segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O acantonamento da vida não é saudável

Nunca o escondi. Sempre o afirmei. Cada vez mais o sinto.
A defesa da vida (que em linguagem directa, passou e passa por não aderir ao aborto livre e, por estes dias, se traduz também na resistência à eutanásia) é uma causa tão séria como nobre.
Aliás, não tenho dúvidas que é uma causa justa – porque é de «justiça» que cuidamos quando um ser indefeso é protegido para poder viver, como é de «justiça» que falamos quando, num momento terminal, esperamos do Estado (pelo menos, também) respostas diferentes da «solução final».
Repare-se que os actos consequentes de quem milita ou reivindica a proeminência da vida são, em boa verdade, actos consensuais e naturalmente louváveis. A assistência a mulheres com dúvidas ou dificuldades, bem como a prestação de cuidados paliativos a quem sofre, não são – não podem ser! – matéria de facção, objecto de resistência ou de divisão. Estou certo que qualquer pessoa de boa-fé, mesmo que não se reveja num quadro de valores em que o da vida figura como prioritário, reconhece a justeza de uma sociedade que se organiza para prestar assistência a mulheres com dúvidas ou dificuldades, promovendo o nascimento dos seus filhos, e reconhece quão importante é dispormos de uma rede de cuidados paliativos ao serviço dos que mais sofrem.

Vistas as coisas assim é muito difícil compreender o acantonamento a que vão sendo votados os que se dedicam a estas causas. Nos partidos, nos media, e no espaço público em geral, quem ousa promover a causa da vida merece pouco mais que os mínimos olímpicos de cobertura e atenção. E mesmo essa cobertura, quando existe, é tendencialmente menorizante e pouco abonatória (o que contrasta com o tratamento de que gozam os que, com a mesma liberdade e legitimidade, militam em favor da liberalização).

Este fim–de-semana, por exemplo, organizaram-se caminhadas pela Vida. Aqui no Porto, no percurso pacífica e ordeiramente percorrido entre o Largo da Sé e a Praça dos Leões, não sei bem quantos seríamos. Talvez 400, 500, 600. Em números «sindicais», talvez milhares. Não sei. Sei que fomos ignorados. Que «nada aconteceu», para quem, pelos media, quis saber o que aconteceu. Qualquer acampamento político com 50 jovens. Qualquer manifestação com 5 ou 6 professores. Ou 20 ou 30 funcionários públicos. Ou 10 ou 20 enfermeiros. Um qualquer «desses legítimos números» consegue ampla reportagem, chega a lograr uma primeira página de jornal ou mesmo um directo na televisão. Nós, não.

É certo que estiveram lá mais que 50 jovens (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). É certo que estiveram lá mais que 5 ou 6 professores (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). É certo, também, que estiveram lá mais que 20 ou 30 funcionários públicos (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). E estiveram lá mais que 10 ou 20 enfermeiros (não estiveram lá nessa qualidade, é verdade). Ou então, talvez seja isso que nos falta. Invocar outras qualidades. Porque por muito absurdo que pareça, por estranho que seja face à representatividade que ainda lhe assiste, a militância da vida, pelos vistos, vive acantonada e não existe.

Temo sinceramente por uma sociedade, como esta, em que a defesa da vida é militantemente acantonada. Porque o acantonamento da vida não é saudável.

#Jardim
#Escritório

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

3 pontos


1. Jogo difícil. Adversário ultra competitivo. Nada previsível. Percebe-se bem porque foi “só” o segundo classificado do campeonato alemão.

2. Fizemos o segundo quando estávamos à procura dele. Não caiu do céu. Mas nem sempre, mesmo quando o merecemos e procuramos, o golo aparece.

3. 3 pontos contra uma equipa alemã num jogo de Champions são 3 pontos contra uma equipa alemã num jogo de Champions. E o resto é conversa.

#Saladejogos

Cumprindo Tourais

Nestes dias em que cumprimos com os nossos - e neste ano ainda mais especialmente - cá estamos.




#Jardim

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Inés Arrimadas

Mesmo para alguém, como eu, que não tem «lado» porque não se sente habilitado a compreender inteiramente nem a aspiração independentista catalã nem a convicção autonomista com a integração no Estado espanhol, há um lado a que não resisto. O dos protagonistas.


Olhamos, ouvimos e estudamos a figura do Pudgemont (há meia dúzia de meses nem o difícil nome sabíamos pronunciar). E olhamos, ouvimos e estudamos a figura de Inés Arrimadas. Ignorem por momentos (eu sei que é difícil) a questão estética – e quem me conhece sabe como não desprezo a estética na política. Fixem-se simplesmente na postura, nas intervenções, no conteúdo. Se em Pudgemont sentimos o oportunismo, a vacuidade estratégica, a coragem titubeante, em Inés Arrimadas, sentimos a convicção, a militância democrática, a coragem genuína. E – regressemos à estética – a fluência discursiva, a indumentária sóbria e elegante, o tom doce e firme, fazem de Inés Arrimadas uma líder invejável. Sorte a dos Catalães.

#Escritório

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Vou ser muito directo


300 Milhões de Euros. Sim, 300 Milhões de Euros.
Na sequência da catástrofe dos incêndios deste ano, é esta a verba (300 Milhões de Euros) que o Governo anuncia com pompa e circunstância. Parte desse montante são, aliás, linhas de crédito.
300 Milhões de Euros para recuperar o território, a floresta, casas, instalações industriais, estradas, infra-estruturas… Só quem não conhece a imensidão de território que está em causa é que pode ficar calado.
Eu não sei que país é este. E poupo-vos a exercícios de comparação. Mas 300 Milhões de Euros foi, por exemplo, o que o Estado gastou na estação de metro do Terreiro do Paço.
Uma estação de metro para o interior ... sinto vergonha.


#Escritório

Reportagem (do inferno)

Foi assim. Em Tourais foi assim.















#Jardim

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sem cálculo e sem clubite


Vivo, por estes dias, muito impressionado. E uma das coisas que me tem impressionado é que perante eventos tão graves e tão profundos haja resistência ou impulsos de clubite. Estamos a falar de vidas (muitas!). Estamos a falar de meios elementares de subsistência. Estamos a falar da viabilidade de grande parte do nosso território comum. Perante isto, perante tamanha catástrofe, é absurdo medirmos as nossas reacções. É absurdo que nos preocupemos em estarmos alinhados com os «nossos», que evitemos dizer o óbvio para não afectar ou o governo ou a oposição (dependendo de quem forem os «nossos»).
Eu digo-o com todas as letras. Quero lá saber se o governo é de direita ou de esquerda. Quero lá saber se é do PS, do PSD, do CDS, do PCP ou do BE. Eu e todas as pessoas com quem vivi o inferno de domingo e da madrugada de segunda não queremos saber.
O que sabemos, sem clubite (porque somos livres para o dizer) é que quem circunstancialmente está à frente dos nossos destinos não tem (não teve comprovadamente) a capacidade para nos proteger, para nos interpretar, para nos levantar sequer.
E estamos a falar do que é absolutamente elementar.
É um governo PS (com apoio do PCP e do BE) que nos governa hoje? Se fosse um governo do PSD e do CDS eu, nas mesmas circunstâncias, diria e faria exactamente o mesmo. Porque as vidas, os meios elementares de subsistência, a viabilidade de grande parte do nosso território, não são de esquerda ou de direita. E valem mais – e antes do mais – que qualquer número de economês e politiquês, que qualquer afinidade ou alinhamento. São vidas senhores!
Claro que me manifestarei no sábado.
Sem cálculo e sem clubite.


#Jardim