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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O que é urgente

Já não me consola (nunca consolou, em boa verdade) a ideia que vamos tendo de que as tragédias acontecem sobretudo aos outros e não à nossa comunidade e país. Os acidentes impressionantes, as histórias caricatas, se não mesmo macabras, assolam os outros (uma universidade nos Estados Unidos, um acampamento na Noruega, uma ponte em Itália, um desabamento no Brasil, e por aí fora).
 
Nos dias que passam, os incêndios, as pontes, os desabamentos, levam-nos os nossos e tocam-nos à porta.
O que talvez ainda não tenha mudado - e, ao que se sabe, impressiona especialmente na tragédia de ontem com o helicóptero do INEM - é que o nosso estado de alerta ou de sobreaviso ainda é tributário daquela ideia de que só acontece aos outros.
Em Pedrógão como nos incêndios de 15 de Outubro, no desabamento da estrada de Borba como ontem na queda do helicóptero do INEM, a reacção diz muito de como ainda nos vemos à prova de fatalidades.

A estrada da morte em Pedrogão não foi cortada a tempo porque ninguém estava devidamente alerta. A louca profusão das chamas a 15 de Outubro cavalgou livre e sem consciência colectiva horas a fio porque, nesse fatídico domingo, os comandos operacionais ou não estavam ou não comandavam. A estrada de Borba esteve em equilíbrio entre margens eloquentemente despidas, porque se confiou para além do limite que a urgência não se revelaria. E ontem, o primeiro telefonema para o 112 passou pela GNR local sem consequência e sem demais mobilização tendo decorrido mais de 2 horas até que se tomasse consciência da tragédia. Talvez não fizesse diferença. Talvez seja até mal comparado. Mas o padrão repete-se. E desta vez com a triste ironia de ser uma urgência relativa a um helicóptero e a agentes do INEM (um dos serviços de urgência mais relevantes).

É urgente (urgente aqui não é jogo de palavras) sermos capazes de cortar uma estrada num incêndio, de mobilizar os serviços num cenário de catástrofe, de percebermos que um helicóptero caiu com a prontidão do “minuto seguinte”.
 
Mais do que qualquer outra, essa seria a melhor homenagem a esses bravos que vivendo a salvar vidas ontem perderam as suas ao nosso serviço.

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terça-feira, 27 de novembro de 2018

A coragem e o herói (e a logística)

Com excepção do primeiro, o nascimento de um filho traz consigo um bruaá (escreve-se mesmo assim) social que anda muito à volta da ideia de coragem e de heroísmo. Que coragem, nos tempos que correm!, repetem-me. És um herói!, também me dizem. E, mais recentemente, interessam-se muito com a logística. Sim, com a logística. E como é de manhã para sair de casa? Imagino a logística das refeições e das roupas! (logística é mesmo um termo repetido).

Não sei bem como responder. Sinceramente não sei. Porque não é a logística que me ocupa (quer dizer, chateia-me quando obriga a mudança de carro, pelas poucas alternativas e a preços escandalosos). Nem me ocorre essa ideia de coragem (nem sei de que coragem falam). Muito menos o heroísmo (herói em quê exactamente?).

Eu por acaso o que sinto (e acho que nunca consegui explicar) é que é tudo muito simples. Simples no sentido de descomplicado e pouco elaborado. E a simplicidade, por paradoxal que pareça, gera confiança.

É certo que há muita coragem, que não a minha. E que ainda há heróis, que não eu. Porque se posso dar algum testemunho (dizer “testemunho” é presunçoso...) é que, sem mérito nem arte, talvez se explique (se me perguntam por uma explicação) por aquela simplicidade e confiança. Talvez seja isso.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O Polígrafo


É engraçado que o anúncio do “Polígrafo” - o novo projecto jornalístico (creio que se pode dizer jornalístico) que se dedicará a sindicar as informações e as declarações dos políticos, para, no fundo, pôr a nu as fake news e as declarações pouco rigorosas que circulam por aí (especialmente nas diabólicas redes sociais) - gerou a mesma reacção entre esquerda e direita, conservadores e liberais, moderados e reaccionários, interessados e distantes. Todos confiantes que, a singrar o dito Polígrafo, e cumprindo este competentemente a missão a que se propõe, finalmente será desmascarado, sem apelo nem agravo, o “outro lado” e os seus protagonistas.
Por mim só digo que se correr bem, vai ser bonito.

#Saladeestar

O meu pitch


Se eu tivesse um «pitch» na Web Summit diria qualquer coisa como «as soon as possible» marque-se o «closing» do contrato de «build, own and operate» da «Kids Zone» no âmbito do «cluster» da saúde do São João.
Às tantas («to many»), como bom parolo, o Costa convencia-se que era coisa do Web Summit. E talvez tivéssemos, de uma vez por todas, a ala pediátrica do São João (perdão, a «Kids Zone» do «cluster» da saúde do São João, não vá o homem perceber …)

#Saladeestar

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Tenham vergonha por amor de Deus!


Eu tenho mixed feelings relativamente ao que deve ser uma boa decisão sobre o tema da ala pediátrica do São João e das condições em que são acolhidas e tratadas as crianças com doenças oncológicas.
Nunca percebi verdadeiramente, sob o ponto de vista administrativo e de gestão do sistema, qual a articulação entre o São João e o IPO (que fica paredes meias e que acolhe também crianças). Também nunca percebi – na mesma lógica administrativa e de gestão do sistema – em que posição figura o novíssimo centro materno-infantil (pensando especificamente na vertente infantil). E, finalmente, nunca percebi o que determina que umas crianças sejam tratadas numa instituição e outras noutra (quando a patologia e área de residência são as mesmas). Nunca percebi (embora suspeite das eventuais razões) e aqui fica confessada a minha ignorância.

Mas há uma coisa que eu percebi. Que sempre percebi muito claramente, aliás. É que o Estado e os governos (e este em concreto) vivem em permanente reserva mental, quando não mesmo em exercício de mentira despudorada, e alimentam-se de uma cobardia política revoltante.
Sim, cobardia. Porque se porventura entendem que não se justifica o investimento na ala pediátrica do São João (porque os mesmos serviços devem ser prestados noutras instituições) não o assumem – têm medo das manchetes do estilo «Governo deixa cair ala pediátrica do São João» ou não estão interessados em enfrentar a resistência das administrações implicadas.
Sim, cálculo e reserva mental. Porque vão alimentando o dossier sem verdadeiramente o tomarem em mãos – «vamos desbloquear», «será lançado o concurso», fazem aprovar (ou consentem a aprovação) no parlamento de «recomendações ao Governo sobre a prioridade do dossier».
E, sim, mentira despudorada. Porque asseguram há anos que o problema «está já a ser resolvido» e não está, como bem vemos.

Nada disto seria lamentável e revoltante se, pelo meio, não tivéssemos crianças e suas famílias, quais joguetes frágeis e inocentes, vítimas de cuidados e condições indigentes.

Aos gritos – aos gritos esganiçados! – rogo: resolvam o problema! Se é administrativo e de gestão, se é de egos entre instituições, se é financeiro ou mesmo político, não quero saber. Resolvam-no já. Porque o que não pode continuar é o sofrimento indigno a que vimos destinando crianças e suas famílias, precisamente no momento em que mais e melhor os devíamos cuidar.

Tenham vergonha. Por amor de Deus! (sim de «Deus», para que estale a polémica que a que interessa pelos vistos não estala …).



Notícia no JN:

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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Oh meu senhor, eu estou a cumprir ordens


Associamos mais aos guichets de serviços públicos. Mas volta e meia sai-me nos lugares mais improváveis.
A esperança que mantenho (e mantenho) nos homens decai sempre que, quais autómatos, me negam uma pretensão razoável com respostas secas do tipo «estou a fazer o meu trabalho» ou «estou a cumprir ordens».
Há duas coisas que me impressionam especialmente. A triste imagem que dão de quem dá ordens. E o não se darem conta de como se confessam prescindíveis (qualquer gravador barato dá conta do serviço).
E já nem falo do típico tom acintoso-antipático daquele «estou a cumprir ordens».
Se não é minimamente importante viro logo costas. De esperança diminuída, mas é o que faço. E foi o que fiz.

#Saladeestar

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tomam-nos por estúpidos ...

A propósito das eleições no Brasil e de Bolsonaro – mas podia ser também sobre Trump, Marine Le Pen, o independentismo na Catalunha, e tutti quanti – o sentimento que me assalta repete-se invariavelmente.
Eu posso (ou não) estar nos antípodas destes personagens ou movimentos. Posso, por razões sérias ou menos sérias, querer o seu insucesso (ou sucesso) eleitoral. Posso até me estar a marimbar para a sua sorte e a do Brasil, dos EUA, de França ou da Catalunha.
O problema é que aqui no rectângulo negam-nos militantemente o «outro lado».
Não nos consentem os factos e o contexto dos dois lados para podermos interpretar. Vendem-nos a versão do preto e branco, do bom e mau, de Deus e do diabo. E douram um lado e só um.
Eu não quero dourados nem prateados. Eu quero os factos. Porque só com os factos é que eu posso perceber e formular o meu juízo.
Porque de certeza que há explicações que devíamos conhecer.
Porque raio milhões e milhões de americanos quiseram (e continuem a querer) o Trump na presidência em vez da Hillary? Porquê que quase um terço dos franceses se agrega à volta de Marine Le Pen? Porquê que os independentistas não têm uma maioria esmagadora nas eleições na Catalunha? E, agora, na disputa brasileira, porquê que o Bolsonaro não fica afastado liminarmente da segunda volta?
É que, reféns que estamos da selecção e da douta análise jornalística portuguesa, qualquer «outro» resultado é surpreendente e incompreensível. Tal como as coisas nos são apresentadas, a Hillary teria ganho com 99% dos votos, a Marine Le Pen já não teria voz, a Catalunha já seria um Estado independente com apoio de 99% dos catalães, e no Brasil o Bolsonaro seria reduzido a um dígito (com sorte!).
Não, meus amigos. Podem insistir no sectarismo jornalístico. Mas eu não alinho na versão de que os EUA, a França, a Catalunha, ou o Brasil, estão cheios de estúpidos. De milhões de estúpidos.
Às tantas o que é estúpido é insistirem nessa versão. E estupidamente não conseguem nem nos deixam (o que é mais grave) perceber o que se passa.
Não os tomem nem nos tomem por estúpidos!

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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

HIVA•OA (eu digo HIVAOA tudo junto)


«Arrenda-se»!, anunciam. Arrenda-se? Como assim? O HIVAOA? Não sei de quando é o anúncio mas apercebi-me agora e ainda estou em negação.
Como é que vou viver sem aquele avançado, com letras de neons «HIVA•OA, Polinesian Bar»?
Que será daquelas escadas entre o passeio e a porta mais histérica e icónica do Porto?

Eu sei que me fiquei sempre pelas promessas não sérias, à saída da Cufra, do tipo «a ver se um dia destes passo esta porta». Nunca passei. Talvez hesitasse pelo preconceito (estúpido e meio inconsciente) das luzes e recanto me sugerirem uma «casa de diversão» (que eu sabia que não era). Mas que interessa isso? Ainda noutro dia vi imensa gente a protestar contra o fecho da Pastelaria Suíça em Lisboa e era tudo gente que não punha lá os pés! E eu não estou a protestar, estou a verter uma lágrima de comoção pela perda (o que é diferente).
A avenida nunca mais será a mesma sem o HIVAOA. Sem os neons ao lado da Cufra. Sem a porta histérica.
PS. Anda meio mundo entretido com a escarpa da Arrábida. Que interessa isso se ficamos sem o HIVAOA...

#Saladeestar
#Salaodevisitas

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

INFERNED

Há um mês fiquei a matutar num Despacho publicado no Diário da República que anunciava a abertura do concurso para a admissão de nutricionistas no SNS.
Não sou nutricionista, não sou um profissional que trabalhe no SNS e (presunção e ignorância minha, seguramente) ainda não me sinto carecido de cuidados especializados em nutrição.

Mas aquele Diário da República de 27 de Agosto de 2018 deixou-me a matutar.
Não que a ideia de contratar nutricionistas para todo o país, através de um concurso, não me pareça boa. No meu modo simples e cândido, imaginei logo que haver nutricionistas no SNS há-de ser especialmente útil para uns quantos que estão gordos, para outros que estão a engordar, e para outros ainda que poderão vir a estar.
Como vêem, sou bom a matutar (presunção, outra vez).

O problema foi o anti-climax que, de repente, interrompeu aquele meu momento simples e cândido (infantil, mesmo). Ao regressar ao Despacho propriamente dito («para ver melhor», qual lobo mau) percebi que era mais do mesmo.
Em 40 vagas generosamente criadas, 31 (trinta e uma!) eram para a região de Lisboa, e o resto do país que se amanhasse com 9 nutricionistas. Assim mesmo.
Podemos fazer imensas piadas com isto, claro. Que é em Lisboa que estão os gordos. Que é para atacar as «gorduras» do Estado. E por aí fora. Mas não tem piada nenhuma.
Porque este país existe (e é país) para lá de Lisboa. Porque no dia em que quisermos inverter este ciclo (chegará esse dia?) não faltarão «linhas vermelhas» de gente que não está disponível para se deslocar para outras paragens porque tem a sua vida feita há dezenas de anos à volta dos lugares e dos cargos do Estado (que é o mesmo que dizer de Lisboa). Imagino até, daqui a 15 ou 20 anos, a comissão de trabalhadores nutricionistas do SLS (eu sei que é SNS, mas fugiu-me o dedo para o «L») a vociferar em nome de 90% dos nutricionistas que não querem sair de Lisboa. E imagino um ministro qualquer («qualquer» como expressão de desdém), numa declaração sonsa e atabalhoada, a ceder como sempre.

Eu já só peço transparência. Não disfarcem. Contem-nos tudo que nós até amochamos.
Neste país das Comissões, das Agências, dos Grupos de Trabalho, dos Institutos, das Direcções-Gerais, das Altas Autoridades, do diabo a quatro no lugar de sempre, falta ainda uma entidade (só mais uma) – que pode perfeitamente ser em Lisboa (who cares?) – que se dedique a contar-nos tudo. Uma entidade onde qualquer cidadão possa consultar quantas entidades o Estado tem (directa ou indirectamente), as suas localizações, o número de funcionários, os seus orçamentos, há quantos anos. Assim uma coisa simples com informação directa e sem grandes filtros. Para que se perceba o inferno do centralismo que nos sufoca (meço bem as palavras).
Ah, eu até tenho um bom nome para sugerir. INFERNED.

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

E antes da Taxa Robles, como é?

Se nos inspirarmos no caso Robles, o exemplo típico de especulação imobiliária é aquele em que alguém compra um imóvel meio degradado, reabilita-o e depois revende-o com um bom ganho. Por regra, aumenta qualquer coisa ao próprio imóvel (um piso assotado, por exemplo) e divide-o em tantas fracções quanto possível. Basicamente, o que Robles fez (esse especulador …).
Ora se isto é «especulação imobiliária» (claro que não é, é uma actividade como outra qualquer) então olhemos à tributação que hoje vigora.
Fiquemo-nos pelo especulador pessoa singular (dispenso-vos do caso das sociedades e da tributação do que vai sobrando até ao bolso dos sócios).

Pois bem. O ganho obtido com a venda deste imóvel reabilitado (das várias fracções) é tributado ou como ganho de mais-valias (categoria G) ou como ganho empresarial (categoria B). Diria que dificilmente estaremos perante um ganho de mais-valias (o designado ganho fortuito). O que aconteceu (mantenhamo-nos fieis ao caso Robles) foi uma intervenção organizada, com licenças e licencinhas, divisão em várias fracções, aumento de um piso, contratação de obras, promoção para venda. O ganho que se obtiver dessa actividade, lamento dizê-lo, subsume-se na Categoria B e não na Categoria G. E se é assim, querem saber a que tributação se sujeita quem ganha uns bons milhares? Pois. 48% e mais a taxa adicional (poupo-vos à explicação de como se aplica). Basicamente metade do ganho vai para o Estado (que também já encaixou o IVA das obras, convém lembrar). E mesmo para quem tem dúvidas que um caso destes deva cair na Categoria B, sendo antes um ganho da Categoria G (caso em que estaríamos a falar de, números redondos, uma taxa efectiva de 25%), essa dúvida não persiste relativamente àqueles que fazem mais que uma operação desta natureza (aí não há como evitar a Categoria B e a tributação de 50%). E o especulador, convenhamos, é o que reincide na especulação.
É este o cenário. É em cima de metade do ganho já entregue ao Estado (mais de metade!) que decorre o apaixonante debate da tributação da especulação imobiliária.
Desculpem este relambório mas de repente parece que ninguém conhece o regime que temos antes mesmo da Taxa Robles.

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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Tê de tília

Depois do Nobel a Dylan (apesar do manguito que destinou à Academia), no Porto o “Nobel” local vai este ano para o José Mário Branco. A tília a baptizar (por acaso a ideia das tílias é uma representação feliz) nos jardins do Palácio de Cristal terá o nome do dito Branco. Ao lado da Agustina, da Sophia, do Vasco Graça Moura, do Mário Cláudio, vai agora medrar a tília José Mário Branco baptizada em plena Feira do Livro.
Percebe-se que a câmara do Porto queira cavalgar na ideia de que os compositores e letristas de músicas também são escritores, até porque se há lugar que tem sido magistralmente escrito nas músicas é o Porto.
Mas que diabo. Se era para secundar a originalidade da academia sueca, porquê o José Mário Branco? É que eu tomo o impulso por um tiro único e não imagino que se repita tão cedo semelhante homenagem a um letrista de músicas (afinal, a palavra “livro” na feira não cedeu ao “disco”).
Se há letras no José Mário Branco que até singraram pelas melodias que as deram a conhecer, a maioria não tiveram essa sorte. E uma sem a outra - peço desculpa, mas é o que acho - perdem força. Que sentido faz homenagear alguém por ter escrito letras de músicas de curto alcance, pouco conhecidas e meio esquecidas (refiro-me às melodias).
Um “Eu vim de longe” ou “FMI”, ou ainda “Mudam-Se Os Tempos, Mudam-Se As Vontades”, são melodias e letras, ainda que de facção, que tiveram impacto, que marcaram uma época e que são reconhecidamente simbólicas. Mas para uma “tília” eu exigiria mais. Sinceramente.
Se o que queriam (parece que terá sido uma das motivações) era um letrista de época, de intervenção, da “revolução” (há aqui tanto de complexo ...) eu não ia pelo Branco. Para isso preferia um Sérgio Godinho (também nado e criado no Porto e com um repertório de letras e melodias que “sabem a tanto”).
Agora, se me perguntassem, se queriam mesmo um “homem das letras” (de músicas, entenda-se), de sons que ontem e hoje cantamos, que ontem e hoje nos fazem rir e sentir representados, eu sei bem a quem dava uma tília. Sem complexos, eu não hesitava num Tê. Quê? Isso, o Carlos Tê. Tê de tília (é até harmonioso e poético, o que faz sentido).
PS. Daqui a uns anos, um Miguel Araújo (nunca sei se nele gosto mais das letras ou das músicas), bem que pode ter a sua “tília”.


#Saladeestar

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O aumento do ISV ...



Quando entrou em funções, à primeira oportunidade, o Governo escolheu aumentar o Imposto sobre Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP).
A promessa – sempre as promessas – era a de que, quando o preço dos combustíveis subisse, se haveria de descer os impostos respectivos para que os contribuintes não ficassem excessivamente sobrecarregados (o Governo garantia que só visava um aumento limitado da receita).
Entretanto o preço do barril / refinação subiu, os impostos não descem e o Estado vai engordando perniciosamente às custas dos impostos medidos em percentagens (com o IVA sempre acoplado).
As novidades por estes dias vêm a reboque do novo sistema de medição das emissões de CO2 dos veículos (corresponde à sigla WLTP). O novo sistema nada tem a ver com impostos – é simplesmente um novo e mais fiável medidor das emissões de CO2 que deveria ser neutro fiscalmente.
O problema é que concluindo-se, pelo novo medidor, que as emissões de CO2 de cada veículo são superiores às que o anterior medidor nos apresentava, os impostos também aumentam porque se calculam em função das emissões de CO2. Do nada, o Estado vê-lhe cair no colo um aumento do Imposto Sobre Veículos (ISV), do respectivo IVA, e do Imposto Único de Circulação (IUC).
O Governo já veio dizer que vai «ajustar» as tabelas do ISV e do IUC, estando a AT a trabalhar para a proposta do Orçamento de Estado de 2019. Foi pena ter escolhido esta forma redonda de dizer as coisas. O Governo podia ter dito simplesmente que iria rever as tabelas para que o novo medidor (que é uma coisa boa) fosse, de facto, neutro fiscalmente. Mas não. Vai só «ajustar» as tabelas. E nós bem sabemos o que é que isso quer dizer …
O ACP apontou-me o microfone e não pude deixar de dizer o que achava.


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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"A viagem"

A mise em scene (mise en scene, sempre gostei de dizer mise en scene) da viagem nas férias de Verão é sempre mais complexa, consome-nos emocionalmente como nenhuma outra, e tem lugar cativo na programação das férias.
Mas não é tudo a mesma coisa.

Há os que arriscam a sorte a Norte, indo para Moledo, Afife ou Sanxenxo. Os que confiam o bronze à Barra, à Foz do Arelho ou a São Martinho. Os que agora se passeiam por Tróia, pela Comporta ou pela Costa Vicentina. Há ainda os que seguem o desafio do presidente e investem no interior. E há - claro - os que não apostam noutro sol que não seja o do clássico e mais garantido Algarve.
Ora dêem as voltas que quiserem dar não há viagem como a de “lá de cima até lá baixo”. O Porto-Algarve (ou Norte-Algarve, se quiserem) é e há-de ser sempre “a viagem”.

Mesmo com as auto-estradas porta a porta, com os carros xpto que hoje temos, com os ares condicionados automáticos. O Porto-Algarve continua a ser o Porto-Algarve. Exige muitas horas (mais de 4!), obriga a passar por vários estados de espírito, em bom português, mói como o caneco.
Já não é o tempo do IP1, é verdade. Mas até esse era motivo de alguma expectativa. A cada ano experimentávamos mais um troço da A2 (este ano já se vai até à Marateca, agora a portagem é em Alcácer do Sal, e depois já foi em Grandola, Castro Verde, até estar terminada lá pelos idos de dois mil e pouco).
Mesmo os Fangios deste mundo (que exibem sempre o “este ano fiz porta a porta em 3:50!” - há sempre uns quantos) sabem que não há forma de não moer.

Mas no meio da moedeira há dois ou três momentos (inventamos sempre uns momentos para nos distrair mentalmente) que animam a tirada. Se marchamos a sul (engraçado que dizer “a norte” soa, “a sul” não soa tanto) quando entroncamos na A2 vindos da A13 sentimos o primeiro sopro de proximidade ao destino e às férias. Ainda falta imenso (quem parte de Lisboa está a começar) mas há ali qualquer coisa nas cores e nos cheiros que nos sugere proximidade ao destino. Depois há a portagem final da A2. Ainda podemos ter uns quantos quilómetros de Via do Infante e umas quantas voltas à procura da casa alugada, mas a partir daquela portagem “já chegámos”! Até dizemos aos miúdos “já estamos no Algarve” (e eles deixam-se enganar, mesmo que já levem bem mais de 4 horas de viagem no lombo e, em vão, olhem pela janela à procura do mar).
No sentido inverso - no regresso a casa - os momentos são diferentes, mas também servem para nos animar mentalmente. O primeiro é o da cisão na A2. Quando se ergue ao fundo o anúncio A13 Norte vs Lisboa A2 há uma espécie de primeiro sabor a sentido. É por aqui!, e lá viramos todos contentes pela A13 fugindo à cansativa A2.
O outro momento é o da mudança de cores e de cheiros na A1. Sim, a A1 muda a determinada altura. Ali pelos lados de Pombal (talvez antes, mas bem depois de Fátima) a cor da terra, da pedra dominante e do cheiro a sol (o sol tem cheiros diferentes, sempre achei) começamos a sentir a nossa atmosfera que, à medida que vencemos quilómetros, se vai tornando mais evidente até à glória da Ponte da Arrábida. A glória da Ponte da Arrábida é, aliás, um momento incrível. Tenho para mim que a Ponte da Arrábida devia ter uma fita que cortávamos sempre que por ela entrássemos no Porto (tipo cena final de filme). Não há entrada em lugar nenhum do mundo (do mundo!) que seja mais gloriosa.
E então quando vimos de mais de 4 horas, bem de lá de baixo, depois de não sei quantos dias, olhem que me cai sempre uma lágrima.
E todos os anos, quando moído no momento de glória me cai a lágrima, concluo sempre. O Porto-Algarve (Algarve-Porto, no caso) é mesmo, a cada ano, “a viagem”.

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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Ainda o comboio do PS


Não, o problema não é a CP ter garantido adaptar os demais comboios (ao que parece qualquer entidade teria esse tratamento em semelhantes circunstâncias). Aliás, a ideia de alugar um comboio até seria boa (afinal, o PS preocupa-se em privilegiar o transporte ferroviário nas suas próprias iniciativas, em detrimento do automóvel ou do autocarro).
Em face das circunstâncias, o problema é mesmo político.
A CP enfrenta problemas gravíssimos de falta de meios, de episódios recorrentes de atrasos e cancelamentos, de falta de qualidade no serviço, de avarias. E esses problemas estão na ordem do dia especialmente porque é flagrante o desinvestimento e os cortes na ferrovia nos últimos 3 anos de governo PS.
Independentemente do modo como cada um valoriza as prioridades do governo e, portanto, mesmo que não se ache criticável a opção pelo desinvestimento na ferrovia em face de outras urgências (não é o meu caso!), um facto era certo – politicamente, neste Verão de 2018, seria um tiro no pé optar pelo comboio numa iniciativa do partido do governo (para mais, beneficiando de regras de favor facilmente manipuláveis pela oposição e pela comunicação social). Qualquer assessor estagiário saberia ler politicamente o momento e alertaria para a necessidade de por estes dias se fomentar a «distância» relativamente aos comboios.
Mas não. Ninguém quis saber do momento político, das falhas de serviço que têm afectado as vidas das pessoas, dos números chocantes do investimento na ferrovia.
Dava jeito para a organização da iniciativa do partido e, portanto, toca de alugar um comboio como se nada se estivesse a passar.
Dirão que a oposição tem é que agradecer e aproveitar para endurecer o combate político. Talvez, mas a mim preocupa-me o significado da «inabilidade política» (consintamos na expressão).
A presunção e o despudor são inacreditáveis. E, sinceramente, assustam-me. Porque são uma manifestação de poder desmedido, de barriga cheia, quase de gozo e desprezo. Pior que o desinvestimento na ferrovia é o desinvestimento na ferrovia como se nada fosse, como se os problemas que esse desinvestimento está a provocar não existissem e não afectassem a vida das pessoas.
Desta vez foram os comboios mas poderíamos dizer o mesmo sobre os hospitais. A cada declaração comicieira sobre os serviços públicos e o Estado Social – em que o confronto com a realidade do investimento fazem esboroar a dúvida sobre a real convicção dos protagonistas – adensa-se a sensação de falta de vergonha.
Tenho imenso medo da falta de vergonha.
Pode parecer estranho mas o cálculo político, o pudor e o bom senso (é de bom senso que falamos também) protegem-nos dos políticos com muito poder. Quando falta tudo isso a quem tem poder ficamos mais expostos.

#Escritório
#Saladeestar

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O raro McCain

O que sempre achei notável em McCain é que vivia radicalmente a coragem em todas as suas dimensões.
A coragem física, a coragem do carácter, a coragem não calculista (aquela que deita tudo a perder aos olhos humanos).
Coragem McCain tinha-a toda, o que é raríssimo.
#Saladestar

E eu, que resisti? Nada?


Já sei que ninguém quer saber da manta de retalhos em que fica o nosso sistema, da confusão com o regime do residente não habitual (mantém-se como está?), da esperança de um regime para o interior, da canelada no princípio da igualdade e da capacidade contributiva, da canelada (outra) na estabilidade e na previsibilidade que se apregoa.
Mas e eu, que resisti? Nada?


#Saladeestar

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Manuel Carvalho no Público

Uma das razões que me tem vindo a afastar dos jornais – eu que já fui assinante de jornais diários, que era um comprador compulsivo e que, apesar de tudo, me mantenho um leitor interessado (apesar dos meus estados de espírito) –, uma das razões que me vêm afastando, dizia, é a falta de mundo de quem nas redacções verdadeiramente conta. Ou, se quiserem, a falta de diversidade nas redacções. O mundo dos jornalistas que «mandam» é todo igual, as perspectivas são quase sempre as mesmas, os lugares que frequentam, os «amigos», os temas de eleição e os preconceitos divergem muito pouco. Digo-o em generalização e em sentido figurado, claro, mas se estiver a ser injusto não serão muitos os injustiçados.

Uma das versões dessa falta de diversidade é a falta de país nas redacções dos jornais. Não é tanto – também é – a falta de destaque e de notícias sobre o que se passa para lá de Lisboa (sobretudo) e do Porto (um pouco menos) ou, se quiserem, para lá do que preocupa Lisboa ou o Porto. É especialmente a falta de um olhar sobre o que se passa que não seja a perspectiva da capital. A standardização das notícias (muito baseadas nos takes da Lusa) e dos artigos de opinião (muito baseados numa pool de comentadores que se desmultiplica pelos canais de televisão, pelas estações de rádio e pelos jornais, e que se comentam reciprocamente nas redes sociais), é uma incontornável consequência da uniformização de protagonistas, de perspectivas, de preocupações. Insisto, falta país nos nossos jornais (e televisões e rádios).

Poderia dar vários exemplos. Temas como a saúde, como o ensino, como a justiça, são discutidos e desenvolvidos na perspectiva de quem, na sua vida pessoal, alterna entre o Hospital de Santa Maria ou de São João e grandes hospitais privados, de quem tem à sua disposição grandes e conhecidos liceus públicos e vários colégios privados (alguns de língua estrangeira), de quem frequenta os modernos edifícios do Campus da Justiça no Parque das Nações. Esta perspectiva única não representa suficiente ou completamente o país que somos. Os olhos, os sentimentos, as ansiedades, as reais prioridades, de grande parte dos lugares deste nosso pequeno Portugal estão pura e simplesmente arredados do país mediático. E em matérias como a política, a Europa e as migrações, e até a mobilidade, por exemplo, não existe reflexão para lá de Lisboa e do Porto (e mesmo nestes, teremos sempre de falar de uma pequena Lisboa e de um pequeníssimo Porto).

Esta constatação chega a ser bizarra porque não faltam directores, ex-directores, chefes de redacção, editores, colunistas e comentadores, originalmente oriundos desses lugares cujos olhos nos faltam. O problema (não queria dizer problema, preferia continuar a insistir que é uma mera «constatação» …) é que quando penetram nessa pequena Lisboa e nesse pequeníssimo Porto parece que são afectados por uma espécie de metamorfose, que os converte e os faz perderem o olhar de origem. É estranho, mas é assim. Passam a discutir as mesmas causas, a ir aos mesmos lugares (restaurantes, concertos, colóquios, etc), e a viver um mundo que de tão pequeno não nos representa suficientemente mas que, pela sua pena, é o mundo que os jornais retractam e ao qual dão voz.

Manuel Carvalho – um homem de Alijó e do Douro, que vive e conhece bem o Porto para lá daquele «pequeníssimo Porto» dos jornais, e que não cedeu à irresistível metamorfose com a pequena Lisboa que domina os jornais – é uma excelente escolha para a liderança do jornal diário que mais relevância tem (e pode ter) na inversão desta nossa pequenez. Quem lê o Manuel Carvalho (eu leio) sabe que os seus olhos acrescentam, não são mais do mesmo, não estão reféns nem standardizados. Mesmo não sendo a sua primeira vez na direcção do jornal, a sua estreia no cargo de director do Público é uma novidade boa. Porque Manuel Carvalho acrescenta país (para usar a linguagem com que comecei este post). Hoje, que é o primeiro dia da sua direcção, aqui ficam os votos de Boa sorte. A ele e ao «país».

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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Férias (I)

Há a luta das malas e da acomodação das tralhas no carro. Esse é um clássico anual a que ninguém escapa (espero nunca escapar, que é sinal que continuo a poder ir para fora, a fazer malas e a passear-me por aí!). Mas há outros «clássicos».
Um dos que me tem interpelado – porque é estranho, reincidentemente estranho – é o dos objectos prometidos de férias. Prometidos de férias? Isso, prometidos – prometemos-lhes um amor que depois não lhes devotamos (nunca lhes devotamos!).

Nós sabemos que não lhe vamos tocar. Que não vamos ter qualquer vontade (quanto mais tentação!). Mas insistimos e incluímos no lote (às vezes bem restrito!) dos indispensáveis de férias (ao lado do fato de banho, da saca de higiene e de uma dúzia de peças de roupa).

Para uns é a raquete de ténis (é este ano que vou combinar uns jogos de manhã antes de ir para a praia!). Para outros é o livro clássico do (introduzir um autor qualquer clássico) que tenho de ler de uma vez por todas (vai ser este ano!). Para outros, as sapatilhas (vou mesmo correr ao fim do dia!). Por regra – isso é certo! – é um objecto volumoso e chato de «encaixar» (até o livro tinha de ser de capa dura e de 500 páginas …).
Invariavelmente, o tal livro que temos de ler, a raquete de ténis, as sapatilhas (já agora, viram como ténis é uma coisa e sapatilhas é outra?) lá vão para dentro da mala. E, invariavelmente, o tal livro que temos de ler, a raquete de ténis, as sapatilhas, regressam incólumes dentro da mala. Porque a reserva mental é sempre a mesma.

Eu acho que o objectivo é outro. Não é nem começar a correr, nem jogar ténis, nem ler o tal livro que temos mesmo de ler e que nunca nos apetece. É não nos pesar a consciência! E reconheço que partir de férias com peso na consciência não faz sentido (já chega o resto). Ninguém tem de assumir antes de tempo que não vai jogar ténis, nem correr, nem ler o tal livro que é vergonhoso ainda não ter lido. Eu percebo. E cumpro!, em detrimento do que for preciso. Este ano, por exemplo, deixei para trás umas garrafas de um óptimo vinho sob a promessa – mais uma … – de que «depois compro lá e bebo na mesma». Não bebi, mas parti de consciência tranquila.

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quarta-feira, 25 de julho de 2018

Caros

Camarada para lá, camarada para cá. É quase um dialecto obrigatório à esquerda. Um qualquer congresso do PCP ou da CGTP (na CGTP diz-se congresso não diz?) o camarada ou o «caros camaradas» é uma espécie de «portanto» como auxiliar obrigatório de discurso. E ai de quem não gastar o termo! No PS já não é tanto assim, quer dizer, tratam-se por camaradas porque se querem identificar como de esquerda, mas em muitos casos soa a esforçado e pouco natural (olhamos aos actuais ministros e vemos quão artificial lhes ficará um «camaradas»).
À direita o termo é sobretudo o «caros companheiros» (quem não se lembra do António Pinto Leite no púlpito e em esforço a tentar acalmar os congressistas do PSD que apupavam Luís Filipe Menezes por causa do «sulistas, elitistas e liberais»? «Companheiros, companheiros!» gritava em vão).
Bem, mas o «companheiros» é um fraco oposto ao «camaradas». E se todos imaginamos um «camarada», ninguém se identifica com um «companheiro». Até porque nos dias que passam «o companheiro» faz as vezes, em português vergado ao socialmente correcto, da mulher ou do marido (fulano de tal e companheira, convida-se agora). Nem a fonética safa o companheiro (nisso o camarada é imbatível).
Outra alternativa ao «camaradas» é o «colegas». Mas se é verdade que «colegas» não tem a conotação do camaradas, esbarra na boutade de que «colegas são as p…» (sempre se disse).
Nunca gostei do colegas, devo dizer. Sobretudo porque é um termo que à minha volta servia de alternativa ao «amigos». Na escola havia os que diziam «um colega meu» em vez de «um amigo meu», e eu sempre fui mais de amigos do que de colegas. Já sei que na profissão que escolhi fui cedendo em quase toda a linha (recorro generosamente ao «ilustre colega», ao «caro colega», ainda que sem a pose e a condição das primeiras vezes). É muito assim nas profissões do foro (ainda se diz profissões do foro, ou soa a antigo ou presunçoso?). Lamento mas o colegas chega a ter o seu quê de desprezo («– Quem é aquele? – É um colega meu.», é fraco não é?).
Eu tenho solução. Se não me revejo no camaradas. Se não me identifico com o companheiros. Se não adiro ao desprezo do colegas. Se não posso – reconheço que nem sempre dará – recorrer ao «meus amigos» (não pode ser como o Facebook em que temos milhares de «amigos»). Fico pelo caros. Cabem todos sem conotação, sem desprezo e com boa fonética. Não concordam meus caros?
#Saladeestar