosto. O conluio vai
ao ponto – de certeza! – de se organizarem para saberem com rigor da data da
nossa partida. Suspeito que as cartas são depositadas na caixa de correio no
justo momento em que, depois de batermos a porta do carro e arrancarmos,
desaparecemos no horizonte da nossa rua por uns dias.
E não
fazem a coisa por menos – há que concentrar em Agosto aquelas cartas com prazos
de pagamento muito curtos, garantindo-se assim o «doloso» incumprimento. E,
claro, hão-de ser justamente aquelas contas que já só poderão ser pagas nas
diversas instalações dos diferentes serviços.
Até já
acho graça ao cerimonial. Fim do mês de Agosto. Encontros marcados nos serviços
de água, luz, televisão, finanças. Ticket na mão. Bancos de espera todos
ocupados. Ar condicionado pela avaria do ar condicionado. Cartas encarquilhadas
na mão (secaram depois de terem estagiado molhadas na caixa de correio).
Semblante meio envergonhado, ou não fossem encontros de devedores …
#Saladesestar
Regresso de férias (I)
Vivo os dias de férias (mais os primeiros, quando ainda não desliguei completamente, e o último, quando volto a ligar) com aquela pedra clássica no sapato. Aposto que deixei a luz da dispensa ligada. Aposto que a torneira da casa de banho dos miúdos ficou mal fechada e passou semanas a pingar e a gastar água. Aposto que deixei qualquer coisa na cozinha – ou o lixo por deitar no contentor, ou meia dúzia de batatas, ou um pacote de leite aberto – que infestou a casa com um cheiro desagradável. Aposto que os miúdos deixaram um qualquer aparelho electrónico ligado. Entre assaltos de pânico (não é bem pânico, é uma ligeira aceleração do coração) e suspiros de «que se lixe, depois vê-se» (não há outro remédio, temos de desligar, que não dá para passar as férias em sobressalto), a pedra no sapato volta e meia faz-se sentir. E não é propriamente agradável.
Chegou o dia. Levo a mão ao bolso. Selecciono a chave de sempre (caramba, como até sabe bem regressar aos banais objectos de todos os dias). Estou naquele momento em que a chave penetra e a faço rodar na fechadura (é o auge da tensão e da dúvida - como estará tudo? O que me será revelado por trás da porta?). Acendo a luz.
Sabe bem tirar a pedra do sapato.
#Saladeestar
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