quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Manuel Carvalho no Público

Uma das razões que me tem vindo a afastar dos jornais – eu que já fui assinante de jornais diários, que era um comprador compulsivo e que, apesar de tudo, me mantenho um leitor interessado (apesar dos meus estados de espírito) –, uma das razões que me vêm afastando, dizia, é a falta de mundo de quem nas redacções verdadeiramente conta. Ou, se quiserem, a falta de diversidade nas redacções. O mundo dos jornalistas que «mandam» é todo igual, as perspectivas são quase sempre as mesmas, os lugares que frequentam, os «amigos», os temas de eleição e os preconceitos divergem muito pouco. Digo-o em generalização e em sentido figurado, claro, mas se estiver a ser injusto não serão muitos os injustiçados.

Uma das versões dessa falta de diversidade é a falta de país nas redacções dos jornais. Não é tanto – também é – a falta de destaque e de notícias sobre o que se passa para lá de Lisboa (sobretudo) e do Porto (um pouco menos) ou, se quiserem, para lá do que preocupa Lisboa ou o Porto. É especialmente a falta de um olhar sobre o que se passa que não seja a perspectiva da capital. A standardização das notícias (muito baseadas nos takes da Lusa) e dos artigos de opinião (muito baseados numa pool de comentadores que se desmultiplica pelos canais de televisão, pelas estações de rádio e pelos jornais, e que se comentam reciprocamente nas redes sociais), é uma incontornável consequência da uniformização de protagonistas, de perspectivas, de preocupações. Insisto, falta país nos nossos jornais (e televisões e rádios).

Poderia dar vários exemplos. Temas como a saúde, como o ensino, como a justiça, são discutidos e desenvolvidos na perspectiva de quem, na sua vida pessoal, alterna entre o Hospital de Santa Maria ou de São João e grandes hospitais privados, de quem tem à sua disposição grandes e conhecidos liceus públicos e vários colégios privados (alguns de língua estrangeira), de quem frequenta os modernos edifícios do Campus da Justiça no Parque das Nações. Esta perspectiva única não representa suficiente ou completamente o país que somos. Os olhos, os sentimentos, as ansiedades, as reais prioridades, de grande parte dos lugares deste nosso pequeno Portugal estão pura e simplesmente arredados do país mediático. E em matérias como a política, a Europa e as migrações, e até a mobilidade, por exemplo, não existe reflexão para lá de Lisboa e do Porto (e mesmo nestes, teremos sempre de falar de uma pequena Lisboa e de um pequeníssimo Porto).

Esta constatação chega a ser bizarra porque não faltam directores, ex-directores, chefes de redacção, editores, colunistas e comentadores, originalmente oriundos desses lugares cujos olhos nos faltam. O problema (não queria dizer problema, preferia continuar a insistir que é uma mera «constatação» …) é que quando penetram nessa pequena Lisboa e nesse pequeníssimo Porto parece que são afectados por uma espécie de metamorfose, que os converte e os faz perderem o olhar de origem. É estranho, mas é assim. Passam a discutir as mesmas causas, a ir aos mesmos lugares (restaurantes, concertos, colóquios, etc), e a viver um mundo que de tão pequeno não nos representa suficientemente mas que, pela sua pena, é o mundo que os jornais retractam e ao qual dão voz.

Manuel Carvalho – um homem de Alijó e do Douro, que vive e conhece bem o Porto para lá daquele «pequeníssimo Porto» dos jornais, e que não cedeu à irresistível metamorfose com a pequena Lisboa que domina os jornais – é uma excelente escolha para a liderança do jornal diário que mais relevância tem (e pode ter) na inversão desta nossa pequenez. Quem lê o Manuel Carvalho (eu leio) sabe que os seus olhos acrescentam, não são mais do mesmo, não estão reféns nem standardizados. Mesmo não sendo a sua primeira vez na direcção do jornal, a sua estreia no cargo de director do Público é uma novidade boa. Porque Manuel Carvalho acrescenta país (para usar a linguagem com que comecei este post). Hoje, que é o primeiro dia da sua direcção, aqui ficam os votos de Boa sorte. A ele e ao «país».

#Escritório
#Saladeestar

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Prego per tutti!


Em Março de 2001, quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, estava eu de armas e bagagens em Milão há mais de 6 meses. Já estava na fase em que falava relativamente bem italiano, em que me sentia em casa e em que vivia quase como um italiano. Experimentei – ainda que não completamente – como é fácil a transição emocional de uma comunidade para outra. Se no início lia as notícias de Portugal, seguia os jogos do nosso campeonato e acompanhava as discussões que por cá se alimentavam (não era fácil porque só dispúnhamos de internet na faculdade e os sites eram ainda muito limitados), lenta e progressivamente fui começando a ler os jornais italianos, a seguir (e a ir a San Siro, onde ora jogava o Inter ora o Milan) o campeonato italiano e a interessar-me pelos fenómenos e temas que se viviam em Itália (na música, na política, na sociedade em geral). Lembro-me de pensar como Portugal era distante dos interesses e da «mesa» dos italianos. Para além do futebol, dos calciatores portugueses, que brilhavam sobretudo em Florença, e do Figo (era o tempo áureo do Figo), Portugal não existia em Itália.
O sobressalto com a nação foi-me provocado pela queda da ponte de Entre-os-Rios. Ao fim de seis meses, os telejornais abriram todos com uma notícia de Portogallo. Chocou-me profundamente aquele «regresso a casa» pela boca dos locutores italianos e pelas imagens que repetidamente passavam nos noticiários de um tabuleiro tombado sobre o meu rio Douro. Senti como minha aquela tragédia. Percebi que quando estamos fora se sentem mais os grandes momentos da pátria (acho que o termo certo é pátria). Cheguei a sentir vergonha e embaraço, como é próprio de quando somos nós próprios a falhar à frente de todos. É quase um sentimento de culpa objectiva.
Hoje sinto o mesmo. Mas ao contrário. Itália é seguramente a minha segunda pátria. Onde, insaciável, regresso e regressarei sempre que puder. As notícias da queda da ponte Morandi, em Génova, tocam-me no nervo sensível. Foi em Génova que corri para (voltar) a ver o mar (o mar que Milão não tem e que me faz sempre falta aos sentidos). Foi em Génova que tive uns laivos de Porto (não esqueci como a passeggiata do Corso Italia me sugeriu a minha Foz). E lembro-me de passar na agora fatídica ponte Morandi.
Não consigo ficar indiferente. Quase regresso àquele sentimento de culpa objectiva que me sobressaltou em Março de 2001. Regresso mesmo, aliás.
Prego per te e per tutti!

#Jardim

Férias (I)

Há a luta das malas e da acomodação das tralhas no carro. Esse é um clássico anual a que ninguém escapa (espero nunca escapar, que é sinal que continuo a poder ir para fora, a fazer malas e a passear-me por aí!). Mas há outros «clássicos».
Um dos que me tem interpelado – porque é estranho, reincidentemente estranho – é o dos objectos prometidos de férias. Prometidos de férias? Isso, prometidos – prometemos-lhes um amor que depois não lhes devotamos (nunca lhes devotamos!).

Nós sabemos que não lhe vamos tocar. Que não vamos ter qualquer vontade (quanto mais tentação!). Mas insistimos e incluímos no lote (às vezes bem restrito!) dos indispensáveis de férias (ao lado do fato de banho, da saca de higiene e de uma dúzia de peças de roupa).

Para uns é a raquete de ténis (é este ano que vou combinar uns jogos de manhã antes de ir para a praia!). Para outros é o livro clássico do (introduzir um autor qualquer clássico) que tenho de ler de uma vez por todas (vai ser este ano!). Para outros, as sapatilhas (vou mesmo correr ao fim do dia!). Por regra – isso é certo! – é um objecto volumoso e chato de «encaixar» (até o livro tinha de ser de capa dura e de 500 páginas …).
Invariavelmente, o tal livro que temos de ler, a raquete de ténis, as sapatilhas (já agora, viram como ténis é uma coisa e sapatilhas é outra?) lá vão para dentro da mala. E, invariavelmente, o tal livro que temos de ler, a raquete de ténis, as sapatilhas, regressam incólumes dentro da mala. Porque a reserva mental é sempre a mesma.

Eu acho que o objectivo é outro. Não é nem começar a correr, nem jogar ténis, nem ler o tal livro que temos mesmo de ler e que nunca nos apetece. É não nos pesar a consciência! E reconheço que partir de férias com peso na consciência não faz sentido (já chega o resto). Ninguém tem de assumir antes de tempo que não vai jogar ténis, nem correr, nem ler o tal livro que é vergonhoso ainda não ter lido. Eu percebo. E cumpro!, em detrimento do que for preciso. Este ano, por exemplo, deixei para trás umas garrafas de um óptimo vinho sob a promessa – mais uma … – de que «depois compro lá e bebo na mesma». Não bebi, mas parti de consciência tranquila.

#Saladeestar

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

João Soares da Silva

Foi um dos fundadores da sociedade onde tenho a honra de trabalhar há já 12 anos. O seu nome, aliás, é um dos que figura no nome da própria sociedade. Não precisaria de mais para lhe prestar a minha sincera homenagem.

Era dos advogados mais notavelmente desassossegados que conheci. Mesmo estando nos píncaros da carreira, da reputação, da sofisticação jurídica e do reconhecimento, nunca lhe conheci qualquer sinal de cedência ou de conformismo.

Procurou sempre mais e melhor. Estimulou sempre mais e melhor. Gerou sempre nos que o rodeavam, mais e melhor. Já não tanto para si mas para a sociedade de advogados que criara e geria. Para nós, portanto.

Não será surpreendente dizer que a “Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados” é um fruto reluzente da sua dedicação à profissão. Mas eu arrisco dizer que a prestação de serviços de advocacia em Portugal mudou e evoluiu muito pela sua mão. E serão muito poucos (serão?, hesito no plural) de quem poderemos dizer o mesmo.

A minha homenagem e o meu agradecimento.

#Jardim

40

Não há essa coisa da entrada nos entas com a importância que sugerem as felicitações. Passados dois dias já ninguém liga, e termos 39, 40 ou 41 é exactamente a mesma coisa (ninguém olha para nós na rua tipo “olha vai ali um senhor que já tem 40!”).
Os 40 também não são os novos 30. Eu lembro-me bem como era quando tinha 30. E mesmo eu - que me acho fácil - já não corro por uma noite como corria quando tinha 30.
E olhem que aos 40 não estamos tão “entradotes” como um dia (injustamente) achámos que os nossos pais estavam quando os vimos a fazer 40 - ainda estamos para as curvas por muito que gostem de insistir na ideia de que agora vai ser sempre a descer (isso já era aos 30...).

O melhor de fazer 40 - o que é quase incrível nesta viragem dos 40 - é que os encontros se precipitam. Muitos deles “velhos” encontros. Parece que há uma espécie de “toca a rebate” e que de repente voltamos a falar com aqueles amigos com quem, aos 10 anos, fazíamos um programão à volta de uma bola, com quem, aos 14, bebemos mais do que duas cervejas pela primeira vez numa noite (faço-me entender?), com quem fizemos erasmus aos 20, com quem partilhámos a aventura do primeiro trabalho depois do curso.
E há um certo regresso à família, aos primos “antigos” e até adiados.
Não sei bem explicar. Há qualquer coisa de puro e de cândido que os 40 nos trazem. Não é bem os 40, mas vem por causa da efeméride dos 40.

Já não sei quantos contactos actualizei por estes dias. Quantos abraços pude dar ou enviar. Quantos “que é feito?” me ouviram ou dirigiram. O que sei é que se eu soubesse que era assim já teria simulado estes 40 que o bilhete de identidade agora confirma (digo sempre bilhete de identidade, que não me sai cartão de cidadão) .
Eu prometo que não mais saio do modo 40. A sério que prometo.
PS. Nem sei bem como agradecer a avalanche de parabéns que recebi. O mínimo - que acho que já consegui cumprir - era agradecer individualmente a cada um. Mas renovo aqui um “obrigado” comovido!

#Jardim

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Caros

Camarada para lá, camarada para cá. É quase um dialecto obrigatório à esquerda. Um qualquer congresso do PCP ou da CGTP (na CGTP diz-se congresso não diz?) o camarada ou o «caros camaradas» é uma espécie de «portanto» como auxiliar obrigatório de discurso. E ai de quem não gastar o termo! No PS já não é tanto assim, quer dizer, tratam-se por camaradas porque se querem identificar como de esquerda, mas em muitos casos soa a esforçado e pouco natural (olhamos aos actuais ministros e vemos quão artificial lhes ficará um «camaradas»).
À direita o termo é sobretudo o «caros companheiros» (quem não se lembra do António Pinto Leite no púlpito e em esforço a tentar acalmar os congressistas do PSD que apupavam Luís Filipe Menezes por causa do «sulistas, elitistas e liberais»? «Companheiros, companheiros!» gritava em vão).
Bem, mas o «companheiros» é um fraco oposto ao «camaradas». E se todos imaginamos um «camarada», ninguém se identifica com um «companheiro». Até porque nos dias que passam «o companheiro» faz as vezes, em português vergado ao socialmente correcto, da mulher ou do marido (fulano de tal e companheira, convida-se agora). Nem a fonética safa o companheiro (nisso o camarada é imbatível).
Outra alternativa ao «camaradas» é o «colegas». Mas se é verdade que «colegas» não tem a conotação do camaradas, esbarra na boutade de que «colegas são as p…» (sempre se disse).
Nunca gostei do colegas, devo dizer. Sobretudo porque é um termo que à minha volta servia de alternativa ao «amigos». Na escola havia os que diziam «um colega meu» em vez de «um amigo meu», e eu sempre fui mais de amigos do que de colegas. Já sei que na profissão que escolhi fui cedendo em quase toda a linha (recorro generosamente ao «ilustre colega», ao «caro colega», ainda que sem a pose e a condição das primeiras vezes). É muito assim nas profissões do foro (ainda se diz profissões do foro, ou soa a antigo ou presunçoso?). Lamento mas o colegas chega a ter o seu quê de desprezo («– Quem é aquele? – É um colega meu.», é fraco não é?).
Eu tenho solução. Se não me revejo no camaradas. Se não me identifico com o companheiros. Se não adiro ao desprezo do colegas. Se não posso – reconheço que nem sempre dará – recorrer ao «meus amigos» (não pode ser como o Facebook em que temos milhares de «amigos»). Fico pelo caros. Cabem todos sem conotação, sem desprezo e com boa fonética. Não concordam meus caros?
#Saladeestar

terça-feira, 24 de julho de 2018

Tragédia grega


Custa-me – quase não consigo – ver as imagens da tragédia na Grécia. As chamas colossais, os automóveis em carcaça, a imagem do desespero dos que fazem o rescaldo ou que deambulam pelos restos de destruição, os relatos desesperados. Não consigo. Porque imagino o que lhes vai na alma. E imagino (mais que imagino) o que viveram, o que anteciparam, o que lutaram. Sinto-me irmanado.

Nunca imaginei – até passar pelo 15 de Outubro – como é estar subjugado ao poder louco do fogo. Passei a lidar pior com estas desgraças.

Rezo. Rezo muito por aquelas vítimas.
Que tragédia, meu Deus!


#Jardim