terça-feira, 13 de março de 2018

Onde estavas em 1987?

É tal a unanimidade. É tal a generosidade nos elogios. É tal o génio. Que me pergunto.
Como foi possível o resultado de 4,4% e apenas 4 deputados?

#Escritório

A ambiciosa ambição do CDS

Há um certo desdém relativamente à ambição do CDS e de Assunção Cristas em pretender liderar o espaço à direita e ao centro-direita.
Nesse desdém é sempre destacado o ponto de partida, numa espécie de apelo sarcástico ao realismo. As sondagens, a (ainda) parca implantação do CDS em todo o território, a história do partido. Tudo concorre para que a apregoada ambição não seja mais do que mera boutade política.
Não vou contestar tudo isso. Até porque é óbvio que os partidos são também a sua história.

O dado que verdadeiramente baralha os cépticos tem a ver com as pessoas. Porque os partidos não são só história. São também os seus programas, as suas ideias e as suas pessoas. Ora é destas - das pessoas - que advém a ambição.
As pessoas que o CDS vem agregando, a dinâmica de atracção de «boas cabeças», a capacidade de preencher os lugares relevantes com gente que compara para (muito) melhor com a «concorrência», justificam aquela ambição. Legítima ambição (apetece dizer).
Mesmo os mais exigentes não resistam a um exercício simples.
Escolham as 5 pessoas da vossa preferência na direcção de cada partido. Escolham 8 deputados da vossa preferência em cada bancada. Olhem ainda às pessoas que em cada partido estão a pensar o respectivo programa. E comparem os líderes partidários.
Vão ver que a resistência (e a exigência) para votar no CDS vai ceder. E às tantas a ambição do CDS não será assim tão ambiciosa.

#Escritório

O Congresso do CDS

Já faltou mais ao CDS. Já não vive propriamente no tempo das notas de rodapé. E já há debate e análise profícua de quem, há muito pouco tempo, não lhe ligava nenhuma (sintomaticamente não faltam directos e comentadores afectos em exclusivo ao congresso).
Há um dado que talvez valha a pena sublinhar. Porque é verdadeiro, porque é palpável e sobretudo porque é significativo. A dimensão e dinâmica do CDS já não são disfarçáveis. A cada encontro aparecem novas caras. A cada contagem surgem novos militantes. A cada desafio correspondem novos e surpreendentes protagonistas.
O país mediático e as sondagens que se publicam não o revelam ainda. Mas é verdade. O CDS atrai, está pujante e solto.

#Escritório

quinta-feira, 8 de março de 2018

Destino Anfield


Destino Anfield (I)

Acho-me sempre transportado por uma áurea diferente. Sinto-me em “missão”, cumprindo um dever e respondendo a uma chamada.
Começa no check-in. De entre os milhares de passageiros - que se sujeitam ao controlo dos seus haveres e à apalpação de segurança - há logo vários olhares que se cruzam. São os co-missionários em identificação recíproca. O peito parece que incha nestes momentos.
Vamos descolar. Começou.


Destino Anfield (II)

- Já cá estás?
- Estou à espera do autocarro para Londres.
- Vem ter ao pub. Já nos juntámos oito.

E lá estavam os oito. A quem dei e de quem recebi os primeiros abraços. Os primeiros pints. As primeiras projeções. Já está a ser bom.

Destino Anfield (III)

Acorda! Vamos! A andar!
Não sei porquê, mas nestes momentos há uma suspensão colectiva da desordem. Ninguém corre o risco de falhar. Estamos todos, antes da hora combinada, a tomar as primeiras cevadas da manhã. Cumpre-se a etapa complementar da trasferta. Londres-Liverpool. Duas horas e tal que nem se sentem (de tão preenchidas). Mata-se a sede (há sempre muita sede nestes ambientes). Matam-se saudades (vimos de várias origens). Mata-se o sono também (nunca é pior carregar alguma energia para a jornada exigente).



Destino Anfield (IV)

Cumpridos os trâmites clássicos - chegar ao destino, fazer check-in no albergue, envergar a malha sagrada - segue-se a concentração. Não no sentido de estar concentrado mas antes no sentido que mais gosto - o de encontro e reunião. Somos imensos (de latitudes tão diferentes e algumas tão imprevisíveis) mas todos entregues.
O prazer deste encontro (não escolhi a palavra “prazer” ao acaso) é quase inexplicável. Estamos na segunda mão de uma eliminatória, jogando fora depois de uns humilhantes 5-0 em casa. Não somos campeões há 4 anos. E vamos jogar na casa do Liverpool - essa Meca do futebol que é Anfield. E mesmo assim não houve desmobilização. Talvez estejamos mais ainda - mais do que seria normal. Pois, justamente, normal é a palavra errada. Não há padrão de normalidade em tudo isto. A vontade e a disponibilidade desta gente não se justificam num quadro de normalidade.

Destino Anfield (V)

Richmond Pub, Williamson Street, Liverpool. Assentámos arraiais. Encontrámo-nos e reencontrámo-nos. Ensaiámos o que havia a ensaiar. E pusemos os rins a funcionar a um ritmo alucinante (faço-me entender não faço?). De meia dúzia, no início, passámos a centenas. Aquele pub mais parecia um café Velasquez, um café estádio, um Pião.
Acho que foi no Richmond que se confirmou que a prestação em Anfield ia deixar marcas. Fomos felizes no Richmond.




Destino Anfield (VI)

Deixámo-nos ficar no Richmond e não seguimos na “caixa”. Pudemos receber os retardatários da concentração. E pudemos confirmar a afinação das gargantas e, inevitavelmente, quão bem funcionam os rins.
Vamos a pé ou de autocarro?
E que tal se nos misturarmos com os adeptos do Liverpool? É isso. Vamos na carreira como se fôssemos de cá (estamos “bem dispostos” e somos pessoas de bem).
Se foi boa opção? Se houve algum problema?



Talvez responda numa frase. Começou Anfield naquele autocarro. A prestação que impressionaria os anfitriões viveu-se ali em antecipação. Aquele “78” foi um ensaio eloquente. Já ali foi o fim do mundo.

Destino Anfield (VII)

Pausa. Agora não é sobre nós. Fomos e somos especiais. Tudo bem. Já falarei do que se viveu naqueles 90 minutos em Anfield. Mas não posso deixar de falar deles. Dos espaços deles. Da entrega deles.
Nunca vi nada assim.
Na cercania daquele mítico estádio mora o The Park (um pub meio discreto que de fora não faz adivinhar o que está lá dentro). O The Park é só um hino do amor ao clube, um templo da entrega ao clube, uma lição da fidelidade aos que fizeram a história do clube.
Por uma porta lateral controlava-se a entrada. Pusemo-nos na fila ainda sem saber se seria suposto consentirem a nossa ousadia. Quando nos apresentámos na porta tivemos o primeiro sinal (podem entrar mas fechem os casacos e guardem os cachecóis - aqui somos só “nós”). Percebemos e respeitámos. E entrámos.
Que loucura! Que pub inacreditável! Enorme, apinhado de adeptos ensurdecedores, com sinais por todo o lado da grandeza e da singularidade deles, adeptos, e do clube (“We are Liverpool! Respect our heritage. Don't sing shit songs!” - lia-se no palanque ao fundo). Não dá para contar muito mais. Só visto e vivido. Diria, ainda assim, que se algum dia sonhasse um lugar para “aquecer” antes dos jogos teria ficado muito aquém daquele pub.
Respeito e admiração.


Destino Anfield (VIII)

De tão inebriado que fiquei no pub deles quase que perdia o icónico “You'll Never Walk Alone” e a balada clássica da Champions (que ao vivo, para mais a jogar fora e em Anfield, me deixou com pele de galinha, apesar dos muitos agasalhos).
Não desilude. Anfield não desilude. Aquelas bancadas carregadas de fiéis até lá acima. Aquelas malhas sagradas em formação alinhada (as nossas e as deles). E aquelas vozes ensurdecedoras. Anfield não desilude, de facto. Mesmo não sendo um estádio perfeito - é até bem limitado e incómodo - está ali, fiel às origens. Fiquei com a sensação de que seríamos demais para o espaço que nos destinaram. Mas até isso sabe a genuíno.

Destino Anfield (IX)

Não sei se leram ou ouviram. O que vou dizer não é nem inventado nem exagerado.
Nós, adeptos do Porto, naquele canto bem arrumados e apertados, demos um recital. Enquanto os nossos 11 cumpriam dentro das quatro linhas, da bancada recebiam uma entrega incondicional e ensurdecedora como não há memória.
Foi de tal forma que diziam de nós que estávamos em casa (Anfield foi nosso, senhores!).
Não foi coisa pouca, devo dizer. Este jogo, mesmo num contexto de eliminatória “resolvida”, tinha muitos riscos. Diria que a correr tudo bem saíamos sem mácula. Pois a verdade é que foi melhor do que isso. Não só não confirmámos nenhum dos riscos como saiu reforçada a confiança e a vontade de sermos campeões.
Tenho para mim que o “Eu quero o PORTO campeão” ainda deve estar a ressoar em Anfield.

Os aplausos sentidos que nos destinaram (do campo e das demais bancadas) foram justos. Mas mais justo será que se atenda ao nosso pedido. Eu quero o PORTO campeão!!!

Destino Anfield (X)

Estou com algum receio do que vou dizer. Pode soar a blasfémia. Admito.
O regresso ao centro de Liverpool e o jantar depois do jogo foram inacreditáveis. Ao ponto do meu coração balancear se lhe pedirem para escolher “o momento” da trasferta (soa a blasfémia não soa?).

O que vos digo é que entre pints e mais pints, entre mesas bem servidas para rechear os carecidos estômagos, entre cânticos e abraços, viveram-se momentos que a história de cada um de nós recordará para sempre. Quando achávamos que já era tempo de desaceleração e de rescaldo não imaginávamos que íamos dar início a outro tanto. Que loucura! Que momento!
De todos - e éramos muitos - fica um abraço ao Patrono Fratello (dono do restaurante). A ele, que nos instigou e incendiou sem freio, ficámos a dever a diferença entre um jantar porreiro e um jantar memorável.

#limoncellopertutti

Destino Anfield (XI)

Foi bom? Não. Quando a pergunta é desconcertante a resposta é não. Porque a pergunta não pode ser se “foi bom”, porque foi muito mais que isso.
Esta trasferta fica para a história. Teve demasiados momentos e cumplicidades.
Termino com um abraço a cada um dos 17 compagnon de route. Que qualidade meus amigos. Que qualidade.
Foi bom? Não. Não sei o que foi. Ainda estou a digerir.
Mas uma coisa eu sei.
Eu quero o PORTO campeão!

segunda-feira, 5 de março de 2018

Deixem-no trabalhar


Sobre a contratação de Passos Coelho não terei muito a dizer. É tão óbvio o interesse em dispor de um ex-primeiro ministro como docente que só por mesquinhez (ou estupidez mesmo) se critica ou reage pejorativamente.
Mas eu tenho por certo – por certíssimo – que fosse qual fosse o destino profissional de Passos Coelho o coro de indignados, de suspeitas, de teorias da conspiração seriam certezas de favorecimento inaceitável (para dizer o mínimo).
Fosse um banco ou instituição financeira (credo!), um escritório de advogados ou consultora (cruzes, credo!), uma empresa de energia ou de construção (cruzes, credo!, outra vez), Passos Coelho e a instituição que o contratasse estariam pela certa sob suspeita.
Com tantos impedimentos éticos, e num quadro de exigência tão estrita, chego a perguntar-me que destino impoluto e insuspeito pode ter no mercado de trabalho um ex-primeiro ministro que não seja rico, que viveu do salário de primeiro ministro e que precise (e queira) legitimamente trabalhar.

#Escritório

quinta-feira, 1 de março de 2018

Cara de pau

- Atenção que se queres vender a tua casa o Estado obriga-te a ter a certificação energética!
- Ah, mas os edifícios do Estado, na sua maioria, não têm certificação energética!
- Uma coisa és tu outra é o Estado.

- Atenção que se queres evitar multas pesadas tens de limpar os teus terrenos.
- Ah, mas muitas das placas danificadas pelos incêndios ainda não foram substituídas e há muitos terrenos do Estado que nunca são limpos!
- Uma coisa és tu outra é o Estado.

- Atenção que tens que pagar ao Estado no prazo exacto o IRS, o IVA, o IMI, o IUC, e entregar mil e uma declarações, sob pena de coimas, juros e execuções sem freio nem piedade.
- Ah, mas eu tenho a receber do Ministério da Saúde uns milhares de Euros pelos fornecimentos feitos há dois anos pela pequena empresa que criei (o que me tem impedido de eu próprio receber o meu salário). E tenho imposto a receber de umas liquidações de imposto que eu tinha pago e que foram anuladas pelo Tribunal há um ano.
- Uma coisa és tu outra é o Estado.
- Espera aí, essa coisa do «uma coisa és tu outra é o Estado» é uma forma de dizer que o Estado não tem autoridade moral?
- Em linguagem de doutores sim. Diz-se «não tem autoridade moral». O povo dirá «é preciso ter cara de pau».
- Gosto mais dessa. Cara de pau.


#Saladeestar

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Pelo contrário


Desculpem, mas não estou com os indignados.

Nunca gostei daquela escarpa abandonada, com lixo e matagal selvagem. Como nunca gostei da anterior fábrica de cimento (sim, fábrica de cimento!, parece que já nem nos lembramos …). De um modo geral, entre os vários «antes» e «depois» que conheci ou conheço ao longo da marginal, o único que verdadeiramente não gosto (e já tem muitos anos) é a bomba da Repsol. De resto, que se reabilite. Que se construa com estética (como parece ser o caso da polémica destes dias). Que se limpe. Que se dê vida.

E sim. Gosto dos edifícios de habitação tal como constam nas imagens do projecto.

Aliás, quando olho para aquela escarpa penso noutras escarpas e lugares. Penso na escarpa da Ribeira, por exemplo (e que bem que ficou aquele denso casario …). Penso na antiga praça da câmara municipal (e que majestosa que ficou a Avenida dos Aliados …). Penso até no casario que ocupava o que hoje é a Avenida da Ponte (e que importante foi para a incrível Ponte D. Luís …). Talvez claudique quando penso no antigo Palácio de Cristal (que não conheci mas cujo nome chegou até hoje).
Por mim não sou adepto do «não se mexa», «não se inove», «não se construa». Antes pelo contrário. Bem antes pelo contrário.