sexta-feira, 27 de abril de 2018

25 de Abril

Serei um filho do PREC e daqueles anos de governos provisórios e constitucionais de curta duração. Cresci ainda num país sob a tensão esquerda/direita e, mais do que esta, sob a disputa entre os que pendiam para as democracias ocidentais e os que torciam pela tutoria ou inspiração de leste.
Os amores e desamores pelo 25 de Abril, nos finais dos anos 70 e inícios de 80, eram-nos servidos em absoluto condicionamento. Porque a “liberdade” de Abril nunca foi nem a mesma nem uma só. Porque, paradoxalmente, o Abril celebrado era ostensivamente de facção. Porque na sua peculiaridade de revolução sem tiros e sem sangue, havia clubite e falta de magnanimidade entre protagonistas. Os “donos” - contraditoriamente “donos” - e os “vencidos” - como se numa democracia em que queriam estar (e construir) alguma vez fizesse sentido essa dor de vencidos.
No fundo no fundo, era Abril (esse mês substantivado) que teimava em não se cumprir na cabeça das pessoas. Era - interpreto hoje - a falta de adesão de uns, por um lado, e a resistência a essa adesão pelos que o celebravam, por outro.
O 25 de Abril - se genuinamente visto e sentido como uma viragem para a democracia pluralista, para a liberdade e para a abertura à Europa e ao mundo - sai defraudado se for de facção. Ele cumpre-se na justa medida em que quem dele não participou o celebre. Ele cumpre-se na justa medida em que quem dele participou celebre a celebração de quem dele não participou. Ele cumpre-se na justa medida em que cada um, livremente, o celebre ou não celebre.
Eu celebro. Porque a democracia vingou.

#Escritório