terça-feira, 3 de julho de 2018

Bela lição


Pode não parecer nada de especial. Mas olhem que é. Isto dos japoneses saírem do estádio, depois de um jogo dos oitavos de final de um mundial (em que foram eliminados no último segundo), deixando o balneário irrepreensivelmente limpo com um bilhete a agradecer, é notável.
Não é só porque objectivamente é bonito e fica bem. Não é só porque percebemos que é genuíno e natural (não se trata de um «número» isolado para a fotografia). E não é só porque contrasta com o comportamento dominante (que nem eles nem eu pretendo criticar).
O que aprecio mais é a oportunidade que os japoneses não perderam. A oportunidade de, estando perante uma audiência global, darem o exemplo, interpelarem, influenciarem.
A verdade é que ficámos todos a pensar como deveria ser sempre assim. Como deveríamos nós, adeptos, recolher os nossos próprios despojos antes de abandonarmos um estádio (e quem diz um estádio diz qualquer local público que tanto pode ser uma praia, um parque ou um recinto de concertos). Como deveríamos nós, desportistas (amadores ou profissionais, importantes ou não), cuidar dos espaços que frequentamos. Como, independentemente da fortuna de uma disputa, deveríamos sempre agradecer quem nos acolhe. E sempre com absoluta naturalidade.
Educação (pelo exemplo) é isto. E que bom que os japoneses não desperdiçaram a oportunidade de nos darem esta bela lição.


#Saladeestar
#Saladejogos

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Futebol e vinho entre Trump e Marcelo

Acho, sinceramente, muita piada às reacções geradas pelo encontro na sala oval entre o Trump e o nosso Marcelo.
Por várias razões, devo dizer.
A primeira delas é pela extraordinária versatilidade que aquele momento proporciona. Está ali um momento para quaisquer gostos e preconceitos.
Reparem bem.
Para quem gosta do Marcelo todo aquele diálogo serviu para os mais rasgados elogios. «Lição de história!», «Classe de Marcelo», «É assim mesmo, Portugal não é os Estados Unidos!». Já para não falar do à vontade e da postura em geral notável de Marcelo.
Para quem não gosta ou não é um indefectível de Marcelo o diálogo serviu para demonstrar o quão ridícula foi a abordagem. «Falar de futebol? Por amor de Deus!», «E de vinho?», «Não havia nada mais importante para falar com o presidente dos Estados Unidos?». Tudo aquilo foi ridículo e constrangedor.
Mas a versatilidade continua. Reparem agora.
Para quem não gosta de Trump a conversa foi uma ilustração lapidar do confronto entre um ignorante (Trump, claro) e o professor (Marcelo, naturalmente) – meteu lições de história, de vinho e de futebol, em que Trump sorria meio atarantado ante a sapiência e superioridade do nosso Marcelo (que até saiu vencedor do confronto do bacalhau!). Trump não estava preparado (aposto que nem foi «briefado» para o encontro).
Para quem gosta de Trump (ou talvez para quem não hostiliza Trump) o diálogo serviu para demonstrar a sua simpatia e disponibilidade (que é o presidente dos Estados Unidos da América, não esqueçamos o peso do cargo) para com o Chefe de Estado de um país como Portugal.

Não vou contrariar nenhuma das leituras. Estão todas certas, devo dizer. Afinal, é por essa razão que achei piada ao momento.
Mas e a segunda razão? Não eram várias as razões para ter achado piada?
Várias talvez seja exagero. Mas há uma segunda (a mais curiosa, devo dizer).
É que mantém-se o mito de que as conversas entre Chefes de Estado – os cumprimentos nas residências oficiais, nas cimeiras pomposas ou jantares – são sempre momentos de grandiloquência e profundidade. Continua meio mundo a achar que entre apertos de mãos para as fotografias, entre imagens de encontros frente a frente ou lado a lado com câmaras na sala, os protagonistas tratam das grandes questões do mundo, ponderam posições e opções delicadas e marcam a história para todo o sempre.
Não me levem a mal se vos desfizer a ideia romântica. Não. Naquelas ocasiões fala-se de tudo e mais alguma coisa com um único propósito: evitar silêncios, gerar expressões de boa disposição e passar a ideia de boas relações (ou propósito de boas relações, pelo menos).
E sim. Fala-se de futebol, de vinho, de meras curiosidades. Como pessoas normais (que às tantas até serão … outro mito ...).

#Saladeestar
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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Fernando Guedes

Serão relativamente poucos os grupos económicos de relevo em Portugal. Desses grupos económicos também não serão muitos os que lograram internacionalizar-se ao ponto de se poderem dizer multinacionais. E desses grupos ainda serão menos os que se poderão afirmar de referência mundial na sua área de actividade.
A Sogrape de Fernando Guedes foi e é um desses raros exemplos. E o que é mais extraordinário é que essa referência que a Sogrape protagoniza se fez com os ingredientes que qualquer «business plan» rejeitaria.

A Sogrape baseou-se a norte, em Vila Nova de Gaia (baseou-se mesmo, não se ficou pela cosmética de uma sede simbólica, para depois instalar os seus administradores na cercania da Presidência do Conselho de Ministros). Criou centenas de empregos (mais e menos qualificados) quer no próprio grupo quer à sua volta. Insistiu num sector tradicional – o vitivinícola – emprestando-lhe uma dinâmica de organização e empresarialização notáveis. Olhou com olhos de ver para o interior e o seu território meio esquecido – enviando e atraindo profissionais, destinando investimento, criando estruturas de futuro. Lançou-se, depois, ao mundo (foi mesmo até ao outro lado do mundo!). E sempre a partir do improvável (e não simbólico) norte de Portugal. Eu, que não sou um especialista no sector dos vinhos (poupo-vos à graçola de que sou um especialista de copo na mão), fico sempre meio embaraçado (qual devedor perante o credor) quando olho para um legado como este.

Não sou muito dado a juízos de justiça pela morte (a frase feita de que a morte é muito injusta é sobretudo uma manifestação natural, humana e irresistível de incompreensão). Mas já sou dado a juízos de justiça pela vida.
É certo que, de um modo geral, foi dado algum eco da partida, aos 87 anos, de Fernando Guedes. Mas num país que faz capas com tanta gente – notável, seguramente – há uma justiça que fica por fazer. Nem que seja por comparação.
Podia dar o exemplo de Anthony Bourdain (o Pedro Boucherie Mendes dizia mais ou menos o que aqui digo ilustrando com o exemplo de Bourdain). Eu ilustraria com o exemplo do fundador do Lux (desculpem dizer fundador do Lux porque, ignorante como sou, e com todo o respeito, tive de ir ao Google para saber que se chamava Manuel Reis).
Fernando Guedes não «mereceu» as capas que os jornais ofereceram a Bourdain ou ao Manuel Reis do Lux. Esta mera constatação é todo um programa sobre o que somos colectivamente e sobre quem nos interpreta nos media.

Porquê que somos assim? Não sei. Talvez não houvesse capas que justificassem (que fizessem devida justiça). Talvez seja isso.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Questões verdadeiramente importantes


- O que é que interessa o Bruno de Carvalho ou o Lopetegui, ou as rescisões, ou a greve dos professores, ou o Kim e o Trump?
- Como assim, não são questões importantes?
- Não interessam nada, pá.
- Então o que é que interessa?
- O que é que interessa? Há questões que há dezenas de anos que estão por responder!
- Quais?
- Por exemplo:
Que outros Santos, para além do Santo António, se festejam em Lisboa no mês de Junho? Ai «vou aos Santos» - dizem todos - mas eu só os vejo a festejar o Santo António. Quem são esses outros Santos de que ninguém fala?
- Bem visto.
- E outra incontornável:
«Santo António já se acabou, o São Pedro está-se a acabar, São João, São João, São João, dá cá um balão para eu brincar».
- É uma música tradicional. O que é que tem?
- O que é que tem? Então o Santo António é dia 13 e antes do São João. O São João é dia 24 e antes do São Pedro. O São Pedro é dia 29.
Porque raio no São João se canta que o São Pedro está-se a acabar se o dia ainda nem chegou?

#Saladeestar

terça-feira, 12 de junho de 2018

Trump / Kim – é a Paz que importa

O «mas» que se coloca, a «reservazinha», a dificuldade ou mesmo desconforto em reconhecer o sucesso que é juntar os dois Presidentes – o dos Estados Unidos da Améria e o da Coreia do Norte – é todo um programa.
O embaixador Francisco Seixas da Costa – sempre tão interessante e tão bem documentado – logo veio lembrar (como quem diz que o acontecimento é só um bocadinho melhor) a visita à Coreia do Norte de Madeleine Albright em 2000. Talvez essa visita esteja ao nível da de Mike Pompeo (que já lá foi duas vezes este ano).

O encontro de Presidentes de hoje, por muito que queiram desvalorizar por ser Trump, é objectivamente importante para a pretendida Paz para a Península da Coreia e para a aquela região do mundo (e não tem «cromo para a troca»).
Para quem gosta ou pelo menos não hostiliza Trump também não precisará de exagerar com exigências do tipo «Nobel da Paz!» – esses exageros só aos «bons» são consentidos (e conseguidos). Mas para quem não gosta e combate a todo o transe o actual presidente dos EUA recomendo que não se perca no meio dos seus sentimentos. É que há eventos ou conquistas que têm valor por si, independentemente de gostarmos ou não dos protagonistas. E quando estamos a falar de avanços na Paz não podemos ceder nem deixar suspeitas relativamente ao essencial das nossas convicções. Em assuntos de tão extrema importância não nos fica bem a reserva de clubite. No caso, é a Paz que importa.

#Escritório

Nunca pensei que demorasse tanto


Enganei-me completamente. Eu achava que ao fim de um ano não haveria um jogador de qualidade que quisesse ir para o Sporting (e quem diz um jogador diz um treinador). Os termos de qualquer negociação, a relação avessa com a verdade e a previsibilidade, a quase irracionalidade, haveriam de ditar o fim de Bruno de Carvalho. Sempre esteve à vista de todos. O calvário dos preços absurdos, as cláusulas gulosas anti rivais, as condições remuneratórias chico-espertas. Tudo (e tanto mais) manifestações que nunca foram expressão de genialidade e de boa gestão. A qualquer renovação, transferência ou empréstimo, estavam invariavelmente associados episódios caricatos e absurdos.



O que é paradoxal é que se é verdade que são essas características de Bruno de Carvalho que ditam a desgraça do momento do Sporting, é também verdade que foram essas características que ditaram a aparente glória financeira que todos ressalvam e lhe louvam.


Ao contrário do que pensavam (e porventura muitos ainda contemporizarão) Bruno de Carvalho nunca foi bom para o Sporting. A irracionalidade, a chico-espertice e a loucura até podem resultar transitoriamente. Mas acabam sempre mal. O método foi sempre mau.


Eu achava que seria um processo natural e não muito demorado – antecipei que bem cedo Bruno de Carvalho estaria exposto. Enganei-me.


Demorou mais o tempo em que os jogadores iam para o Sporting apesar do clube ser presidido por Bruno de Carvalho. E chegou mais tarde o tempo em que os jogadores já não querem o clube presidido por Bruno de Carvalho apesar de ser o Sporting.

#Saladejogos

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Cecília Meireles

A militância partidária faz-se muito da tensão entre os equilíbrios internos (que se exprimem especialmente nos actos eleitorais para as estruturas partidárias) e a capacidade de estar aberto a quem olha de fora, a quem tem verdadeiramente o poder eleitoral de tornar relevante cada partido (até porque é dessa relevância que depende, depois, a capacidade de dar expressão ao programa do partido). Quanto mais valorizada for essa capacidade de interpretar quem olha de fora, em detrimento da sensibilidade para os equilíbrios internos, maior será a relevância do partido e, portanto, maior será a expressão que o programa do partido terá na vida colectiva (afinal, é esse o verdadeiro propósito). Se quiserem, numa frase, muito mais importante que agradar aos militantes importa compreender e corresponder aos eleitores. E se os militantes perceberem isso não chegará, sequer, a haver qualquer «oposição» entre uns e outros.
No caso do CDS, onde milito, essa abertura a quem nos vê de fora tem tido particular expressão nas pessoas que vem agregando à sua volta, na dinâmica de atracção de «boas cabeças», na capacidade de preencher os lugares relevantes com gente que compara para (muito) melhor com a «concorrência».
E em certa medida, é das pessoas que advém a ambição do CDS no actual contexto do centro-direita político.
Mesmo os mais exigentes sabem que na direcção nacional, na bancada parlamentar, na elaboração do programa do partido, o CDS agrega pessoas qualificadas e com capacidade de alargar eleitoralmente o partido.

Há pouco mais de dois meses, quando integrei a lista da Isabel Meneres Campos para a concelhia do Porto, experimentei com especial acuidade o que representa isso da tensão entre os equilíbrios internos e a capacidade de estar aberto a quem olha de fora. Pouco me interessaram aqueles, devo dizer. Estive e estou com a Isabel pelas melhores razões.
Agora, o calendário eleitoral interno coloca-nos perante a escolha de uma nova liderança para a distrital do CDS Porto (a maior distrital do partido).
Não sei, sinceramente, que melhor critério deva seguir que não seja o de procurar interpretar o nosso eleitorado. Imagino as questões que se possam colocar. Que liderança pode desafiar mais e melhor o CDS e os eleitores do CDS? Que liderança pode projectar mais e melhor a influência e a presença do CDS na nossa vida colectiva? Que liderança pode gerar a confiança que os eleitores do centro-direita querem e ainda procuram?

Eu vejo na Cecília Meireles essa líder. Enquanto deputada e vice-presidente do Partido, reconheço-lhe uma invulgar capacidade de trabalho, de dedicação, e sobretudo, de competência política. Reconheço – o que não é menos importante – que quem nos vê de fora lhe reconhece essas qualidades políticas. Se esta constatação não fosse já suficiente, valeria a pena olhar ao modo generoso, humilde e entusiasta com que se apresenta a eleições para a liderança da Distrital do Porto.
Ora eu não estaria a ser consequente se não oferecesse à Cecilia Meireles o meu apoio – e mais que apoio, a minha participação. Seria até um desperdício não aderir à ambição da Cecília.

Há também um sinal político que o CDS pode retirar deste acto eleitoral interno (e nós sabemos bem como têm valor os sinais políticos). Depois de uma líder nacional – Assunção Cristas –, depois de uma líder concelhia – Isabel Meneres Campos –, podemos ter uma líder distrital – Cecília Meireles. Só no CDS e no Porto, antes de qualquer outro partido e lugar. Também esta é uma oportunidade.
Força Cecília Meireles. Conta comigo.


#Escritório